Pode ser…

Pode ser que a turma se aproxime trazendo com ela a sombra do silêncio que cresceu no medo. Aquele silêncio que foi engolindo palavra por palavra, todas que significavam esperança. Tudo isso só porque o medo foi aumentando de forma tão assustadora que conseguiu embaçar o futuro. Não sobrou muito o que fazer desse presente estragado, além de olhar pela janela e não reconhecer a paisagem nem a nós mesmo. Uma vontade danada de não ser essa novidade triste, acontecida de urgência, que não permitiu a ninguém planejar o diferente do que se era até então. “Até então”, neste caso, foi o dia de “não poder”: Não poder trabalhar. Não poder sair à rua. Não poder cortar o cabelo. Não poder visitar os amigos. Não poder receber ninguém para um café, ou para uma conversinha de comadres. Não poder ser o que se era de natural e tão corriqueiro, que nem nos demos conta que, ao contrário dos grandes feitos, eram as coisas pequenas e tão comuns que nos permitiam ser individualmente reconhecidos. Tudo ficou perigoso. Ficamos terrivelmente tóxicos. E à nossa volta, enorme intimidação.

Ficamos com a tecnologia, alguns animais e poucas pessoas de convivência. Para quem tiver sorte de ter celular, bichos e gente na intimidade… Vida restrita e sufocante em menor ou maior proporções.

Nos primeiros dias do “não poder”, até que aquelas diferenças não incomodaram muito. Ninguém sabia ao certo o que viria. E veio a incerteza em tamanho gigante. Proibido isso, proibido aquilo, sem nenhuma perspectiva de ser identificado e contido o inimigo. E fomos encolhendo nas vontades não realizadas e engordando na ansiedade de não sabermos até quando permaneceríamos seres restritos. Servíamos dos livros, da televisão, das obrigações domésticas; até sermos levados à exaustão dos livros, da televisão, e odiando as obrigações domésticas. Nenhuma resposta nos foi dada. Nenhum alento. Vivíamos esperando que a curva fosse achatada e ainda hoje aguardamos, sem qualquer convicção, que a tal curva se encolha na mesma medida que a nossa liberdade foi desautorizada.

“Não poder” teve sérias ramificações. Individualmente, o medo foi se alastrando tal qual erva daninha em locais inapropriados: coração e mente. Coletivamente tudo ficou sem eira-nem-beira, já que o “não poder” atingiu também os que deveriam ter poder de formalmente governar uma solução. Ninguém foi poupado. Poder passou a representar simplesmente o privilégio de alguns em acessar um hospital no tempo imediato da necessidade. Confirmado então que o poder é desfrute de um a dois por cento da população. E mesmo esses, morrem na luxuosa solidão de um quarto hospitalar. Os sem poder morrem em número maior, na solidão compartilhada das enfermarias desde muito tempo com lotação esgotada. E ninguém sabe até quando o medo nos permitirá uma certa camada, fina, de humildade. Ou, ao contrário, o medo nos levará ao desespero e nos fará saltar no abismo, um voo cego na direção de tudo que nos tem sido interditado.

A morte se embriaga na Dexametasona, Hidroxicloroquina, Cloroquina, Azitromicina, Heparina, e outros não mencionados. Em doses distintas ou tudo misturado, a morte por aqui está na casa dos milhares e são milhões que se fizeram hóspedes do indesejável. A pergunta de cada um é: “quando será a minha vez?”. E a roleta-russa do tempo brinca conosco na aflição do nosso desamparo.

Hoje acordei com a notícia circular de que na minha pequena comunidade são sete pessoas inscritas diretamente no horror dos tempos. Vizinhos. Pode ser alguém que conheço; pode ser alguém que eu não tenha mais nenhuma oportunidade de vir a conhecer; pode ser que todos se recuperem; pode ser que não. Pode ser que essa dor fina que me persegue e também aflige a tantos, deixe de existir. Pode ser que um novo dia nasça sem nos impor qualquer tipo de máscara. Pode ser que possamos novamente nos reunir, sem nenhuma exceção, e emocionados nos abracemos pelo milagre de termos resistido ao invisível que na tocaia nos observava, investindo em um ataque iminente.

Pode ser que a turma se aproxime trazendo com ela todos os detalhes da comoção de sobreviver. Reaprender o sentido de cada palavra, novos significados para o que for esperança.

Às vezes a vida nos coloca dentro de um liquidificador. Tá ligado?

Leve e Suave

No dia seguinte ao meu aniversário o telefone tocou e era uma amiga querendo algumas informações sobre um aparelho a ser adquirido. E como nos é de feitio, as despedidas acontecem depois de salpicarmos gotas de bom humor sobre os fatos, muitas vezes desidratados, que entrelaçam as nossas vidas. Mas naquela ocasião algo de especial me foi dito ao término da ligação: “Você já se deu conta de que daqui a quinze anos estaremos com oitenta anos? Precisamos tomar algumas providências porque quinze anos passam num piscar de olhos”. Sobre o passar do tempo acho que todos com mais de sessenta anos são graduados, ou deveriam ser, com relação às prioridades a serem encaradas na vida. Creio que envelhecer bem deveria ser uma dessas prioridades.

Me foi impossível ignorar um dos possíveis sentidos da mensagem contida naquela observação. Imediatamente me veio à mente, como num filme, os mais de cinquenta anos de uma convivência, quase milagrosa, permeada de tolerância; de aptidão para valorização dos pontos comuns das duas personalidades; de confiança irrestrita apesar de algumas atitudes fugirem à nossa compreensão; de cumplicidade como naquela noite em que nos dispusemos a não dormir para esperar o Papai Noel, e fomos logo dissuadidas por argumentos peremptórios de um adulto que mais tarde soubemos ser ele um dos Papais Noéis que enfeitavam a nossa infância; por nossas divagações sempre muito artísticas sobre o que seria o futuro; por nossas projeções existenciais que eram assustadoramente sem limites até irmos crescendo e os limites cada vez mais estreitados ao ponto de muitas vezes nos sentirmos sufocadas, sem espaço; lembranças do primeiro emprego; do primeiro salário; das análises sem fim sobre os filmes de Ingmar Bergman que sempre terminavam com uma série de interpretações possíveis, mas sobre as quais nenhum empenho em fazê-las prevalecer sobre as demais; das tentativas sempre pacientes, perseverantes, querendo que eu viesse a apreciar esse tal do rock and roll quando eu sempre fui mais um banquinho e um violão pela música popular brasileira; de nossas confidências sobre tantos feitos que a vida caprichosamente nos devolveu em desfeitos; dos nossos sorrisos; das nossas lágrimas; da gratidão silenciosa por estarmos sempre presentes nos reveses que não foram parcimoniosos nem passíveis de adiamentos – sequer transferidos a quaisquer outros. A sugestão telefônica foi, então, pensarmos nas providências cabíveis para que o andamento natural das nossas vidas continuasse a ser belo e nos fizesse sempre manter contato com aquelas crianças abarrotadas de infinitudes que nunca foram rejeitadas por mais que a vida nos desafiasse a fazê-lo.

Um dia, muitos anos atrás, ela me veio com a ideia de futuramente recolhermos todos os nossos sobreviventes queridos em uma comunidade batizada de “Genoveva Ville”. Nessa aldeia da “melhor idade”, repleta de verde, repleta de luz, repleta de pássaros, repleta de riachos, repleta de uma imaginada felicidade, estaríamos todos lá tomando nosso chá à tarde, lendo nossos livros e os fazendo circular, acompanhando as variações das estações e delas os frutos dos diferentes plantios; alguns cachorros que saberiam rodear aqueles que mais os desejavam; muitas flores coloridas emoldurando as janelas de cada uma das – não sei quantas – edificações ocupadas individualmente pelos nossos amigos. E lá viveríamos felizes até que a eternidade viesse nos retirar da cena.

Sim, para chegarmos até lá providências são necessárias. A maioria é de foro íntimo, e aí reside a gravidade maior dos nossos problemas. Segue uma lista cujo cumprimento não executo a marca de um por cento (numa avaliação otimista de minha parte): fazer caminhadas ao raiar do dia; aproveitar as pracinhas públicas com aquele monte de aparelhos que parecem ter sido instalados na hipótese de virmos a disputá-los; uma alimentação balanceada, de preferência sob os auspícios de uma nutricionista; diminuir o café; eliminar a ingestão alcoólica, salvo aquela eventual taça de vinho em algumas refeições ou comemorações; periodicidade médica com a constância requerida pelas necessidades ocasionais ou permanentes; um pouco de sol naqueles horários do benefício; eu pedalar; você nadar; mantermos essa predisposição inabalável na certeza de que tudo passa e portanto, preservar ou restaurar o equilibro é lei natural das nossas vidas. Não, não coloquei de propósito o quesito “parar de fumar”, porque, felizmente, não nos é uma providência compartilhada e por ser de foro muito íntimo, é uma estupidez que posso diminuir mas nunca erradicar. Cada um é estúpido ao seu modo, afinal.

E, assim, podemos caminhar saltitantes na direção do “Genoveva Ville”. Desfrutar das idiossincrasias de uma mesma geração, compartilhando um espaço de convívio que imaginamos altamente harmonioso, povoado por seres que amamos e tendemos a acreditar, piamente, que daremos “um banho” em Shangrilá (o filme) e deixaremos Manuel Bandeira acanhado com as possibilidades idealizadas para Pasárgada. E aquele bando de velhinhos juntos, entusiasmados, felizes para sempre…

Agora só nos resta identificar quem será o Administrador do nosso “Genoveva Ville” porque, convenhamos, podemos muito, mas as inevitáveis consequências do tempo irão nos buscar por maior que seja o privilégio de estarmos rodeados de boas companhias.

Para M.M.C.

(uma versão “FM” do amor. A anterior foi “AM” e cheia de ruídos)

Ela disse-me assim…

Essa canção de Lupicínio Rodrigues, imortalizada na voz de Jamelão, ressalta nos seus versos o remorso. E com tamanha intensidade que a traição ficou num segundo plano, bastante acanhada…. Mas aqui a história é outra, embora eu tenha para mim que o remorso deveria ser pauta de reflexão para quem me trouxe tantas fendas emocionais num discurso rápido.

No dia seguinte ao meu aniversário, quando eu ainda estava me deliciando com a lembrança dos amigos que se manifestaram pela data, ao mesmo tempo que me recordava daqueles que não se revelaram, muito provavelmente constrangidos evitando que o acúmulo dos anos fosse destacado, o telefone celular tocou.

No outro lado da linha uma amiga (será que a palavra “amiga” cabe para se identificar uma pessoa que conhecemos há mais de cinquenta anos e com a qual mantemos uma relação de mútua tolerância por mais de meio século? Mais correto dizer que um “milagre” me telefonou…) me abordou querendo tirar algumas dúvidas sobre um aparelho eletrônico que estava pensando em adquirir. Pois bem, quando o assunto já estava encaminhado e estávamos prestes a nos despedirmos, ela disse-me assim: “Você já se deu conta que daqui a quinze anos estaremos com oitenta anos? Precisamos tomar algumas providências porque quinze anos passam num piscar de olhos”. Nessas horas parece que a operadora de telefonia faz questão de manter no máximo a excelência do serviço que nos oferece, e a partir de tanta eficiência fui obrigada a ouvir em nítido e bom som a frase na integralidade de todos os fonemas…

A primeira coisa que me ocorreu foi questionar o tempo do verbo empregado, “estaremos”… Como assim, “estaremos”? Quem garante que eu ou ela ainda estaremos capacitadas a desfrutar dos sentimentos – bons e ruins – daqui a quinze anos? A parte isto, inevitavelmente teremos que lidar nesse intervalo de tempo com a crueldade de chorarmos por aqueles que de forma natural, ou não, só terão a nossa memória como testemunho de que viveram a existência a que foram capazes. Isto se memória ainda tivermos e se respirar ainda nos for facultado. Providências a serem tomadas? Nem questionei, mas estaria ela se referindo a qualquer coisa do tipo herança? Nesse quesito muito provavelmente meus herdeiros me odiarão com toda a energia que em vida me pouparam. Herança: um veículo de 1992, que mesmo lindo e operante vale infinitamente menos que as patacas emocionais que me fizeram conservá-lo até hoje; uma coleção de canetas-tinteiro da qual ninguém mais se utiliza (inclusive eu) e que já eram sem serventia prática mesmo antes dos textos eletrônicos me fazerem esquecer de como é a minha caligrafia; e outra coleção, para mais de quatrocentos CDs com numerosíssimas canções que foram gravadas ao sabor das diferentes emoções a que fui acometida em distintas e contraditórias situações. Fora isso, me desculpem, uma infinidade de expectativas e perspectivas que por se tratarem das angústias da minha existência não as delego a ninguém, muito em função dos resquícios do meu espírito cristão de não desejar mal a quem quer que seja. Bom, pode ser que a referência não tenha sido herança, mas sim de que forma gostaríamos de encomendar as nossas exéquias (esta é uma palavra afetada, assim como a morte). Nesse quesito, por favor me poupem de velório e não desperdicem dinheiro com cremação. No velório há uma morbidez que sempre me pareceu a pior injustiça a ser feita para alguém do nosso convívio: salvo um ou outro que possa se dar por feliz em nos ver imobilizados num caixão, é um constrangimento para qualquer defunto saber que ficará ali exposto ao choro e à lamentação das pessoas e que muito provavelmente só as queria ver felizes e sorridentes. Na cremação, além do absurdo financeiro que é nos meter num forno, sei lá quem irá receber uma urna com uma quantidade expressiva de pó que será então o condensado da nossa existência. E o que fazer com o raio da urna? Quem ousar me cremar que o decida porque até lá serei um fantasma ameaçando sair da urna como o gênio da lâmpada encontrada por Aladim, mas sem direito a conceder qualquer pedido que venham a me fazer. Arre! Entreguem meu corpo a uma faculdade de Medicina, se servir para um nobre sentido de aquisição de conhecimento está ótimo; no mais das serventias poderá causar risadas em algum estudante que certamente deveria estudar outra coisa qualquer.

Isto posto, minha última reação ao impacto, foi vigorosamente clamar que na impossibilidade de todos os queridos se manterem vivos por mais quinze anos, que não fosse eu a ter que suportar a saudade e a solidão de reverenciá-los numa espécie de isolamento social, este sim definitivo.

Para M.M.C. (apesar disto, meu amor não foi abalado)

Daniel Galera

Quando eu li “Barba Ensopada de Sangue” Daniel Galera não me era totalmente desconhecido uma vez que “Até o dia em que o cão morreu” inaugurou e me incitou a querer confirmar minhas impressões sobre o autor.

A primeira vez que ouvi falar em Daniel Galera foi no Podcast do Antônio Fagundes “Clube do Livro” (bom demais! Claro: saiu do ar…) e o título já me deixou curiosa.

Daniel Galera nasceu em São Paulo, mas é gaúcho de tempo vivido em Porto Alegre (até parece que estou abrindo uma janela nas minhas leituras para a ponta sul do país… inclusive o “Barba Ensopada” faz referência a Torres a partir de uma competição de natação que há, ou havia, chamada Travessia de Torres – algum gaúcho me confirme se esta competição aquática aconteceu, ou acontece, ou se a ficção do autor predominou até nisso), jovem (nasceu em 1979), já acumulou vários prêmios e tem seus livros traduzidos mundo afora. Salvo imperdoável erro de minha parte sua literatura consiste nas seguintes obras: “Dentes Guardados” (2001), “Até o dia em que o cão morreu” (2003), “Mãos de Cavalo” (2006), “Cordilheira” (2008), “Barba Ensopada de Sangue” (2012) e “Meia-noite e Vinte” (2016). Já comecei a ler este último…

A sensação quando li a “Barba Ensopada de Sangue” foi do tipo: “Nossa! Aonde isso vai dar?” Simplesmente não conseguia me desgrudar do livro, café da manhã lendo; almoçando lendo; feliz com o isolamento social por me deixar mais tempo mergulhada no livro; antes de dormir lendo; tá… cheguei a levar o livro comigo pro banheiro. A história e a maneira de escrever enredam o leitor de uma tal maneira que as páginas vão deixando quem as lê com aquela sensação de quando você sai de um filme um pouco enevoado e fica torcendo para ninguém quebrar o encanto com o fatídico “E aí? Gostou?”. Basta dizer que o personagem principal sofre de prosopagnosia, ou seja uma doença degenerativa que impede que a pessoa reconheça a fisionomia dos indivíduos. Daí é possível imaginar os níveis de aflição acompanhando o personagem num enredo intimidador com relação à própria vida sem a possibilidade imediata de reconhecer nos semblantes seus amigos e seus inimigos, além das estratégias usadas pelo personagem para identificar pessoas por algumas características distintas que não a face. Um baita exercício, convenhamos. Outros ingredientes alimentam fartamente o leitor: a descrição da cidade litorânea de Garopaba (SC) compele a se visitar a cidade com mapa e livro para percorrer todos os lugares descritos. É quase uma compulsão! Fora isso, tem suicídio, tem mistério, tem romance, tem amor incondicional, de tirar o folego, por uma cachorrinha…. Tem mar, tem montanha, tem empatia, tem medo, tem frustração, tem raiva…..

Olha, para resumir: eu vou ler tudo que o Galera escreveu só para conferir que ele não foi capaz de superar todos os sentimentos que o leitor vivencia em “Barba Ensopada de Sangue”.

Simplesmente brilhante!!!

Rabiscando na Areia

Em 2019 eu recebi o livro “Rabiscando na Areia’ que me foi presenteado pelo autor com uma dedicatória simpática e humilde. O autor, Bento Barcelos da Silva, não o conheço pessoalmente mas dele me foi transmitida admiração a partir de um comentário aqui, outro ali, por parte de quem expressou privilégio de o ter como amigo.

Quando terminei a leitura do livro me veio a nítida impressão de que escrever é a tarefa mais fácil do mundo. E, convenhamos, um autor que consegue nos passar essa sensação é digno de todo respeito por ser detentor de um mérito que para mim é fundamental: clareza na exposição de suas ideias. O escritor que consegue me enganar sobre as turbulências do processo criativo – impedindo que eu me confunda nas suas palavras, evitando que eu me embaralhe nas dúvidas do seu pensamento, me poupando das hesitações que algumas palavras trêmulas assombram quem as persegue – me apresentando uma escrita limpa, objetiva, direta, tem, certamente, minha reverência e certa quantidade de inveja.

Falar sobre estilo, não tenho conhecimento, pretensão nem interesse de dissertar sobre. No que diz respeito a estilo só sei que gosto de uns e não gosto de outros. Pelas razões acima o estilo do Bento Barcelos me satisfaz plenamente. Naturalmente isso não implica concordância ampla com todas as posições de suas ideias. Felizmente, já que contestações devem ser encaradas como um efeito espontâneo a quem ousa divulgar seus pontos de vista. Mas quem consegue transmitir suas ideias muito claramente, facilita o exercício crítico do leitor. A isso agradeço com entusiasmo.

O livro é dividido em duas partes: a primeira parte se refere a fatos reais, históricos ou pessoais, que foram buscados na memória prodigiosa de quem os narra; a segunda parte é ficcional, identificada pelo autor como sonhos. Embora o livro tenha essa divisão a narrativa permanece idêntica, com o mesmo grau de envolvimento do leitor. Tudo se assemelha a alguém que se aproxima da gente, estabelece uma conversa, e levamos para casa um repertório de casos que nos levam a refletir.

Falar sobre o autor eu não deveria me aventurar, uma vez que não o conheço. Mas dizem que todo escritor deixa seus traços pessoais nas páginas que preenche. Assim, a insolência me faculta a imaginar o que me é desconhecido. Diria que Bento é um prosador, alguém que gosta de uma boa conversa, alguém que tem o dom da escuta, alguém que nos convida para um cafezinho no meio tarde e quando nos damos conta já é meia noite e ninguém viu o tempo passar. Tem um traço marcante que fica muito destacado nos textos: um amor cívico pela terra que o viu crescer (Torres-RS) e faz um esforço, entre didático e indignado, para que seus conterrâneos se apropriem historicamente do lugar onde vivem. Além disso tem uma transparente gratidão pelos autores que o inspiraram na redação dos seus textos (não sei se são contos, artigos ou crônicas – ou tudo junto). E esse reconhecimento não se limita às frias notas de rodapé: as referências inspiradoras estão colocadas ao fim de cada texto com a mesma honraria que tiveram os seus textos. Confesso que nunca encontrei um livro que tivesse tal diagramação. Gostei, gentil.

Enfim, só posso agradecer a generosidade. Tanto pelo envio do “Rabiscando na Areia” quanto do que recebi no mês subsequente: “Torres – História em Crônica”. Além do prazer na leitura, certamente permitiram enriquecer meu conhecimento histórico de uma maneira que muitos dos meus professores de História fracassaram ao tentar.

Muito obrigada !!

Concílio

Ainda bem que era a mão esquerda. Sou destro e na eventualidade de vir a perder uma das mãos, melhor mesmo que seja a esquerda. Não sentia uma dor insuportável, e o meu pânico com a situação não ultrapassava os limites da sanidade. Muito provavelmente se as mandíbulas do cachorro se abrissem, haveria danos, sangue, emergência médica. Eu olhava com alguma tristeza para o cachorro e menos tristeza pela minha mão. Sempre gostei, respeitosamente, de cachorros e não imaginava que um deles traísse a minha respeitosa amizade com aquela atitude que violentava os meus princípios animais de cordialidade. E o cachorro não me soltava. Por prudência não me cabia arrancar a mão imobilizada, evitando assim que aqueles dentes cravados na minha pele se contraíssem ainda mais na clara intenção de impedir que meus movimentos e funções se restabelecessem.

As pessoas que passavam na rua olhavam a cena com espanto e esboçavam gestos cautelosos mas determinados no sentido de fazer com que o cachorro largasse a minha mão. Quando uma dessas pessoas pegou uma pedra na calçada e ameaçou atirá-la no cachorro, fiz um sinal com a única mão que dispunha impedindo que a ação se concretizasse. Resolvi entrar em casa arrastando delicadamente comigo o cachorro que não me largava. Não houve uma reação mais forte por parte daquele que parcialmente me imobilizava, nem percebi naquele olhar que fixamente me acompanhava uma deliberada vontade de intensificar o que estava posto.

Em casa, parentes me rodearam assustados com o insólito da cena. Eu havia trazido para o solo sagrado do meu lar aquele inimigo. Já não bastava a crise que se espalha pelo mundo, que ceifava vidas, que ameaçava os frágeis sinais de estabilidade raramente identificados aqui e ali, que enfraqueciam os lados sociais – até mesmo os civilizatórios; e eu ali, numa convivência inimaginável, inserindo na família um traidor declarado e, pior, aceitando aquela situação com certa naturalidade. As crianças foram as únicas que mesmo assustadas num primeiro impacto, aos poucos foram se acostumando com a cena ao ponto de alguns ousarem afagar o cachorro.

Apesar de me ver obrigado a arquear o dorso para aliviar a pressão dos dentes na minha mão e começar a sentir um certo desconforto nos ferimentos, ainda pequenos que se faziam visíveis, eu tentava neutralizar a superioridade que o cachorro exercia sobre a minha mobilidade lhe destinando uma certa indiferença para o extraordinário da cena. Deixei de encarar o cachorro e passei a agir com a máxima naturalidade possível frente ao que de corriqueiro os dias oferecem: bebi água, comi uma fruta, atendi com certa dificuldade o telefone, etc…..

Enquanto isto os parentes começavam a chegar em casa, vindos dos mais diferentes locais, atraídos pela necessidade de se dar um fim àquilo que não aceitavam que eu passivamente aceitasse. A casa ficou pequena para uma média de trinta pessoas que se aglomeravam pelos corredores, quartos e cozinha, após uma receosa aproximação da minha figura cuja mão permanecia abocanhada pelo cachorro. Muitos se indignavam por terem se sentido obrigados a atravessar uma série de dificuldades que as restrições impostas pela crise mundial tiveram que ser superadas para estarem ali num conselho de família, a decidir o que fazer com o inusitado de ser eu a preponderância sobre as demais gravidades que nos assolavam.

O mais velho tomou para si a incumbência de organizar aquele concílio que se formara espontaneamente motivado pela curiosidade tanto quanto pela indignação: um homem submetido à vontade de um animal inferior. A primeira providência do homem mais velho foi distribuir os participantes pela faixa etária: as crianças foram destinadas ao quintal sem direito nem ao menos de presenciar os encaminhamentos; oito eram os mais idosos e tiveram assento ao redor da mesa da sala; quinze se situavam na meia idade, entre vinte e cinquenta e nove anos, e hierarquicamente se mantiveram em pé ao redor da mesa em que os anciões permaneciam sentados. Eu e meu cão respeitamos a ordenação e nos posicionamos numa segunda fileira atrás da mesa apesar dos olhares indesejáveis que nos foram dirigidos. Pensei até que fossem nos expulsar dali nos confiando à companhia das sete crianças que se divertiam no quintal. A reunião começou contabilizando a quantidade de parentes que haviam falecido em decorrência da crise que se espalhava pelo mundo. Muitos morreram pela agressividade do vírus, outros de fome, outros de pânico em transloucadas atitudes. A fala foi bastante contundente quanto à finalidade: estamos aqui reunidos porque passivamente um parente nosso aceita ser privado de todos os direitos porque um cachorro se impôs. No mundo, bem à nossa porta, as mortes se dão de forma progressiva ao ponto de não ser mais possível contabilizar o quantitativo de vidas interrompidas por uma cadeia de consequências cujo fio condutor já se tornou impossível identificar. A humanidade está seriamente ameaçada e não podemos ser indiferentes a essa catástrofe na mesma proporção que o nosso parente ali parece não se importar, sem nenhuma reação, frente ao que a ele se apresenta. É preciso que façamos alguma coisa já que não há no mundo quem possa dar conta do caos: a ciência falhou, as lideranças foram acometidas por insanidades múltiplas, as instituições estão destituídas nos seus princípios diretivos, a sociedade independente de seus lastros culturais foi implodida num processo autofágico surpreendente. Precisamos determinar aqui providências para que a nossa família sobreviva a isso tudo, antes que a demência que testemunhamos no nosso parente ali se torne justificativa histórica para a nossa radical eliminação da face da Terra. Nesta perspectiva é necessário que identifiquemos quais de nós serão protegidos pelos demais para que a continuidade da nossa família se perpetue. Os que estão aqui sentados perdem a partir de agora o direito direto à sobrevivência e por serem os mais velhos irão cumprir o desígnio funcional de protegerem os mais novos aptos à reprodução. No entanto, não podemos permitir que questões genéticas desviantes possam ser identificadas nas gerações subsequentes, assim juntam-se aos anciões, os de meia idade e os jovens cuja linha hereditária pregressa tenha registro de mongolismo, infarto, câncer e diabetes, entre outros. Todos na sala se mantinham silenciosos embora eu pudesse sentir que a respiração alterada, suspensa pelo medo, embaçava os olhares de muitos daqueles parentes. Isto posto, continuava o mais velho de todos os velhos: precisamos dar encaminhamento ao patético parente que está ali, pacatamente, admitindo o jugo que lhe é imposto por um irracional que até pouco, inversamente, lhe prestava subserviência. Todos olharam na minha direção.

Eu me encolhi um pouco mais querendo restringir ao máximo o meu espaço no mundo. Olhei o cão que perseverava no seu intento. Impossível impedir lhe dirigir um olhar carinhoso. O destino de nós dois iria ser sentenciado sem possibilidade de recurso.

Aí eu acordei em 2020. Pleno outono. E eu não tinha como voltar ao meu pesadelo, que me soava preferível àquele sol que entrava pela janela.

Qual a pior coisa que se pode descobrir de alguém?

Me fizeram essa pergunta dia desses e descobri que sou dada a espasmos, tipo ficar hipnotizada olhando para nada, pensando. Outra coisa que tenho percebido é que do segundo texto que devo ter decorado na minha vida, o Pai Nosso, me escapam algumas frases me obrigando a recomeçar algumas vezes e com isso o que há de religiosidade se perde no inconformismo de ter esquecido o que acreditava estar registrado na memória para sempre. Digo isto mais por medo de serem estes os primeiros sinais de Alzheimer do que propriamente vínculo direto com a resposta.

Algumas possibilidades me ocorreram:

1- Descobrir que alguém é um assassino: certamente não é uma descoberta agradável, mas as circunstâncias podem atenuar o impacto da revelação. Se o assassinato se der em defesa de outra pessoa ameaçada em situação de vulnerabilidade, há quem se manifeste pela condecoração desse assassino;

2- Descobrir que alguém é mentiroso: de fato a mentira é no mínimo bastante desconfortável, mas convenhamos, é uma prática universal com menor ou maior frequência. Existem mentiras socialmente aceitáveis, existem mentiras piedosas, existem mentiras que escondem covardes, mas mentir aplicamos desde crianças com a possibilidade de lá sermos corrigidos no que tange a valores. Mas tudo muda de vibração quando se diz que alguém mentiu para enganar outra pessoa. Existe aí uma força na palavra enganar que pressupõe que o autor da mentira é um contumaz enganador, praticante de estelionato ou qualquer outra tipificação ilícita;

3- Descobrir que alguém é ladrão: há quem afirme que esta poderia ser a resposta mais correta para o que de pior pode referendar alguém, já que ladrão pode roubar vidas, pode roubar a verdade pelo instrumento da calúnia, pode subtrair patrimônio, pode roubar nas entrelinhas da lei. Mas também tem aquele ladrão que foi no supermercado e roubou uma lata de leite em pó e ficou anos esquecido numa cadeia sem ter como alimentar a penca de filhos;

4- Descobrir que alguém é pedófilo, serial killer, estuprador, praticante de violência doméstica, etc.: certamente ter-se-á uma fila de advogados a conduzir tais pessoas a uma clínica psiquiatra a fim de imputá-los a famosa privação de sentidos. E tendemos a afirmar: Coitado, é um doente mental.

Poderia enumerar uma série de outros exemplos abrindo o código penal, ou a Bíblia, ou a Constituição, ou os Cadernos de Moral e Cívica. Provavelmente tenderia a relativizar tudo querendo descobrir os atenuantes para cada infração.

Depois disso tudo, estou inclinada a afirmar que a pior coisa que se pode descobrir de alguém é ela deixar de ser quem sempre foi. E neste ponto voltamos à ameaça do Alzheimer em que a pessoa deixa de se reconhecer e nós deixamos de reconhecer a pessoa que sempre foi. E vejam que estou divagando igualmente sobre a possibilidade triste de um delinquente não poder praticar delinquências a que sempre se habituou, e nós não podermos mais nos precaver de seus atos já que a doença os priva da realização.

A pior coisa que se pode descobrir de alguém é essa pessoa não mais corresponder às expectativas que criamos sobre ela, portadora ou não de Alzheimer.

Aprendizagem – ou Caderninho dos erros e acertos

Quando o telefone tocou não eram nem oito horas da manhã. Entendi que a situação era urgente: do outro lado da linha as palavras não fluíam com naturalidade e a respiração curta indicava que o ruim havia acontecido e que o pior poderia se estabelecer rapidamente. Vesti a primeira roupa que encontrei naquela parte do armário que reúne as autorizadas ao convívio social , engoli o café sem a dose necessária de açúcar, peguei as chaves e rompi o isolamento atravessando ruas, avenidas, túneis, viadutos, bairros, até chegar no endereço da voz que falava em sílabas entrecortadas de vazios pela falta de ar que estufava o peito em intervalos muito pequenos. No meio do caminho me dei conta que havia esquecido a máscara em casa. Parei no camelô e comprei, sem sair do carro, umas doze máscaras de pano vagabundo, talvez querendo tardiamente interromper o que já estava posto e sem a menor possibilidade de retroceder a sentença dos fatos.

Demorou algum tempo para que a porta fosse aberta. E bastou nossos olhares se encontrarem para ter que ampará-lo em meus braços, ali mesmo na ombreira da porta que separava o social do privado. Arrastei-o para dentro, o coloquei sentado no sofá. Cocei a cabeça com os olhos escancarados. Eu era a personificação irretocável da aflição. Depois acrescentei à aflição dosagens fortes de angústia. Fiquei algum tempo sem mencionar um único som e olhando o amigo sem reconhecer nele as características físicas que o distinguiram nos mais de trinta anos de convivência. O que era forte, quase atlético, saudável por todos os poros, se apresentava na minha frente abatido por enormes olheiras azuladas e por uma debilidade que não conseguia sustentar os seus oitenta quilos distribuídos harmoniosamente pelos metro e oitenta e cinco que sempre chamavam atenção pela agradável impressão a sua passagem.

Sem me recompor do susto consegui comunicar que iríamos imediatamente para o hospital. Onde a carteira do plano de saúde? Onde uma bolsa qualquer para colocar alguns itens necessários à hospitalização? Não poderia me esquecer do telefone celular dele, nem de manter comigo as chaves da casa na eventualidade de precisar voltar para renovar ou acrescentar itens ao enxoval, já que o atabalhoado do momento não me permitia ser perfeito. Meu amigo fez um gesto na minha direção, me segurou pelo antebraço e me direcionou a sentar ao lado dele no sofá: Não tenho plano de saúde e não quero ir a nenhum hospital. Hein?, foi o que consegui verbalizar quase sussurrando de espanto. Ele foi bem claro apesar do fôlego ser quase nenhum: Não quero ir para nenhum hospital. Não quero morrer sozinho rodeado por máquinas que emitem sons em duas vibrações: um sincopado que indica vida e outro contínuo que permite que a minha vaga seja ocupada pelo próximo infeliz. E, além do que, os uniformes revesam rostos quase totalmente cobertos que não me permitem saber que nomes têm, e sem intimidade mínima não passam de robôs apressados que só fazem agitar a morte sem nenhuma possibilidade dela ser suave, quase doce. Mas… balbuciei, acho que você não está pensando com discernimento. Não nos vemos só fazem vinte dias em função do isolamento social. Por que você se deixou ficar neste estado sem ter me chamado antes? Sem dúvida você passou por todos os estágios vastamente divulgados: coriza, tosse seca, dor de garganta, dor no corpo, inapetência, febre… Falei isso e estendi minha mão para a testa do amigo: podia fritar um ovo naquela temperatura. Ele fechou os olhos visivelmente exausto pelo ritmo da tosse contínua provocada pelo esforço da fala. Me levantei. Girei em torno de mim mesmo tentando decidir o que me cabia fazer na situação. Fui até a cozinha, lá não havia vestígio de quando uma última refeição tinha sido preparada. Tudo limpinho, todos os utensílios habitando os lugares a que se destinavam. Apenas um copo largado sobre a pia quebrava o ordenamento natural de uma cozinha zelosamente preservada. Fiquei parado segurando o copo, olhando o fundo brilhante da pia de aço inox, sem saber o que fazer.

Num filme, me vieram imagens que em retrospectiva tentavam dar sentido ao que eu não conseguia compreender. Procurava indícios no comportamento de uma vida que justificassem aquela reação do meu amigo. Mas não há vestígios possíveis de serem detectados quando a imprevisibilidade se impõe num jogo perverso e ameaçador de se andar sobre um fio desencapado que de uma hora para outra pode ser ligado à tomada. Lembrei do pré-vestibular de quando nos conhecemos, depois a faculdade, os bares e festas compartilhados, as namoradas, as paixões, tínhamos sido poupados da aids apesar de alguns comportamentos desviantes, doença nenhuma salvo algumas gripes curadas à base de muito limão e vodca. Nenhuma internação, nenhuma operação cirúrgica depois dos dezoito anos quando arrancou os sisos sem maiores traumas. Agora estava ali, gravemente depauperado, fincado num sofá, sem forças para se levantar, sem forças para falar, mas resolvido a tomar pulso da própria vida mesmo quando a sua pulsação cardíaca se encontrava visivelmente comprometida. Eu tinha duas opções: arrastá-lo contra a vontade para um hospital ou fazer parte de um enredo que por não haver privação óbvia de sentido ele escolhera para si. E esse escolher para si ganhava contornos de egoísmo na medida que me lançava para dentro do rodamoinho do contágio, mas também me distinguia com algumas pinceladas de honraria por ter sido eu o único a quem ele procurara para vivenciar um milagre ou um desfecho muito previsível. Voltei para a sala, me sentei no sofá e fiquei olhando para ele alguns minutos intermináveis, me decidindo por qual botão apertar.

A minha decisão levou em consideração a convivência que não se resumia em meia hora, levou em conta a cumplicidade que nos livrou de muitas catástrofes, levou em conta o que eu sabia dele e todas as expectativas criadas sendo que quase nunca elas se confrontaram com a decepção, levou em conta a pessoa que ele sempre foi e a pessoa que aquela situação me permitia saber de mim mesmo.

Cresci quando tinha mais de quarenta anos e o telefone tocou antes das oito da manhã.

 Texto mediocremente inspirado no livro “O Tribunal da Quinta-feira” de Michel Laub.

Um Homem além da Quarentena, um pouco depois dos Sessentena

Nunca usou chapéu. Chapéu tem abas que o impedem de ver o céu. No céu tem anjos que batem asas nas vezes que ele sorri. Ou os anjos são conceitualmente muitos exigentes, ou ele sempre foi de sorrir pouco… mas de observar muito, escapando pelas feições a expressão dos seus pensamentos. Pensamentos refletem moral de conduta. Rígido. Sério. Correto. Homem de bem.

Rasgou o peito de cima a baixo, mas de certa forma trancou a alma no recôndito de si mesmo. Alma acidentada por sentimentos contidos. Lá dentro do corpo, a alma brincando no slackline vertical, percurso que vai do cérebro ao coração. Ora desequilibra ali, ora uma vertigem aqui… Mas não expõe em praça pública, jamais, as trovas das suas medievais saudades. Guarda em si tudo que cabe no seu mundo, lá de trás, quando talvez as coisas fossem bem melhores. E o melhor é ser feliz com a família que cresce e aparece dentro das molduras elegantes das suas emoções. E há amor transbordante. E há dor efervescente que a lenha do tempo queima, em lágrimas e na insensível sucessão dos dias. E o olhar endurece no quanto mais grisalho dos cabelos sempre aparados. Mesmo quando as preocupações não são capazes de se manterem apartadas. E o olhar se enternece nos netos que crescem e o fazem sonhar. Mesmo quando o futuro só cabe a cada um deles, em stricto sensu. Assim como coube a cada um dos filhos trilhar seus próprios desígnios. Renascer é seu destino, está no nome consagrado em batismo. Está cravado na pedra de tempos imemoriais. E não há água, por mais tenaz que seja, a lhe retocar no que se desenvolveu em elegância e em teimosia. Não há quem possa, não há o que possa…. Renascer sempre lhe caberá, tal qual um dever, porque assim constituiu seu ser.

Desde pequeno, determinado. Uma espécie de agrimensor, especialista em identificar nas linhas retas aquelas mais benfazejas para seus projetos de futuro. E foram cálculos precisos que nunca o desviaram de seus objetivos. Por profissão, o planeta. Ainda jovem e depois de maduro percorreu os continentes por ofício desde sempre perseverado. Conheceu o mundo iluminando os palcos mais distantes para que vaidades nacionais, mais vorazes, desenvolvam o jogo esperado da política dos bons costumes. Foram diferentes culturas que a dele se juntaram num balé internacional. Distante pátria, preenchida por sonhos que se mostraram, uma vez e nas demais, quimeras pulverizadas pela secura de um planalto que não se sabe cívico nem civilizado. E daí o homem, que nunca usou chapéu, pensa nas praias que lambem em espumas a criança que foi um dia… e o céu termina lá na frente, naquela linha úmida que se mistura ao mar. Necessário reconhecer que o mundo é pequeno e são muitos os que pretendem tê-lo subjugado. Então abre um livro recostado à poltrona naquela cidade famosa banhada por um rio famoso e passa em revista idades, cidades, vaidades, metades, verdades, vontades, amizades, validades, humanidades…. e adormece na simplicidade de quem sabe que a missão foi cumprida com a titularidade das boas intenções. E é o que basta para o compasso da vida. Que lhe seja leve, no máximo que souber resistir. Serena aragem no fim daquela tarde ensolarada da infância.

Carradas de amigos e conhecidos povoam o coração do homem que nunca usou chapéu. Há a gentileza estreitando os laços, trazendo para perto os afetos espalhados nos quatro cantos que se supõe conter no mundo. E são muitos. E são belos. E atravessam todas as luas e sobrevivem a quase todas as marés. Um amor discreto, com cheiro de alfazema, tinge de branco os cabelos, a barba e o bigode do homem compelido a sempre ver o céu.

Hoje, talvez sejam os anjos a sorrirem para que a felicidade dê asas ao homem sem chapéu.

Para RSM (em fraterno afeto)

 

O que será? O que seremos?

Eu nem sabia, mas a cada dois anos, desde 2000, se dá o rompimento de uma barragem neste país. É bem verdade que MG detém um triste recorde, mas outras ocorreram em PB, RO, PI, AP. Aquelas que não mataram diretamente as pessoas, destruíram o meio ambiente onde pessoas viviam. É muito sutil a diferença, se é que há diferença. A morte anda solta, como uma bruxa ávida, batendo as asas da destruição no tempo.

Agora temos a ameaça do COVID-19, que nos dá a certeza que estamos todos num mesmo barco, e o mundo não passa de uma bola de gude pela extrema capacidade de desencadear reações que varam continentes, ironizando a ideia de que existem fronteiras por aqui e por ali.

Mas não é só isso não, no intervalo entre uma coisa ruim para outra pior, lidamos com notícias que rompem a tentativa de se manterem escondidinhas e passam a minar o conceito de humanidade que tentamos alinhavar entre os seres. E temos uma coleção: é água contaminada distribuída à população; são crimes que eternamente aguardam justiça (boate Kiss, incêndio na Toca do Urubu, Mariana, Brumadinho, colarinhos brancos que já ficaram rotos sobre as mesas de juízes); é a violência no trânsito que aumenta mais que o preço do combustível antes da atual crise petrolífera; é o feminicídio numa escala vertiginosa sobretudo no confinamento de agora; é a intolerância que impede o diálogo e deixa tudo “partido”; é a propaganda governamental que não corresponde à realidade…

Cansaço sem medida, confesso. Mas ninguém se alimenta com um cardápio diferente daquele que lhe é servido. Então reinventar é preciso, numa forçosa criatividade de sobrevivência. Nós somos seres estranhos: passamos grande parte do tempo dizendo que queríamos estar mais tempo com a família, e quando esta situação nos é imposta sentimos falta da vida que era objeto das nossas reclamações. Deve ser essa coisa chamada liberdade que nos faz falta. Queremos estar com a família com a opção de também não estar. Queremos trabalhar como quem se diverte, não com a sensação de desejar que o dia termine logo para ficarmos livre da opressão. Não tem jeito. Sempre apontamos alguma coisa a ser retocada por mais prazerosa a situação. É quase do humano essa insaciável insatisfação. Digo quase porque alguns humanos já galgaram os primeiros degraus do viver em paz, aprendendo a vivenciar cada momento com estabilidade emocional, longe das euforias e distante das cargas dramáticas. Ainda são raros tais entes e certamente não faço parte dessa turma, embora ambicione ingressar nessa escola.

Já sabemos de longa data que somos insatisfeitos, contraditórios e emocionalmente primitivos. Tá. Beleza. A questão é saber o que fazemos com isso. Ou morremos com essa primitiva insatisfação emocionalmente contraditória, ou lapidamos a pedra bruta, instintiva, que foi o primórdio do reconhecimento do homo sapiens, lá atrás, eras distantes. Evoluímos pouco. Pior, tenho a impressão que andamos em círculos e para esta hipótese a História aponta cíclicos acontecimentos. E houve certa humilhação quando nos atribuíram por predicativo o “sapiens” que, sinceramente, não inspira luminar sabedoria…

Há quem diga que esse COVID-19 veio para redenção do ser humano. Não é um determinismo, apenas uma tênue oportunidade. Cabe ao ser humano salvar-se de si mesmo e essa pandemia só veio dar uma forcinha para esse itinerário de caráter necessariamente introspectivo. Os que conseguirem sobreviver podem ser identificados a partir de três grupos: os que foram capazes de upgrade pessoal (e consequentemente social); os que se mantiveram imunes e só refletiram sobre como retornar ao que lhes foi interditado; e aqueles que declinaram e só conseguiram culpar a China, Deus, os vizinhos, os russos, etc., nem se deram conta da própria existência e responsabilidade.

Somos assim, múltiplos, diferenciados, limitados… e temos que lidar com o fato, este incontestável, de que por maior que seja a nossa dedicação em entender – e nos entendermos – nisso tudo, sempre ficaremos aquém de um estável conforto com relação a nossa posição no enredo. Tudo bem. Ainda vale a investigação.

Doce Canção para Sofia

Deve ter tido suas razões para chegar assim, se impondo ao mundo sem qualquer planejamento prévio. Deve mesmo ter tido suas razões para se sobrepor às decepções e enfrentar uma epidemia que está aí, devastando o mundo. Deve ter tido suas razões para querer chegar apesar das incertezas que ameaçam tantos futuros. Deve ter suas próprias razões para render-se ao nome que lhe deram: Sofia Isabel. Um sortilégio, talvez, de vir a ser aquela que por sabedoria haverá de cumprir todas as promessas…

Pequena Sofia se não houvesse tanta pressa, teria enfeitado de alguma forma o mundo para lhe receber. Espero que não repare muito na quantidade de poeira acumulada nesse nosso tempo. Nem se impressione com as teias de mágoas nos nossos corações. E que nunca lhe roube o sorriso se por acaso observar uma lágrima inoportuna molhando o meu rosto, são os perigos que me sei incapaz deles lhe preservar. Tudo passa, é certo. Mesmo que nas nossas vidas permaneça uma sombra um pouco encardida dos silêncios preferíveis aos confrontos resolutivos. Tenta-se fazer o melhor. E o melhor, acredite, sempre será tão pouco…

Na janela, coloquei pequenas margaridas para embelezar a sua chegada. Tem incenso sobre a cômoda e lá fora os passarinhos estridentes, de galho em galho no estreito quintal, fazem a festa. Talvez eles queiram chamar a sua atenção, talvez cantem o seu nome, talvez queiram apenas registrar que a sua presença é bem-vinda. Sim, bem-vinda mesmo que não tenhas sido anunciada em profusão de sorrisos, que deveriam ser direito de todas as crianças concebidas. Mas vieste com tanta pressa que a alegria ficou para depois. Para depois…

Um dia desses, quando estiveres nos braços de algum adulto, serás capaz de provocar sorrisos, serás capaz de espalhar ternura, serás capaz de bordar nos outros a esperança ao imaginarem para ti um futuro de plenas realizações, longe da violência, distante da maldade, afastada das doenças… Ao teu redor, somente as coisas belas e por elas viverás, porque serás lição de amor para quem junto a ti estiver. Por enquanto, tome seu banho de luz, ilumine-se porque cá nós tentamos fazer o mesmo em outros sentidos, igualmente medicinais.

Mas porquê tanta pressa em chegar? Ensinar a quem foi filha a ser uma melhor mãe? Ensinar a todos que não se pode desperdiçar o tempo já que a vida é curta, e sempre será? Ensinar ao ser humano que o amor combina com a leveza, de um sorriso, de um gesto, de um propósito, de um sentimento? Tanta pressa assim, ao ponto de não esperar que houvesse responsabilidade de criação, de não esperar que o futuro estivesse mais alinhavado, de não esperar pela duração do sentimento… devem haver razões imperativas e sobre elas não há o que ser questionado. Eis você aqui. Eis nós ao seu redor. Bençãos que serão trocadas no curso do caminho. Certamente todos de mãos dadas…

Por ora, dorme o sono dos justos no colo do mundo. Mundo que aos poucos irá lhe expandir para outros olhares, para outros seres, para outras diferenças. Que seja o mundo a lhe cobrir de bençãos, mas que sejam as nossas bençãos privilegiadas em lhe oferecer o melhor caminho. Dorme, pequena, dorme com a tranquilidade de saber que não há “bicho papão” que possa lhe assustar.

 

Questão de Tempo

Caro Amigo,

Demorei para chegar aqui. Ultimamente tem sido assim: o fôlego exige um tempo maior para estar minimamente recuperado. As informações chegam numa velocidade estonteante e sem filtro, assim as notícias boas parecem trançadas às notícias tristes e a respiração tropeça na ansiedade, na indignação, na decepção… aqui e ali uma e outra despertam um sorriso, como se fossem aquelas brasas fraquinhas que persistem quando a fogueira é abandonada… a isso chamam esperança…

Não foi um ano fácil esse tal de 2019. Acho que fácil não se aplica mais ao repertório de análises para aqueles que já passaram dos 60 anos. A idade dificulta muito a arte de viver: vai aos pouquinhos travando os passos, encolhendo a disposição, adotando novos medicamentos, aumentando a vulnerabilidade, capilarizando dores inéditas. E, de braços dados, chegam as percepções das fragilidades: resiliência esgarçada, tristezas mais dramáticas, expectativas frustradas, quase trágicas… Não, não foi um ano fácil, mas ainda assim bendito… Tenho meia duzia de afirmações guardadas no “Pote da Gratidão”; para ser precisa, foram noves registros. Gratidão por terem me dado trabalho; gratidão por ter as contas pagas; gratidão por ter recebido postais dos amigos em terras distantes; gratidão por ter convivido, por poucos dias, com parente próximo que vive geograficamente longe demais; gratidão por ter conseguido ser útil a alguns em suas dificuldades; gratidão pelos amigos guardados no peito apesar dos raros encontros; gratidão por ter acordado todos os dias, com menos ou maiores dificuldades; gratidão pelas saudades que vão se acumulando com muita intensidade desde que você se tornou uma delas; gratidão pela família, que seja lá como for, ninguém larga a mão um do outro… nas alegrias, mas principalmente nas tristezas…

Agora já é 2020, aconteceu de um dia para o outro… Sem alegria no coração, sem expectativas, desejando a todos que não nos falte saúde, que não nos falte respeito, que não nos falte tolerância, que não nos falte o luxo de algumas alegrias… Temos um ano inteiro para conferir possibilidades e que essas possibilidades não nos passem desapercebidas, pois assim aumentam as nossas chances de sermos outros, de sermos melhores… Que possamos nos modificar sempre, porque só assim o tempo faz sentido e nos ensina a sua utilidade. Sempre, a cada dia, que nos venham novas diferenças, que sejamos diferentes do que fomos na véspera de nós mesmos. Mas só valem as modificações capazes de nos fazer mais integrados ao universo, ou seja, que nos permitam absorver tudo com a naturalidade imprecisa que faz de nós seres humanos (grandiosos em muito e medíocres em tanto).

Desejo que 2020 seja um ano pleno em delicadeza, em gentilezas, em respeito…

Que não falte a ninguém a alegria, daquelas que os cães oferecem a quem os ama… No mais, que os mistérios sejam céu enfeitado que nos permita contar as estrelas….

Até breve.

Um Tema, Dois Autores

Recentemente terminei a leitura de dois livros ambientados no período em que o AI5 foi instituído no país. Período certamente bastante triste da nossa história, quando a violência assumiu proporções capilares devastadoras, tanto no que diz respeito ao número de mortos e a forma pela qual tais mortes ocorreram, quanto no que diz respeito ao cerceamento de informações e à quantidade de fake news em verde e amarelo brilhantes que a militarização ofereceu ao povo.

Os dois livros foram escritos em 1988 e mencionam os mesmos fatos históricos. O primeiro que li foi do Zuenir Ventura (“1968 – O Ano que Não Terminou”) e se atém aos fatos com matizes de documentário. O segundo foi escrito pela Ana Maria Machado (“Tropical Sol da Liberdade”) e embora situe os mesmos acontecimentos daqueles anos, ganha contornos de romance. Eu diria que o primeiro é um livro masculino: repleto de informações, cirúrgico nas suas análises, os sentimentos explodem dos fatos apesar da narrativa racional do texto. Já o segundo é um livro que identifiquei bastante feminino: todas as emoções nos são transferidas na medida em que a personagem vai nos revelando a sua história, e a de sua família, ao longo daqueles anos.

Os fatos mencionados naturalmente não encantam o leitor e não duvido que muitas pessoas questionem se realmente eles aconteceram, mesmo que a imprensa os tenha mencionados com mais ou menos tinta, na medida da disponibilidade de tantos tons escuros. O que, inquestionavelmente, me emocionou foi apreciar os diferentes estilos, impecáveis, dos escribas. É claro que a depender de quem estiver lendo, a preferência irá recair para um dos autores. Comigo não foi diferente. Apesar de eleger um preferido, curvo-me respeitosamente à capacidade de ambos em propiciar uma leitura envolvente e instigante. O que me pergunto é: o que faz um texto ser agradável para quem lê?

Aí é inevitável que a resposta recaia sobre o leitor, em detrimento do autor. Existem leitores para todos os estilos. Existem leitores fáceis. São aqueles que apreciam frases curtas, com palavras que cotidianamente reconhecemos, capazes de compartilhar a informação de uma forma simples e objetiva; a sofisticação está no conforto da mensagem transmitida com clareza. Mas existem também leitores difíceis. Que podem até revelar serem, igualmente, pessoas difíceis. São os apreciadores de longas sentenças em que várias informações se acumulam num único período. As palavras são mais rebuscadas, exigindo que o leitor identifique o melhor significado para o sentido do que se quer transmitir. Esses leitores são especiais porque capazes de reler um parágrafo inúmeras vezes até se sentirem confortáveis, acreditando terem conseguido captar a mensagem, quase cifrada, proposta pelo autor.

Acredito que a parte indolente do meu temperamento se manifeste intensamente nas vezes que abro um livro. O meu raciocínio é bem básico: se você quer me dizer algo, por favor poupe os meus neurônios, que já são bem deficientes, e me diga claramente a sua opinião, facilitando que sobre ela eu tenha, ou não tenha, algo a acrescentar ou retrucar. No entanto, que fique bem entendido: um texto objetivo não implica, necessariamente, ausência de beleza na transmissão do pensamento. A poesia, as associações plenas de simbolismos não reduzem o entendimento do texto, ao contrário, expandem a imaginação e muitas vezes são responsáveis por novas dimensões alcançadas pelo leitor.

Os dois livros referendados me agradaram muito, mesmo considerando tratar-se de estilos diferentes. Os dois conseguiram manter o meu interesse pela leitura, conseguiram enriquecer o meu cardápio histórico sobre o país, conseguiram me fazer refletir sobre alguns aspectos cíclicos afeitos à civilização, conseguiram, enfim, me tornar um pouco mais ilustrada.

Obrigada a ambos!

Tempos Embrutecidos

Olha, do jeito que as coisas caminham é bem possível que tenhamos que lidar, muito em breve, com a pena de morte no nosso país. Vigê… vai ser mais um motivo para que a polarização aconteça com violência, e portanto, todos os lados saiam perdedores.

Acho que já deu para todo mundo perceber que aquela imagem de povo bonachão, cordial, pacato, que resolve tudo com humor, sátira e samba, foi substituído há muito tempo. Que toda essa fantasia foi devorada pelas traças do ódio, da intolerância, do preconceito, pelo cooperativismo dos que se julgam iguais e donos da mesma verdade. Somos um povo essencialmente binário, constituído pelos que são “a favor” e pelos que são “contra” em qualquer assunto, incluindo os mais fúteis e desnecessários. É verdade que existe uma terceira onda, muitíssimo insignificante que tenta o equilíbrio, que tenta se esquivar das armadilhas que sugerem que as opiniões devam ser extremistas e encorajadoras de embates insanos.

Tá todo mundo brigando por tudo e por nada. Uma fechada no trânsito é morte na certa. Se o time perde é sangue nas proximidades do estádio numa caça feroz ao time adversário. Se o professor repreende o aluno, vai parar no hospital e com sequelas traumáticas dificilmente superadas. Se a mulher resolve se separar das agressões do marido, já sabemos que muito provavelmente entrará nas estatísticas de feminicídio. Isso para citar alguns exemplos do quanto somos beligerantes a partir das nossas doenças mal tratadas. Quando nos descuidamos, matamos ou morremos…. Um povo embrutecido além de sustentar uma quantidade impressionante de homicídios, ainda amarga crescentes aumentos nos números de suicídios. É sabido e cientificamente comprovadas tais afirmações.

Outro dia eu fiquei num pré estado de catatonia, olhando atentamente para o nada, querendo entender como é possível o ser humano ter atitudes torpes sem que haja rasgos de lucidez capazes de interromper o comportamento antes que ele se torne um ato consumado. Eis o caso: surge nas redes sociais denúncia veemente contra uma prestadora de serviço que vende “quentinhas”, afirmando tratar-se de profissional desqualificada por não ter entregue o pedido na casa da solicitante na hora combinada. O que mais me apavorou foram as palavras desprovidas de qualquer código de ética, com a intenção flagrante de destruir a reputação da dona do modesto negócio. Como diz o velho ditado, toda ação implica reação. Daí, a senhora agredida teve que usar todos os recursos para provar que ela não era culpada, mas simplesmente o motoboy não foi recebido no horário acordado da entrega. Para tanto teve que usar arquivo de áudio do entregador comunicando à empresária que estava na casa e que ninguém o atendia. Uma situação absurdamente surreal por si só, mas para mim é muito mais séria a coisa. Nossos personagens são de camadas sociais bem distanciadas: uma, moradora de condomínio de classe média; a outra uma cozinheira humilde que sobrevive vendendo “quentinhas”. Será que a denunciante teria o mesmo ímpeto se o produto de uma “chef de cuisine” não tivesse lhe sido entregue? Será que a prepotência, a intolerância, a arrogância, e tantas coisas feias que destilaram na sua denúncia (infundada) permaneceriam inalteradas se do outro lado ela estivesse interagindo com uma pessoa da mesma classe social? O lado bom, se é que existe lado bom nessa história, é que as pessoas da rede social não se dividiram entre “os contra” e “os a favor”, todos foram unânimes em defender a qualidade da comida que sempre foi servida e do rigor no cumprimento dos horários de entrega.

Eu sinto um profundo desgosto quando determinadas atitudes me fazem sentir vergonha pela pessoa. Também devo dizer que me entristeço nas vezes que eu mesma caio em provocações e me vejo sendo tão sem noção quanto quem consegue me fazer perder o controle, o bom senso, a civilidade. Quando dou por mim, lá estou eu xingando o motorista abusado que já vinha de longe desrespeitando os demais motoristas. Ao invés de me ocorrer pensamentos mais condescendentes, levantar hipóteses que possam atenuar o comportamento recriminado, discorro a série de palavrões que aprendi, sendo eu a única a ouvi-los porque o motorista maluco já está lá na frente fazendo “barbeiragens” contínuas. E eu nem quis relativizar, tipo: vai ver que a mãe estava morrendo, vai ver que estava indo buscar o filho acidentado, vai ver que estava levando alguém para o hospital….. Sei lá…. No final só sobra eu indignada, descompensada, energia completamente desperdiçada que só alimenta a barbárie…

Estamos muito assim: “dente por dente”, “olho por olho”, “faca por faca”, “soco por soco” e tantas idiotices outras…. Um processo civilizatório dos mais invertidos e contraditórios. Alguém já deve ter dito que “viver é para os fortes”, provavelmente o Charles Darwin na sua teoria da evolução das espécies. Mas para mim fortes são aqueles que não perdem a ternura, que preservam o respeito pelo outro por mais que se diferenciem nas opiniões, são aqueles capacitados à gentileza, inclinados à generosidade, que insistem na prática de valores que engrandecem o humano.

Adeus às Armas

Tem certas coisas, eu diria até que são muitas coisas, que se diferenciam quando atingimos uma idade avançada. O primeiro sintoma que observo nos meus amigos e em mim mesma, diz respeito ao desapego. É quando passamos em revista a casa e nos perguntamos como fomos capazes de acumular tanto se nem a metade utilizamos no dia a dia. A conclusão geralmente é admitir que amealhamos muitas inutilidades com a certeza de que naquele determinado momento que as adquirimos, elas seriam absolutamente imprescindíveis na nossa vida. O tempo fatalmente nos fará sentir que estávamos enganados.

Nessas situações é de bom alvitre que digamos adeus àquelas armas enferrujadas que um dia acreditamos que nos fariam pessoas mais realizadas, mais práticas, mais satisfeitas nas necessidades nem sempre explicáveis. E felizmente, tem sempre alguém que se sente feliz em receber pedaços da gente que deixaram de ser refrescantes para a nossa existência. Ainda bem…

Portanto, podemos concluir que “inutilidade” é uma palavra bastante perigosa. Ela sofre direta influência do tempo e a depender da vivência de cada um tem uma atuação ferruginosa bastante devastadora. O desagradável mesmo é quando essa sensação de inutilidade atravessa a fronteira do material e fica adesivada nos comportamentos e atitudes. Nesses casos o mínimo de sabedoria recomenda que não devemos transferir para ninguém o que atestamos inútil, desnecessário, ignorante, em nós. Mas esta é uma outra história bem mais difícil de ser resolvida.

Pois bem, outro dia eu tive a pachorra de tentar contar todas as canetas-tinteiro que acumulei durante a vida. Resolvi parar de contar quando na minha frente havia 85 canetas e sabia que outras, muitas outras, esperavam a conclusão do inquérito contábil. Como é possível eu ter mais canetas-tinteiro que anos de vida…. Quando cheguei na marca de 85 canetas me veio a dolorosa questão: E agora? O que eu faço com isso? A questão é mais delicada ainda porque tocando nas canetas eu fui capaz de me recordar do momento exato em que algumas delas foram obtidas. Tenho canetas compradas em feiras de antiguidade, daquelas de rua. Tenho canetas compradas em lojas despretensiosas de artigos do lar, só que em Paris. Tenho uma caneta, muito especial, que me foi deixada de herança por um amigo que faleceu de aids, no tempo em que a aids nos impunha um pacto com a saudade, já que inevitável. Me lembrei do tempo em que minha dedicação a tais canetas era uma espécie de ritual sagrado: todas minuciosamente limpas, nenhuma pena entupida, todas prontas a serem usadas a qualquer tempo. Continuam assim, mesmo que neste tempo elas já não tenham uso…

Sempre tive especial respeito para com canetas, fossem elas de qualquer natureza desde que me possibilitassem uma escrita fina. Na minha loucura obsessiva sempre atribuí às canetas o poder absoluto de serem elas responsáveis únicas pelos textos que cada uma seria capaz de produzir. E esta crença me acompanhou anos a fio, por tempo indeterminado de tão constante. Naturalmente, nunca revelei isso para ninguém, muito provavelmente para me preservar de uma necessária recomendação para consultar um psiquiatra. Nossa… como eu era feliz a cada caneta adquirida, e como a minha atenção e acuidade se debruçavam em analisar uma espécie identificada como novidade. Adorava aquelas de pena embutida, que só deixavam à mostra um pedacinho mínimo do metal por onde os textos eram concebidos. Talvez minha gradativa cura com relação às canetas-tinteiro tenha ocorrido com a escassez no mercado desse tipo de caneta, havendo uma absoluta oferta de canetas com pena totalmente exposta, o que me sugere uma certa agressividade, uma possível falta de delicadeza nos textos que elas poderiam produzir.

Hoje eu não sei bem o que fazer com essas canetas, sobretudo porque mantenho um especial carinho por elas, embora admita com todas as letras serem elas INÚTEIS. Alguns podem dizer: “Ah…finalmente amadureceu!” Creio que não se trata de amadurecimento não… Umas das grandes revoluções que ocorreram no transcurso da minha existência foi o tal do correio eletrônico. Atribuo a essa ferramenta a distância quase absoluta das correspondências que eram trocadas com as pessoas com a devida paciência de se esperar o recebimento pelos Correios. E tudo era quase divino e maravilhoso, desde a escolha da caneta para o texto que a pessoa receberia, passando pela seleção do papel ou do cartão, até a exigência junto aos Correios para que os selos fossem os mais bonitos (Confesso que cheguei, muitas vezes, a pagar além da tarifa só para as pessoas receberem selos mais atraentes nas cartas que enviei…). Acabou tudo isso. Resolvo necessidades e afetividades por correio eletrônico ou por Whatsapp. Essa vida instantânea agride a minha alma medieval…

É isso. Minhas armas, que por tanto tempo me impuseram vitórias e derrotas de expressão, repousam silenciosas em grandes quantidades de caixas no fundo de armários nunca visitados. São velhas e inúteis como frequentemente assim também me avalio….

Ubuntu

Dia desses, a generosidade de um amigo o levou a me oferecer um computador com características fantásticas, dentre as quais destaco enquanto usuária: a qualidade do som, a definição da imagem e o tamanho da tela que compensa os indesejáveis avanços da miopia em mim progressivos. Antes de concluir o oferecimento, me alertou que além de uma revisão minuciosa e corretiva em todos os componentes, havia instalado o sistema operacional Linux. A advertência estava bem fundamentada considerando a impopularidade de tal sistema em se comparando com a massiva adesão que a popularidade concedeu à Microsoft.

 Tá bom. Eu nunca havia experimentado o Linux e por incrível que possa parecer aos que me conhecem e sabem o quanto sou resistente às novidades que me tirem da zona de conforto, eu disse sim ao presente. E devo dizer que de alguma forma, entusiasmada em poder aprender coisas novas. Imaginem vocês…. O fato é que estou usando o computador e feliz da vida por não ter empacado em nenhum obstáculo decorrente do software Ubuntu.

Mas tudo isso me levou a querer entender um pouco mais sobre a “novidade”. O Linux existe desde 1991 pela obstinação de um finlandês (Linus Torvalds) em oferecer um sistema gratuito, de acesso irrestrito cujo desenvolvimento se desse por meio de trabalho comunitário. Confesso que me interessei muito em conhecer a biografia desse tal de Linus Torvalds… Gente fina, interessado na coletividade….

Como o meu amigo insistia muito para que eu me referendasse ao sistema pelo termo Ubuntu, e não Linux, lá fui eu tentar entender as bases da correção que me foi sugerida. Para desprezo dos especialistas vou resumir assim: O Ubuntu está para o Linux como o Windows está para a Microsoft. Isso para não escapar da mediocridade do raciocínio comparativo.

Descobri que esse tal de Ubuntu foi lançado em 2004, mas muito mais que isso: é um conceito sul africano que se resume a “sou o que sou pelo que nós somos”. Mais além: “uma pessoa com ubuntu está aberta e disponível para outros, apoia os outros, não se sente ameaçada quando outros são capazes e bons, baseada em uma autoconfiança que vem do conhecimento que ele ou ela pertence a algo maior e é diminuída quando os outros são humilhados ou diminuídos, quando os outros são torturados ou oprimidos”. Caramba!! Não se pode ignorar os pilares virtuosos dessa visão institucional.

Esse longo preâmbulo é comparável ao tamanho da reflexão que essa sucessão de acontecimentos me proporcionou. Posso imaginar o quanto deve ter sido espinhoso perseverar em querer oferecer um sistema operativo de código livre sem se deixar engolir por uma poderosa concorrente com recursos mercadológicos praticamente ilimitados. Provavelmente foram inúmeras as guerras judiciais e incontáveis as investidas do opositor para neutralizar a capacidade de adoção do público. No entanto, o que mais impressiona me leva à tentativa de compreender a natureza humana: não sei quais os motivos que predispõem as pessoas a preferirem pagar por um sistema operacional enquanto existe um gratuito que efetivamente tem o mesmo desempenho, ou ao menos, muito próximo. Desconhecimento? Desconfiar que tudo gratuito não presta? Ter alguma especie de garantia de que por ter pago pode fazer exigências? Não sei… No meu caso foram duas as situações implicadas: desconhecer e uma comodidade em não me aventurar no desconhecido…. Felizmente as duas estão sendo superadas.

Bom, eu só posso sugerir aos outros o que a minha experiência é capaz de recomendar. E mesmo assim muito convicta de que sugestão não enseja a obrigatoriedade da aceitação. Em assim posto e compreendido, tentem experimentar a eficiência do Ubuntu (tanto no que seja software quanto na nobreza do significado). Afinal de contas, somos reféns dessas máquinas de comunicação, muitas vezes velozes e outras tantas vezes furiosas. São elas que estabelecem um percentual elevado da nossa comunicação e se é possível usufruir delas sem nenhum custo, que o Ubuntu faça muito e muito sucesso.

Pelos séculos da Microsoft, amém para a Canonical Ltd.

Bem-vinda

Do grego, a arte de tecer fios ao longo da vida, unindo pontas, juntando cores, construindo tapetes, quadros, mosaicos, as formas mais lúdicas, mais singelas. Por este dom serás, então, Penelope. Do hebraico, a responsabilidade da vidência, a força administrada pelas senhoras soberanas que em si preservam a guarda dos demais. Serás então, Maria.

Penelope Maria chegando em outubro, décimo mês do calendário gregoriano, que garante uma unicidade com o infinito (outubro também é o oitavo mês no calendário romano ∞). Bendita seja essa combinação do grego, do hebraico e do romano, derramando sobre o seu destino a missão da conciliação, da harmonia, dos grandes feitos. Que seja doce o seu caminho na convergência de todas as diferenças, tecendo laços, na vidência de sábios feitos.

Mas para mim, serás a miúda, little baby, Penepole Maria, minha terceira sobrinha-neta, nascida sob o signo de Libra, no ano e mês em que uma brasileira, minha contemporânea, foi consagrada Santa Dulce dos Pobres. E que todas essas bençãos – de esperança na paz – derramem sobre você a alegria que sentimos por saber que você chegou neste dia 14 de lua cheia. Mas para mim, serás a princesa do arco-íris, muito além do rosa e do azul, cobrindo meu coração de cintilante felicidade, como toda criança deve inspirar. E deves ser feliz no aconchego de pai, mãe, irmãos, tios, do avô babão, da tia-avó rodando o globo terrestre, abajur de quarto, procurando o país, a cidade, varando mares para saber-me mais perto de você. Mas para mim, serás o ar que se molda em vento, trazendo beleza, suave brisa, preenchendo de cordialidade as tardes abafadas de injustiças. Para mim serás trigo dourado, alimentando os corações aflitos com o pão da serenidade. E serás doce, e serás meiga, e serás farol dos navegantes imprecisos afugentando os perigos nas variações das marés.

Para mim, serás sempre bem-vinda, a cada dia, todos os dias, como uma oração de quem com a alma pacificada agradece à vida, pela sua vida que em nós reverbera tal qual uma melodia cujos acordes são dos anjos os sorrisos.

Bem-vinda, minha vidente, tecelã de fios!

 

Uns tão iguais, uns tão diferentes…e não há outros

Não sei não, mas a esquisitice das coisas é reconhecida tanto pela minha alma quanto pelo meu físico…. Não bastasse a insegurança econômica que arrasta milhões de desempregados para filas que esporadicamente se formam nas oportunidades que aqui e acolá acontecem, temos a violência social que se dá em diferentes contextos, seja à mão armada seja na incapacidade de tolerância que corrói as relações. Tá difícil… embora ninguém tenha nos dito que seria moleza….

Eu moro num condomínio dividindo espaço com 528 lotes constituídos por famílias de diversos tamanhos e na expectativa de que os demais 128 lotes venham a ser ocupados por outras tantas famílias. Por aqui a comunidade vive em harmonia, salvo numa situação específica – na época da eleição presidencial – em que a polarização vivenciada no Brasil inteiro conseguiu se infiltrar no nosso endereço provocando rachaduras na comunicação, violando o bom senso de forma irrecuperável, até hoje. Mas salvo esse triste incidente, ou até mesmo por causa desse triste incidente, percebo que a comunidade vem estreitando laços de solidariedade de uma forma bastante consistente. O que mais chama a minha atenção é que somos um público dos mais diversificados que a imaginação alcança: temos solitários, temos famílias enormes, temos gente que ama cachorro, temos pessoas que amam gato, temos até quem resolveu criar cavalos por aqui – que por sinal são lindos e chamam muita atenção pelos bons tratos -, temos músicos, temos funcionários públicos, temos aposentados em boa quantidade, temos crianças, temos idosos, temos uns mais loucos que outros, temos gente que batalha, temos gente que incomoda, temos gente que sabe ser amável, temos de tudo um pouco, graças aos bons deuses. A solidariedade se estabelece a partir de uma rede não formal – o famoso “boca à boca” – que vai informando as iniciativas surgidas a partir das habilidades criativas que cada um transforma em empreendedorismo. Assim, temos quem forneça quentinhas, temos a velhinha simpática que usa seu carro para transportar quem precisa se deslocar e não tem veículo, temos a corajosa que chegou do interior e providenciou um food-truck vendendo hambúrgueres altamente saborosos, temos a veterinária que atende a quase todos os animais do nosso convívio, temos os funcionários do próprio condomínio – os imprescindíveis “quebra-galhos” – que fazem reparos nas casas fora dos horários em que estão empregados, temos uma escola de música itinerante que oferece aulas de violão em domicílio, e temos, sobretudo, a gentileza que permeia as relações e que não se estabelece de forma pecuniária, mas pela alegria de proporcionar e também de receber uma delicadeza afetiva.

Somos uns muitos, enfim, que procuramos no dia a dia dar mais atenção ao que temos em comum, sem valorizar negativamente as diferenças que poderiam nos afastar.

Baita comunidade que me deixa orgulhosa e que me permite acreditar que pode ir muito mais além dos muros que nos protegem ….

 

Não há Leis que deem conta

Confesso que ando bastante assustada com o número de mulheres assassinadas neste país. A Lei do Feminicídio (promulgada em 2015) é quase diariamente mencionada. A tristeza é dupla: pela quantidade de mulheres que perdem a vida estupidamente e pela necessidade de haver uma Lei alertando o povo que se matar uma mulher pelo fato dela ser mulher, dá cadeia.

Nesta perspectiva eu fiz um breve levantamento de algumas Leis: Lei Maria da Penha (2006); Estatuto do Idoso (2003); Estatuto da Igualdade Racial (2010); Lei da Ficha Limpa (2010); Estatuto da Criança e do Adolescente (1990); jogar guimba de cigarro na rua, dá multa (2011); estacionar em vagas de idoso ou cadeirante sem sê-los, dá multa (2016); e por aí nós vamos…

A Homofobia roda, roda, roda, sai de uma gaveta e vai para outra do Poder Legislativo, mas ainda não se tornou Lei. Urinar em via pública é crime, mas só pela exposição da genitália, não pelo ato em si. Observando isso, posso dizer que outras Leis podem estar em vias de serem formuladas, já que deveria ser mais que constrangimento quando o cliente adora o copo do restaurante que tem até a logomarca da empresa, e resolve levar para casa na “mão grande”; ou aquela toalha do hotel; ou se fingir de desligado para entrar no meio da fila e não no final; ou achar que o vidro aberto de um carro é salvo conduto para atirar qualquer coisa enquanto se atravessa a cidade. Será que um dia vai ser necessário criar uma Lei penalizando aqueles que ao entrarem em um elevador deixam de cumprimentar os presentes? Será que um dia vai ser necessário uma Lei que readeque os esquecidos na ausência de um agradecimento pelo serviço prestado, ou por uma gentileza qualquer? Eu não duvido.

Pois é….. Eu fico olhando essas Leis e outras não mencionadas, e me pergunto: em que escala de qualquer padrão civilizatório nós estamos enquanto seres humanos? Quando me questiono sobre isso, quem me abraça é a sensação de vergonha, enquanto o orgulho fica sentadinho num canto, bem longe, com os olhos cheios de lágrimas. Sabemos, como ninguém, reivindicar o que entendemos ser nossos direitos, mas temos uma patologia, muitas vezes mortal, que nos impede de reconhecer os nossos deveres. Basta fazermos um exercício bem simples: para que eu desfrute deste direito, qual o dever a que devo estar comprometido? Deveria ser simples assim…. Mas simplicidade me parece tratar-se de uma matéria acessível a poucos.

Nessa (des)conjuntura social não podemos esquecer da habilidade quase inata que nos atravessa, concedendo o poder de julgar a todos com muita facilidade. Somos implacáveis com os defeitos alheios, mas altamente indulgentes com as nossas falhas – isso quando reconhecemos sermos falíveis…  E nessa facilidade de julgarmos os outros tiramos conclusões completamente deformadas, sendo a mais frequente aquela que leva a pessoa a praticar conscientemente uma ação condenável tendo por base o exemplo dos que detém algum tipo de poder. É o famoso “se ele faz, não há quem me impeça de também fazer”. Vamos combinar que pensar assim trava qualquer possibilidade das coisas boas prosperarem. Se o Governador rouba, eu também vou roubar; se o meu chefe grita eu também vou gritar com o meu subalterno; se o meu vizinho esqueceu de me cumprimentar no meu aniversário não serei eu a cumprimenta-lo no aniversário dele…. e por aí vai uma série de equívocos que precisam ser corrigidos com urgência.

Se é para mudar o mundo, não conseguiremos nada acumulando Leis inesgotavelmente. A mudança começa por cada um de nós. E posso garantir que não depende de plenária votante, filiação partidária, ou cunho religioso. Basta que se coloque no silencio do mundo e se pergunte como contribuir para que todos desfrutem de um mundo melhor.

Surpreenda-se.

Ode ao ovo frito e circunvizinhanças

A questão é muito séria e tão fortemente entranhada na minha biografia que, sem nenhum acanhamento, posso afirmar que todos os arquitetos deveriam se debruçar respeitosamente nos planos, superfícies, formas, escalas, texturas, cores…., esculturalmente representadas num ovo frito criteriosamente depositado sobre um punhado de arroz branco. Ambos na boa temperatura, indicando terem sido recentemente preparados. Não há ambientação mais harmoniosa que a cumplicidade desses dois elementos quando unidos pela exigência ditada pela fome.

Um ovo frito com arroz só perde para outro ovo frito com arroz. A diferença entre o vencedor e o perdedor nos remete a uma singular cosmologia, considerando que ser ou não ser são derivações externas que não dependem exclusivamente nem do ovo nem do arroz, mas de quem os prepara. Um cozinheiro que desconhece a arte de lidar com os dois, certamente irá imprimir o fracasso na composição final. Já quem não negligencia todas as nuances combinatórias (inesgotáveis) de um ovo frito apresentado sobre um arroz branco, saberá trata-los como uma obra de arte.

O arroz deve ser úmido sem nunca se aproximar do arroz empapado, muito menos se apresentar na condição do “unidos venceremos”. Os grãos devem manter, cada um, sua individualidade própria, cair pelas fendas do garfo como um atleta a exibir-se na exuberância de sua forma. Cebola e alho conferem alma na medida certa do óleo que os refoga. Já o ovo frito exige menos (nada além de óleo/manteiga e sal) mas nem por isto deixa de ser menos melindroso para quem quiser alcançar a sua exuberância. Um ovo frito não deve se apresentar cru na sua superfície. Clara e gema possuem um ponto muito sutil que quando alcançado revela-se um portal para a transcendência gustativa. O que significa dizer que o ovo frito com arroz branco é uma fonte de autoconhecimento daquele que o sabe apreciar.

Quando jovem, organizava secretamente concursos entre as mães de meus amiguinhos (naquele tempo os pais passavam longe da cozinha. Hoje espero que isso tenha mudado) procurando eleger aquelas refinadas na habilidade artística do ovo frito com arroz branco. Meu segredo sobre a culinária alheia permitiu que até hoje eu tenha lembranças magníficas de algumas mulheres que na minha avaliação juvenil mereceram honrosamente o título de “mãe perfeita”. Essas senhoras nunca souberam a intensidade da minha admiração porque por mais que elogiasse o que eu estava degustando, não tinha vocabulário que correspondesse ao prazer da experiência.

Pretende-se que a vida seja simples como um ovo frito sobre o arroz branco. E é assim mesmo: a simplicidade só se estabelece a partir de pré-requisitos desafiadores. É preciso muita coragem e treinamento árduo para retirar da vida as múltiplas camadas dos supérfluos que equivocadamente insistem no desejo de protagonismo. Minha meta nesta existência é saber cada vez mais a importância de um ovo frito sobre o arroz branco e de que forma habilitar-me no aperfeiçoamento em saboreá-los.

 (A partir de um comentário de Nélida Piñon: “Sou sociável, diria mundana. Aceito o pão e o vinho do amigo. Sinto estar sendo conduzida pelos deuses para confrontar-me com o afeto, a euforia, o brinde, o ovo frito montado sobre o arroz branco…”)