Reiniciar é preciso

Meu Amigo,

De tanto me perguntar se 2020 iria demorar muito para chegar, quase me esqueci que 2019 já tinha iniciado e que eu não poderia simplesmente ignorar a caminhada que me estava sendo oferecida. Não dá para pedir para sair. Não dá para gritar “para tudo que eu quero descer”. E se as apreensões são grandes, se as incompreensões são acúmulos distanciados dos esclarecimentos lógicos, se a tristeza embaça o brilho da esperança, se o cansaço se aproxima da desistência, então é hora de cortar o cabelo, fazer uma viagem, ler um excelente livro… É hora de brincar com o velho caleidoscópio da infância e entender que as coisas são ótimas a depender do ângulo que as observamos. Mas para buscar novas percepções é fundamental que o medo vá para longe de onde estivermos. Um baita desperdício de minha parte alimentar o medo que senti com a aproximação de 2019. E viver com medo é, definitivamente, fechar as portas para qualquer alegria, mesmo aquelas mais tímidas que cabem em qualquer espacinho do coração.

Demorei um pouco para revisitar o meu Pote das Gratidões de 2018. Foram muitos acontecimentos, todos muito significativos: tem a gratidão por ter feito contato com uma parente que há muito não tinha notícias, e porque a vida é uma estranheza calculada, alguns meses depois ela veio a falecer; tem a gratidão pela amiga ter se deslocado de outro estado só para passar comigo o aniversário; gratidão por apenas ter arranhado o pé quando a minha perna direita afundou por completo na fossa; gratidão pela disponibilidade constante dos amigos em me ajudar nas dificuldades temporárias; gratidão pelos presentes carinhosos de amigos e vizinhos inscritos na máxima incontestável de que “gentileza gera gentileza”; gratidão pelos bons acontecimentos que envolveram meus amigos e parentes, que também me fizeram feliz; gratidão pelo primeiro fruto que a árvore de romã me presenteou bem perto do Natal; gratidão pelas circunstâncias que fizeram superar os meus limites, as minhas capacidades. Gratidão, enfim, pela ideia de ir anotando ao longo do ano a importância das coisas, pois se assim não tivesse providenciado muito provavelmente seria traída pela memória….

Meu caro, e a gente começa esse 2019 em perfeito alinhamento com todas as sandices que parecem assolar o planeta. Com isto já iniciei o ano com a anuência do Governo para adquirir uma arma, ou melhor, quatro armas de fogo. Além disso tenho, por sugestão, que ficar atenta se meninas vestem rosa e os meninos azul. As ONGs, as Agências de Cooperação Técnica, e sei lá o que mais, se configuram sinistramente nocivas com a mesma maldição recentemente descoberta quanto a globalização ser o mal da vez para a Humanidade. E não vamos falar em nome de Deus porque não faltam procuradores Dele, cujas firmas absolutamente não as reconheço.

Tudo muito sinistro, incompreensível, e de certa forma ameaçador. Mas chegamos até aqui numa sucessão de resiliências quase heroicas, apesar do joelho arrebentado e do pescoço travado. Acordar duas ou três vezes à noite com dor ou assustada, se impõe à possibilidade de nunca mais acordar qualquer dia desses. Portanto, enquanto for possível, que prevaleça a vida com seu acúmulo de saudades, definitivas ou provisórias. E se são tempos difíceis, que saibamos caminhar com suavidade em perfeita sintonia com o que acreditamos e desejamos. Sobretudo, que saibamos distinguir a parte que nos compete para que a harmonia seja preservada, sem, no entanto, ceder aos princípios que não nos dizem respeito. É verdade que envelhecemos mais sós, porque o instinto de sobrevivência ou talvez pelo punhado de sabedoria adquirida, conseguimos nos afastar das pessoas que resistem ao diálogo e querem impor suas verdades sem se darem conta que nada é absoluto. Envelhecemos mais solitários, mas em paz com as nossas próprias dúvidas.

Quando a nossa convivência era menos etérea, éramos jovens e nosso cardápio de preocupações era outro. No fundo, havia uma centelha permanente que nos mobilizava a seguir em frente, intrépidos, porque supúnhamos que todos os nossos sonhos eram realizáveis. Aos poucos, muito cedo para o meu gosto, aprendemos que alguns fatos são intransponíveis, que as saudades vão preenchendo o peito, que a saúde não é companheira eterna. Descobrir que somos limitados talvez seja o rito de passagem para a maturidade. Respeitar nossos limites, sem covardia, talvez seja o privilégio de quem sabe envelhecer. Quando jovens, todas essas questões pungentes de 2019 atravessavam a nossa existência, em grau e cor diferenciadas, seja porque tudo era menos transparente seja porque nossa capacidade de transcender tinha pinceladas épicas. Se pudéssemos conversar hoje sobre quem fomos um dia, talvez déssemos boas gargalhadas da fantasia de que tudo podíamos e nada poderia se interpor à conquista de nossos sonhos.

Pois é, Amigo, 2019 está aí. E 2020 que espere a sua hora de acontecer. Nesse intervalo entre hoje e o amanhã cabe a mim, cabe a cada um de nós, saber receber os esperados e os inesperados com a gratidão de serem eles possibilidades preciosas de nos conhecermos e nos reconhecermos nos imperativos inabaláveis de nossa alma.

Forte abraço,

Vera Cristina

Somos o tempo em nós

“É uma chatice, mas a partir de certa idade morre-se muito. É certo que há aqueles que se antecipam, morrendo quando ainda não era o tempo, para se tornarem em fantasmas de memórias sem partilha. Foi o que fizeram alguns bons amigos, várias queridas amigas. O que considero uma traição imperdoável. Fazerem-me isso a mim! Mas também há aqueles que permanecem vivos depois do seu tempo, sem a memória de quem foram em quem já não são. O que talvez seja ainda pior”. (Helder Macedo)

 Outro dia eu estava vivenciando essa sensação… geralmente ocorre quando eu tenho dificuldade de lembrar o nome da imagem da pessoa que se projeta na minha mente, mas que não ultrapassa o limbo; ou quando quero me lembrar o nome daquele objeto que está na minha frente, consigo tocar com as mãos, mas fica sem o substantivo da sua exata definição… Nessas situações o nervoso pela incompreensão do absurdo de me ter fugido nomes, faz com que eu jogue a cabeça para o lado e encoste a minha velha existência numa estranha criatura a quem venho sendo apresentada bem lentamente de esquecimento em esquecimento.

Mas esta é só uma faceta das muitas apreensões que o vento da idade nos traz. Assim, nos é permitindo comparar nós mesmos com o “nós mesmos” que um dia fomos. E certamente são muitas as diferenças, nem todas banhadas em lágrimas. A perda da energia talvez seja o primeiro sintoma do efeito do tempo. É quando carregar um galão de água passa a ser uma dificuldade entrecortada por vários momentos de descanso. É quando passar a máquina de cortar grama no quintal passa a ser uma tarefa para vários dias. Portanto, é buscar numa memória não muito distante a tranquilidade com que transportava galões de água para cima e para baixo sem ficar ofegante, ou o quanto era divertido e rápido “pilotar” a máquina de cortar grama sem que o corpo sentisse qualquer grau de rejeição. Mas nem tudo é desvantagem: não conseguir levantar um galão de água hoje me permite reconhecer e admirar a resistência física de quem o consegue, e de quebra alguns conselhos para que a pessoa possa preservar a disposição por um número maior de anos; perseverar dias seguidos numa tarefa que anteriormente me requeria a velocidade de uma manhã e uma tarde, faz com que eu preste mais atenção nos bichinhos da grama, nas flores, no mato que vou arrancando a título de me recuperar um pouco. São percepções com potência diferenciada daquela vivenciada na juventude. Assim como diferem os motivos de tristeza, as idades também diferenciam os motivos de alegria. Mas, convenhamos, viver consiste em equilibrar as tristezas e as alegrias, sendo da ordem da bem-aventurança quem insistir teimosamente que as alegrias são em maior número.

Envelhecer também pode ser maldição. Pode causar um estranho efeito nas pessoas: um súbito não reconhecimento daquilo que sempre foram, e passam a pensar diferente, a agir diferente, a terem postura diferente… um diferente que na sua grande maioria é uma desqualificação de tudo pelo qual poderiam ser reconhecidos. Ficaram velhos no sentido mais pejorativo da palavra: amargos, rabugentos, intolerantes, detetives das imperfeições e das críticas pouco construtivas. De tanto envelhecer, estragaram as boas qualidades da convivência e ruminam todas as espécies de desconfortos e intransigências. Substituem o medo de viver intensamente pela infelicidade constante de sentirem medo de morrer. Identifico os velhos quando além dos gestos rudes guardam no olhar uma dureza congelante. Identifico os velhos quando fazem da idade um salvo conduto para algumas prioridades nem sempre legítimas, seja nas filas dos supermercados, seja na obrigação que os demais deveriam ter em lhes ceder o lugar nos ônibus, seja na falta de gentileza em retribuir um cumprimento que lhes é dirigido. Identifico os velhos quando eles mesmos se apercebem que já viveram demais e exigem benefícios que são incompatíveis para aqueles que vivem plenamente. Acho que acumulei idades na calçada oposta à dos velhos, mesmo que de vez em quando atravesse a rua para voltar correndo para onde o sol me aquece e ilumina.

Quando eu morrer, mesmo que tenha ultrapassado os cem anos, fico torcendo para que pelo menos um possa dizer “Poxa, morreu tão cedo”….

Caixa da Gratidão

Na virada de 2017 para 2018 fui acordada por uns entusiasmados festeiros soltando rojões no Condomínio. E olha que foi feita uma campanha para os moradores não soltarem fogos em respeito aos peludos…  Uma vez acordada, dei uma olhada nas comemorações transmitidas pela televisão: definitivamente um clássico quando se trata de renovar as esperanças. O mesmo, mas a diferença está na energia que cada um despeja no universo, numa mesma hora, num mesmo significado, pelos anos que se sucedem. Torço muito mesmo para que dias melhores abracem a todos.

Não, não dei pulinhos, não botei roupa nova, não comi lentilha, não guardei folha de louro na carteira, não cheguei perto de nenhuma uva, não fiz qualquer dessas coisas, que embora muito simpáticas não me seduziram a praticá-las. Fiquei de “cara limpa”, rugas expostas, celulites à mostra e sem um tiquinho de consciência pesada por ter comido demais. E foi bom!! E foi ótimo!!  Uma sensação de que ano novo só depende de mim, sem que frutos, folhas, cereais, interfiram na minha responsabilidade de fazê-lo realmente novo. Ah! Preciso confessar que fiz um joguinho, mínimo (afinal sorte é sorte!), na Mega da Virada. Não ganhei os mais de 30 milhões e este fato me deixou exatamente onde eu estava… o que pode ser uma benção….

Mas músicas tocam, fogos iluminam a noite com muito barulho, uma multidão entrando no meu quarto pela tela da televisão, desejos irrestritos de felicidade cruzando distâncias imensuráveis, até que uma ancora de noticiário mencionou que ela preserva um pote de gratidão que é abastecido desde o primeiro dia de cada ano e revisitado no último dia do mesmo ano. A ideia era tudo que eu esperava para ter o meu próprio ritual de passagem!!

Já escolhi a minha Caixa! Estou pensando em mil maneiras de personaliza-la! Já separei o bloquinho que irá prestar o serviço de registrar as gratidões que se amontoarão em 2018. Já identifiquei neste primeiro dia do ano anotações inaugurais. Lampejos de alegria circulam, se entrelaçam, se multiplicam e dão consistência a alguns valores aos quais não gostaria nunca deles me afastar ….

Minha Caixa da Gratidão fica aqui na minha bancada de trabalho. Meu talismã, minha simpatia de ano novo, meu preventivo contra a amnésia, minha concreta significação de que são muitas as ocorrências dignas de reverência, tantas que com facilidade tendemos a deixa-las escapulir na poeira do tempo que cobre a nossa emoção.

Minha Caixa de Gratidão me fará sorrir quando chegar o último dia. Tenho certeza disso. A retrospectiva estará pronta e repleta do que realmente importa ser preservado na vida.

 

Um Bom Conceito

Estou procurando um Bom Conceito disponível para aluguel. Pago três meses antecipados, o que significa que irei praticá-lo no período estabelecido na perspectiva de bem avaliar quanto à efetividade.

Esta iniciativa me ocorreu a partir da constatação fatalista que a minha respiração está perdendo a validade e as práticas conceituais que me serviram até aqui foram incapazes de um equilíbrio prolongado. Essa perseguição de vida inteira está a me requerer um processo mais dinâmico para me evitar um final reticente.

O que eu espero de um Bom Conceito? A promoção de coisas muito básicas, tais como: disponibilidade ampla para sorrir todos os dias, mas daqueles sorrisos genuínos que se estabelecem espontaneamente no trato dos acontecimentos; disposição renovada a cada amanhecer que me permita encarar o dia com a convicção de que se trata de um potencial ilimitado de boas oportunidades; palavras gentis trocadas sem reservas de domínio, desde que se afastem do convencional e possam expressar autenticidade de sentimentos; destreza assertiva com relação à paciência por ser condição imprescindível para perceber possibilidades distintas, menos traumáticas; discernimento com ampla transparência para o binômico custo x benefício que abranja todas as etiquetas de preço relacionadas à Vida; experiências que me façam aprender com a exclusividade de transitar apenas pela via do Amor.

Não, não pensem que procuro alugar premissas que induzam à obtenção da Felicidade. Nada disso. Felicidade é abstração da Angústia e ambas são altamente indesejáveis. O Bom Conceito que procuro está associado a um confortável Bem-Estar, bem parecido com as vezes em que se pega um livro para ler sentado numa poltrona tão aconchegante que torna a leitura mais atraente. Fundamentos que quando confrontados com a realidade me permitam o entendimento de ter nascido para fazer as coisas que faço, condição esta que teria me impedido tantas vezes de torcer os tornozelos na insegurança dos meus passos. E foram tantos “ai, ai, ai” e “ui, ui, ui” pelo caminho…

Já que o mundo está cheio de pessoas que se esforçam em mostrar uma vida encantada pelas redes sociais, replicando inveja aos que acreditam em sorte, bem-aventurança e perfeição, está lançada a oferta: estou querendo alugar um Bom Conceito e pago bem. Estou pagando com a minha vida em experiência de três meses!! Mas, por favor, não me venham oferecer fakes-feelings, daqueles que não sobrevivem à hora seguinte nem a mais tacanha das dificuldades. Estou querendo um Bom Conceito que perdure no que me resta viver, na perspectiva que muito além do depois de amanhã ainda pretendo estar viva.

Aguardo propostas encaminhadas em duas vias, com no mínimo uma vida que justifique o direito à seleção do seu Bom Conceito.

Caixa de Pandora

Caixa de Pandora

Meu Caro Amigo,

Estava buscando uma imagem que pudesse sintetizar o ano de 2017 para que você tivesse uma vaga ideia das coisas por aqui. Fui indo até chegar na Grécia, bem antiga, e me dei conta que a Vida é muito feminina e em si a mesma curiosidade que levou a velha Pandora a abrir a caixa cujo conteúdo lhe fora proibido conhecer. Como reza a mitologia, uma vez aberta a caixa todos os males foram espalhados na Terra, cabendo à esperança neutralizar o arsenal das desgraças alastradas no mundo.

Pronto!! Identificada a analogia ficou fácil juntar os fios que justificam a correspondência. A morte rondou a minha vida e cravou dois episódios: um no primeiro dia do ano e outro no último mês. É… O amor ficou mesmo entrelaçado com o luto… aqui no meu quintal e em tantos outros longínquos lugares, muitos deles orquestrados nos mais de vinte (20) atentados terroristas pelo mundo.  Evitei verbalizar o famoso “não falta acontecer mais nada” porque os acontecimentos seguintes conseguiam superar a decepção com a qualidade humana depreciada por nós. A cada dia ficou mais e mais difícil imaginar a procedência do novo escândalo, e o perigo sempre esteve na aniquilação da capacidade de nos indignarmos. Apesar de tentar resistir me sei mais triste, mais medrosa, mais silenciosa, mais dentro de mim mesma querendo jogar no lixo a chave do cadeado.

Mas as dificuldades sempre dão duas opções aos indivíduos: ou a pessoa se suicida, ou recolhe todos os estilhaços e se reconstitui na medida que lhe for possível. Do meio do ano para cá estou atrás da informação com relação ao índice de suicídios no Brasil e no mundo. Hoje desisti de buscar este dado e até concordo que ele não deva ser publicado, pois certamente assustaria a sociedade e pior, incentivaria uma larga escala de indecisos a consumarem o fato. Suicídios estão muito ligados ao assédio moral e não por coincidência foram inúmeras as reportagens sobre bullying, sobre dependência alcoólica, sobre drogas destrutivas, sobre a maternidade de crianças. Não raro foram as vezes em que me senti extremamente envergonhada: vergonha de mim mesma por sentir a minha existência entrincheirada num paredão sem conseguir transpô-lo; envergonhada por atos que não pratiquei, mas que me associavam à mesma espécie daqueles que os praticaram. Definitivamente a Vida abriu, sem nenhuma cerimônia, a Caixa de Pandora. Restou para alguns a esperança.

Me salvei porque permiti que as pessoas entrassem pela fresta que consegui manter na difícil interação com o mundo. Enorme gratidão por todos que me deram condições de sobrevivência. Uma lista enorme: agradeço aos que me deram a confiança de discordar deles e seguirmos mais próximos; agradeço aos que me deram a oportunidade de buscar novas alternativas de sustento; agradeço aos que me enviaram por WhatsApp mensagens de bom dia que foram irretocáveis em determinados momentos; agradeço os telefonemas daqueles que queriam saber de mim; agradeço aos que estão distantes mas que sabem preservar as boas relações; agradeço os reencontros que aqueceram meu coração; agradeço aos que me outorgaram uma saudade definitiva que me fará sempre querer homenageá-los, tal qual tento a cada ano com relação a você; agradeço os encontros casuais que me ofereceram um sorriso e que também me fizeram sorrir; agradeço às coisas que de alguma forma tiveram fim e que foram porta-de-entrada para outros princípios…. Agradeço tanto a tantos….

Pois é, meu Amigo, a Caixa de Pandora foi aberta em 2017. Agora é conjugar razão e emoção (esperança) fortalecendo sentimentos que nos façam reconhecer a dignidade nos outros e em nós.

Um forte e carinhoso agradecimento,

Dezoito anos completos…

 O dia amanhece nublado. O que não é estranho para um novembro europeu. Essa convivência com nuvens escuras, chuva e vento é uma das características do outono. Variar dos 11 graus aos 20 é percorrer uma paisagem do muito frio para o frio. Portanto, o dia amanheceu nublado quando completados os dezoito anos em 23 de novembro. Até aí nenhuma grande novidade…

A extraordinária gravidade, que vem acompanhada de grande ansiedade, é a ostentação de se saber proprietário de uma idade que passa a comportar de forma equilibrada os tantos de direitos associados ao mesmo tanto de deveres. Dezoito anos é, sem nenhuma dúvida, a Idade das Consequências. É uma fase em que a vida troca os brinquedos da infância os substituindo por lúdicas interações, mas desta vez guiadas pela responsabilidade. Acertos e equívocos começam a compor um mapa, estabelecendo o caminho para se descobrir o tesouro que cada um traz em si. E tudo tão sutil, tão leve… Não se acorda com sinais físicos da chegada dos dezoito anos… Nem mesmo o outono se modifica, porque tudo flui com naturalidade de primavera em primavera…

É muito importante que os dezoito anos sejam muito bem aproveitados. É fundamental que não se perca a oportunidade de tirar os olhos do chão, do aqui e agora, para direcioná-los para o horizonte da altura de cada um. É o tempo mágico em que a gratidão de receber comunga com a magia de saber que se tem muito a oferecer. Dezoito anos é o tempo do conjunto, de se saber misturado, de fazer escolhas que ficarão impressas para sempre no caminho que cada um revisitará quando muitas vezes multiplicada a idade de agora.

Pelo prestígio deste aniversário desejo a você as melhores Consequências que se imporão pelas suas escolhas. E sobretudo, que seja óbvio o mapa que permitirá ao mundo ter conhecimento do tesouro que cada um de vocês espalhará pelo caminho escolhido.

Para Ana e André

Os Quatro Anos de Gabriel

Ventava tanto aqui. Um vento de varrer poeira das árvores, de fazer cantar as folhas dos coqueiros. A natureza dançando. Os galhos mais animados se divertiam acompanhando o zunido ritmado da força do ar no redondo do mundo.

Basta que 29 de julho se aproxime para se experimentar no coração a festa da esperança decorada com muito amor. É sempre assim e assim para sempre será.

Completar quatro anos é cerimônia de muita responsabilidade para o aniversariante. Afinal, as experiências acumuladas se infiltram nas posturas com as quais se dá a relação com o mundo. E preservar o sorriso é forte acalanto para o meu coração. Está tudo bem com você! Crescer lhe é um compromisso feliz: está no seu sorriso, está na meiguice do seu olhar!

Eu sei, certamente a partir de agora serão mais fortes os vestígios de que são infinitas as possibilidades de conquistas que guiarão o seu espaço no mundo. E dá uma vontade de me transportar uns bons anos no futuro só para dar uma espiadela no muito de ótimo que você se tornará. Eu sei. Mas agora você começará a ter mais atenção para os estímulos à sua volta. Tudo será orquestrado pelos pilares que referendam a sua segurança: pai e mãe, acolhedores em qualquer circunstância; o irmão mais novo que exigirá cuidados já que não pode lhe acompanhar nas brincadeiras mais “adultas” que a sua idade permite; a Esme, companheira peluda com quem você convive desde o seu primeiro dia; o avô, que aparece sempre que pode com os tios e inundam os dias de possibilidades; e tantos outros que fazem os seus dias mais felizes, mais confiantes, mais experientes. É tanto amor que certamente você se sentirá impelido a espalhar esse amor pelo mundo a sua volta. Assim, se faz um mundo mais feliz!

Meu rapazinho de quatro anos! Que a natureza saiba sempre festejar a sua presença, embalar os seus sonhos, e iluminar de amor o seu futuro.

Saudades na sombra da mangueira

Faremos como coisa que só foram alegrias e que toda a agonia nos dois últimos meses antes da partida deve-se ao tempo sinalizando adeus já com o perfume da inevitável saudade.

Agora você descansa sob a sombra da mangueira em plena exuberância, numa proporcionalidade de como foi superlativa a nossa convivência desde as suas primeiras horas de vida até ao silencio, quatorze anos depois. Fica a lembrança dos seus olhos que sempre guardavam certa melancolia mesmo nos momentos mais excitantes expressos em saltos e abanar de rabo. Fica transfundida em mim essa leve opacidade ao enxergar a vida já no primeiro dia deste ano.

Já que viver é um carrossel às vezes desenfreado com sentidos sobrepostos, me é possível exemplificar que aquele pequeno pedaço de terra anteriormente inexpressivo no meu quintal, se redefiniu num memorial do nosso tempo, num repertório de recordações que alcança sua mãe e seu pai, absorvidos pelos propósitos do tempo bem antes de você. Também está adornado com lembranças de outros peludos que conviveram conosco e deixaram especiais lições de amor registradas nos passos e descompassos fluentes no meu coração.

Já que o amor é um imprevisível encontro de almas, agradeço a todos os insondáveis mistérios que a trouxeram para junto de mim permitindo que eu me conhecesse melhor pela simples disposição de incluir você na minha vida. Sem dúvida você trouxe muitas alegrias que só fizeram a minha vida mais feliz. E nada acabou porque surge um sorriso, muitos sorrisos, ao recordar pedaços da nossa convivência que chegam sem ser anunciados para surpresa dos gestos mais cotidianos. Amor, então, também é saudade que nos põe a sorrir…

Já que você se transformou num canteiro, fiquei aqui multiplicada, tri dimensionada, regando as flores, colhendo os frutos, preservando a luz da sua existência derramada na quota de eternidade da minha experiência de vida.

Para Vicky

Para não esquecer os vaga-lumes

Meu caro,

Pois é… Meu amigo seria impossível listar os acontecimentos que fizeram a escuridão de 2016. Inútil descrever o pavor desses tempos, porque superou todos os parâmetros da perversidade, seja no privado seja no público. A morte estendeu o tapete para reverenciar a multiplicidade dos contornos e formas do irracional. A barbárie foi habilidosamente esculpida dia a dia com uma determinação e perseverança estonteantes. Mais tarde os historiadores decifrarão motivos e escolherão a palavra emblemática, ao preço de muitos comprimidos inibidores de náuseas, que registrará o terror desses tempos no seu cruel passo a passo. Cada um de nós guardará as imagens mais expressivas dos escombros da nossa civilização em franco retrocesso. Certamente não esqueceremos nenhuma delas…

Mas não podemos duvidar que somente na escuridão somos capazes de perceber o encantamento que nos permitem os vaga-lumes. Eles se fizeram visíveis em 2016 quando tudo parecia sem direção. Vieram em bando enfrentando mares revoltos desprovidos de faróis e bóias. Inundaram de alegria os corações porque crianças nasceram do amor de pais dedicados. Bailaram reivindicando um sorriso quando as angústias pareciam não ter fim. Aconteceram os vaga-lumes nos sorrisos gratuitos que nos dirigiram alguns desconhecidos, sem motivo aparente. Aconteceram os vaga-lumes nas flores que desprezaram a primavera e nos deram um susto de cores antecipadas. Aconteceram os vaga-lumes na resiliência que nem imaginávamos capazes. Aconteceram os vaga-lumes no suor das grandes empreitadas nem sempre agarradas ao sucesso. Ah, esses vaga-lumes, minúsculos, frágeis, a mercê de tantos predadores, iluminaram os nossos corações quando mais sombrios nos consumiam os sentimentos.

A corrupção devastou as nossas vidas com um exagero proporcional à ganância de poucos que, não duvido, são capazes de repetir os feitos na menor oportunidade. Enfrentaremos alguns muitos anos na tentativa de nos recompormos, de nos aprumarmos, de sentirmos orgulho, como nunca antes, do povo que um dia poderemos ser. Chegamos ao final do ano com uma respiração cansada, com a perspectiva remendada, mas talvez tenhamos entendido que esperança exige que tenhamos um plano de trabalho detalhado para fazer com que as coisas aconteçam, ao contrário de ficarmos olhando pro céu “esperando” que a realidade mude com a interseção impossível dos planos astrais distintos.

Cansaço, meu caro, muito cansaço…. Só peço a mim mesma que nada usurpe a minha capacidade de louvar o que deve ser louvado. A começar com o reconhecimento de que vaga-lumes só acontecem quando plena a escuridão.

Com um pouco de sorte, até o ano que vem….

Saudades,

Vera Cristina Menezes

 

Uma coisa. Outra também

Algumas situações ainda conseguem impressionar apesar do meu esforço psicológico em admitir que estamos vivendo a era do “tudo é possível”, já que moral e ética atravessaram a rua deixando a civilização em outra calçada. Ou vice-versa.

Meus sobressaltos estão sincronizados com as matérias veiculadas nacionalmente sobre o cidadão que encontrou uma carteira na rua e a retornou ao dono; ou sobre o taxista que devolveu ao passageiro distraído o celular esquecido no carro; ou outras tantas ocorrências que são divulgadas com pompa e orgulho.  Mas péra aí, desde quando introjetamos que o que deveria ser regra passou a ser exceção? Então quer dizer que é extraordinário você não se apropriar do que não é seu? Entendi: o famoso jargão do “levar vantagem em tudo” ganhou o sobrenome de “achado não é roubado”.

Outro dia eu quase me diverti analisando os argumentos de um inquilino pleiteando a manutenção do valor do aluguel sem reajuste. A pessoa se auto avaliava como “bom inquilino” por nunca ter atrasado o aluguel e apontava a recessão como uma aliada para que o valor se mantivesse inalterado. Oi? Cumprir compromissos não sobreleva ninguém a qualquer grau de extraordinário; até onde eu sei é obrigação. Infelizmente lidar com a recessão não é infortúnio de poucos, é uma desgraça bastante democrática, e evocá-la em particular é um sacrilégio para com o coletivo.

Outro dia me ofereci para ajudar a carregar terra para a horta recém construída da minha vizinha. Ríamos do nosso cansaço e tropeços em levar avante uma atividade quase interditada pelas nossas idades, que somadas superam facilmente um século… que horror! Ao final da tarefa, a vizinha não sabia como me agradecer e me batizou de “vizinha comunitária”. Até pensei em corrigi-la com um antipático: “a senhora quer dizer vizinha solidária”. Mas tudo estava tão divertido que nem comunitária nem solidária sobressaíram à contingência de ser apenas vizinha, o que em si implica referência de multiplicidade.

São essas coisas assim que me estremecem. Fica a dúvida soberana sobre a esquisitice: ou eu, ou o mundo, ou tudo junto… Convenhamos, é meio esquisito de tudo a ousadia de viver. Uma tendência psiquiátrica afinada na bipolaridade: ou é bom ou é mau; ou é do bem ou é do mal; ou é rico ou é miserável; ou é coração ou é razão; ou é isto ou é aquilo…. A coerência, a paz, o equilíbrio parece que escapam bem no meio de tantos extremos. Talvez seja isso mesmo: é o tempo de deixar escorrer alguns valores para que a terra os devolva mais suculentos, mais enraizados, mais consumíveis…..

Enquanto isso vou revezando as minhas esquisitices com as esquisitices que testemunho por aí. Mas eu juro que mesmo abraçando muitas das árvores no meu quintal, nunca me apropriei de algo que não fosse meu; mesmo conversando longas horas com os meus cachorros, nunca deixei de ajudar um estranho em situação difícil; mesmo tendo plantado uma árvore para que os frutos só fossem apreciados pelos pássaros, ainda acho que é possível valorizar a condição de sermos vizinhos uns dos outros; mesmo puxando conversa com pessoas que nunca vi antes, ainda acho que deveríamos prestar mais atenção para o que a Genealogia nos comprova: somos todos uma enorme família.

Que a minha família está cheia de gente esquisita, lá isto está…..

Aspas para sempre abertas

Não, não é que meus olhos estejam voltados para trás. É mais que isso: é o meu corpo, passo a passo, fazendo o caminho de volta, por estradas nem sempre as mais desejadas mas que me permitiram reconhecer, muito depois, que de estações em estações havia uma espécie de planejamento que atravessava todas as minhas idades com uma firmeza de despropósito assustadora.

É uma sensação de não pertencimento, quaisquer que tenham sido os escalões da modernidade que me intimidaram, que me desafiaram. Textos alheios nos quais nunca me reconheci. Aspas douradas, brilhantes, mas e daí? Nelas nada de mim. Mas segui, atirada e atirando, por entre, de frente, passando por sonhos, delírios, plasticidades, coerências, aventuras, desventuras…. nunca me encostei na realidade. Mas dela quem precisa? Talvez ela seja uma exclusiva serventia do tempo, e nada mais.

Assim, mantendo o meu olhar naquela linha chamada horizonte, lá na frente, mas andando para trás e sem pressa, vou costurando as cenas vividas. Nelas muitos outros detalhes além daqueles de quando acontecidos. Não que eu tenha por objetivo chegar a qualquer conclusão, afinal cada movimento determinado pela respiração é conclusivo por si só. O que me entretém são os traços sutis desse painel exclusivo da minha vida, repleto de fatos, acontecimentos, instantes de piscar os olhos, lentas tardes escorrendo cores delicadas, nuvens, névoas, mato, grama, frutos, pássaros, olhares desviados, motores acelerados… traços finos, gestos de ocasião…. uma colcha de retalhos sob a qual se expande e se contrai uma pessoa inconclusiva que ao espelho apenas me delata, sem nenhuma revelação.

O que mais me interessa e me faz sorrir é constatar  as voltas tantas, pelo mar, pelo ar, até chegar num pedaço de terra e me fincar na natureza, meio bicho, meio planta, meio árvore. O sal da terra a partir da minha enxada capinando os dias, nem sempre bons, nem sempre férteis, vai de pouco em pouco levando à exaustão angústias, preocupações, as estagnações políticas, a bancarrota econômica, os declínios das mais variáveis bases. Um dia de cada vez, sem possibilidade de descansar no sétimo, e continuando após trezentos e sessenta e cinco deles. Sempre avante! Mesmo que nesses controvertidos tempos avançar tenha por delicadeza arejar as roupas do passado e quarar antigas esperanças, sem pretender nada mais que um cheiro de alfazema nos travesseiros que protegem os meus sonhos.

No quintal um jeitinho a mais sempre é possível, uma florzinha nova, um pássaro de primeiro canto, um espaço aproveitável à semeadura, uma erva, um tempero, os frutos que serão de dozes sabores e texturas, distribuídos nos nomes dos meses, cravados no gosto de cada estação… Lá fora o mundo gira, se contorce, perdido dos sentidos…

Por aqui vou deixando outras espécies de aspas abertas,  tudo que atenciosamente me tem sido ditado pela natureza. A certeza de que a possibilidade da colheita chega nos braços fortes do plantio. Para além disso, um horizonte mudo.

Então, foi 2015…

Querido Amigo,

Acabei de conferir o resultado da MegaSena! Aquela recauchutagem geral no Jeep; aquela pintura na casa; aquela construção da horta; aquelas dívidas todas quitadas; aquelas viagens para rever a família; aquele tempo para reencontrar os amigos; aquele vestibular de Direito para os fatos se reverterem em lições de latim… Só que não! Uma das sínteses de 2015 cabe bem na plenitude do conjunto desses sentimentos que se contradizem num único ato: “Só que não!”

Um ano difícil? Olha, difícil mesmo é essa insegurança projetada para os tempos que virão. E acredite, tempos virão! As incertezas vencidas no dia a dia são aspirações contabilizadas para quando for possível estabilizá-las. Aprendemos que a respiração deve ser mantida a um determinado compasso para impedir que tudo desande de vez. Este 2015 serviu para confirmar que a esperança é resiliência absoluta da alma quando esta se devota à superação. Não existe maior teimosia que as manifestações da alma, sejam nos atalhos da depressão sejam na repaginação da confiança. No primeiro caso engrossam os segredos das estatísticas de suicídio; na segunda alternativa ela se entope de frustrações, decepções, impossibilidades, e se mantém agarrada nas paredes da vida porque é um dia de cada vez e amanhã a nossa jangada estará abarrotada de pescado numa maré diferenciada.

Entendo que a cada ano fica mais fina a camada entre o teto que me cobre e as nuvens que suavizam os seus passos. Esta constatação tem duas medidas: a minha energia que sem a menor elasticidade se restringe às pequenas expressões de vitalidade paulatinamente diminuídas; e a exuberância incansável do tempo equalizando em lágrimas os encontros e as despedidas, alternando a saudade esculpida na memória com os pequenos seres que inauguram a modernidade de novas convivências. Uma ciranda interminável, que seguirá evolutivamente para além de cada um de nós. Se assim não fosse eu não estaria daqui escrevendo para você aí. Estamos cada vez mais próximos, quase “juntos e misturados”.

Vamos resumir o estado da arte desse alarmante, embora nada surpreendente, ano de 2015. Já tínhamos sinais que a economia e a política iriam para o buraco – ou abismo – numa bizarra capilaridade espraiada pelo poder: corrupção, incompetência, supremacia dos interesses privados em detrimento das necessidades públicas… Enfim, uma série incalculável de efeitos corrosivos interferindo na sobrevivência da população. Essas questões técnicas de governança caberá ao país alcançar uma Educação de nível para disponibilizar profissionais eficazes a serviço das funções que vierem a exercer. Ou que se esgotem as forças maléficas atuantes para que se estabeleça uma rota promissora. Mas o que realmente assusta neste contexto são as inclinações sociais que em larga escala se deterioram numa série de episódios facilmente diagnosticados: retrocesso civilizatório. A situação nos coloca frente à frente com a barbárie e não se trata de uma conclusão intuitiva ou reflexiva, simplesmente somos convencidos diariamente que as atitudes selvagens ditam regras coletivas. Certamente este foi um ano de muita, muita violência. Violentos ataques. Violentas defesas. Somos um país de seres acuados na sensação de impotência e as consequências deverão ocupar volumes inumeráveis de cunho sociológico na tentativa de compreender uma década que alcança neste ano o seu meio termo. Enquanto isto o medo, na ferocidade com que convulsiona os instintos, promove solitárias legiões infestadas de bandidos e de heróis, todos encurralados pela ausência do bom senso. Posso explicar muitos comportamentos absurdos, embora não consiga torná-los justificáveis enquanto efeitos na coletividade. Aprendi com o tempo, com os meus erros, com os meus equívocos, que não se pode considerar reação qualquer atitude afetada pelo sentimento daquilo com o qual não concordamos. Reagir de forma revolucionária talvez seja preservarmos a fidelidade aos nossos princípios, mantermos a serenidade e a fraternidade nos nossos corações.  Apesar de tudo, independente do medo e das incertezas que tentam engrossar a circulação do sangue no meu corpo, mantenho as minhas portas e janelas abertas; cuido, na medida do possível, para que as árvores tragam os frutos que serão distribuídos a quem os quiser; escolho as palavras que levem algum conforto meio a tantas desolações; desvio as minhas energias e as entrego aos santos para que eles cuidem de tudo que a minha ignorância guarda na prateleira do impossível. É só mais um ano vencido com alegrias e dificuldades na bagagem que levamos da vida. Chegar ao final é um alívio e uma medida de resistência que envaidece ter sobrevivido à coleção dos anos disponibilizados aos meus propósitos. Valeu! Sempre vale! O cansaço a gente esquece num piscar de olhos quando boas notícias chegam na umidade tão necessária aos nossos sorrisos, mesmo tímidos.

Pois é meu Amigo, pouco importa se neste Natal não será possível tantas luzes enfeitando as casas; pouco importa se ao redor da árvore serão minguados os presentes disponíveis; pouco importa se a fartura da mesa terá a medida da recessão no país… O que conta é  essa louca fagulha de esperança que inauguro todos os finais de ano quando concentro minha atenção e saudade na sua direção. O que conta é conseguir preservar a delicadeza do amor desejando que o bem se espalhe, se derramando com suavidade, transformando ou resguardando a serenidade capaz de converter o mundo num espaço melhor para esteio das realizações dos muitos que nos sucederão. É só mais um ano, tá vendo? Persiste a reinvenção da felicidade nos espaços possíveis das circunstâncias…

Até sempre!

Escreve que passa…

São ásperas as mãos… embora ainda escrevam. Por serem ásperas, definitivos os calos e o inchaço. As articulações dos dedos emperram de vez em quando. Tudo isto porque as palavras precisam ser lapidadas, ou então capturadas numa constante luta contra a renúncia, até conseguirem revelar novos sentidos por entre sentimentos adormecidos. Existem situações em que as mãos tremem e não conseguem reter as palavras que seguem indiferentes ao esforço de quem as procura. Corri todos os riscos na recusa de enluvar as mãos ao toque das palavras.

São embaçados os olhos… mas ainda enxergam. Por serem demais exigidos, lentes corretivas, graduadas ano a ano, confirmam que o olhar precisa de contínuos ajustes. Isto porque a visão de mundo intercala necessidades: às vezes manter a distância é prudente, outras vezes a proximidade é urgente. Para além disso as variações de ângulos em conformidade com as perspectivas multiplicam possibilidades. Assim é possível aprender que a dimensão da realidade ultrapassa tudo que se oferece aos olhos. E quem escreve é um eterno sobrevivente de periódicos naufrágios visionários.

É intrincado o cérebro, mas ainda consegue algum desempenho cognitivo. A depender da idade, que promove ou remove lembranças e pensamentos, a lógica associativa se realiza nas vezes em que a alma se rende ao silencio de um suspiro. O cérebro, do seu jeito insondável, acompanha a flacidez dos músculos, envelhecendo lentamente, espalhando pelo Impossível os obsoletos desejos, as improváveis expectativas, as presunçosas capacidades, a desgastada auto-imagem. Assim, e talvez somente assim, seja possível reinventar-se observando o presumível estilo que diz respeito a cada um. Aprendi tanto rindo e chorando com os meus reconhecidos enganos… Primeiro foram as incontáveis bolas de papel-amassado arremessadas nas lixeiras. Depois vieram arquivos inteiros deletados da máquina organizadora de vidas. Há muito tempo não uso apontador de lápis nem as tintas coloridas para as minhas canetas-tinteiro. Os dias nascem com tanta delicadeza, com tanto encantamento, que nem nos damos conta das coisas que mudam de lado e passam a existir na inutilidade. Será que mudam realmente de lado? Ou somos nós que ainda não identificamos em que lado estamos? Muitas expressões são modismos e desaparecem com a rapidez renovada da modernidade. Algumas expressões para permanecerem atemporais são alcançadas com muita dificuldade; outras, para envolverem os leitores a qualquer tempo, são ainda mais difíceis… E quem escreve é um eterno refém do paladar de quem o lê.

Que a eternidade perdoe todos os escritores! Eles apenas se publicam porque não sabem lidar com os próprios sentimentos. Suas dores, suas dimensões óticas, suas revelações… são transgressões insuportáveis do recolhimento que ao rasgarem o silencio das ideias se atiram no precipício crítico. E lá vão os textos suplicando a cumplicidade do leitor. E lá vão os textos implorando companhia, entendimento, afeto, até mesmo a misericórdia do reconhecimento.  E o escritor, para sempre e cada vez mais solitário, recolhe as migalhas que sobram do tempo e põe em cena versões e aversões de si mesmo.

A solidão me escreve…

Nas águas em que o tempo flutua…

 

 

 

Por coerência ao assunto o título deveria ser “O DETETIVE DO PASSADO E SUA VIAGEM ALÉM-MAR”, pois este é o livro que divulgo aqui com o sentimento de quem festeja o resultado de um trabalho que pude acompanhar desde o início, quando nem mesmo as ideias se alinhavavam no sentido de um projeto. Acompanhei o Autor às vezes de muito perto, outras vezes nem tanto, mas sempre reverenciei os progressos e as surpresas que o Autor compartilhava de tempos em tempos.

E agora, obra lançada ao mundo, eu fico na dúvida se eu gosto do livro ou se foi a admiração pelo Autor que se impregnou no meu sentimento com relação ao livro. Sem dúvida é o tipo de temática que a minha ignorância não valoriza na medida do que seria justo. Afinal, não entendo de Genealogia e deixei de perceber em profundidade uma série de inovações, sobretudo no que diz respeito à sistematização de dados, que especialistas poderão reconhecer e agregar valor ao meu entusiasmo genuíno. Mas eu gosto de histórias e o livro conta uma história – ou várias histórias – que me fez viajar na respiração de cada um dos personagens. Personagens que não surgiram da capacidade imaginativa do escritor, mas pessoas reais, inscritas no antepassado do Autor e que contribuíram para a Historia do Brasil. Impossível não reconhecer a seriedade da pesquisa e a tenacidade de quem se embrenhou em desafiar o esquecimento histórico.

O livro está aí para degustação dos interessados. Quem quiser adquiri-lo na versão impressa em pré-venda poderá entrar em contato com o Autor por e-mail (diderotcl@gmail.com). O livro também está disponível no formato eBook (livro digital) e pode ser obtido pelo site da Amazon (www.amazon.com.br) no link a seguir:

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Abaixo transcrevo as minhas impressões após a conclusão da leitura na sua versão final:

Buscar na arquitetura dos antepassados os fatos que iluminam as suas origens ao tempo em que desvendam a história da ocupação ao sul do Brasil, foi a aventura empreendida pelo Autor iniciada na necessidade de se conhecer um pouco mais.

Tudo começou com a simplicidade de reunir as fotografias que ocupavam espaço no fundo das gavetas em álbuns empoeirados. A um determinado momento as imagens e as datas que o Autor dispunha não bastavam para apascentar o seu interesse em examinar o fluxo do rio até o mais próximo da sua cristalina nascente. E o Rio Mampituba é personagem imponente que aproxima “catarinas” e “gaúchos”. Foi então que a pesquisa científica se impôs de forma dedicada – se não obsessiva – por uma década. A experiência adquirida nesse tempo, conforme relata o Autor, alcançou níveis inusitados que ultrapassaram as fronteiras geográficas influenciando a sua percepção da vida, com especial atenção à forma como se dá a interação do ser humano com o meio em que vive.

Trata-se de um livro libertário na medida em que rompe com as limitações geográficas que com alguma frequência influenciam determinados autores ao restringirem seus trabalhos a uma localidade específica, muito em função da fonte de subvenção a que se aplicam. Neste caso, todos os esforços – emocionais e financeiros – foram custeados pelo Autor e disponibilizados ao interesse dos estudiosos no aprofundamento do trabalho que, por natureza, nunca se esgota. Libertário porque também permitiu, ao longo da caminhada, enriquecer conhecimentos que possibilitaram ao Autor estudar mecanismos científicos que melhor se ajustaram à ordenação do vasto conteúdo obtido. Aprender para além dos princípios básicos de Genealogia e identificar dentre os programas tecnológicos existentes o mais adequado ao volume de informações existentes, são dois aspectos indicativos do empenho e determinação requeridos à realização.

Por tratar-se de uma busca investigativa dos familiares do Autor, pode sugerir que a importância do livro esteja limitada a um estreito círculo individual. No entanto, tal interpretação não se sustenta. Até neste ponto o livro é libertário, pois permite uma viagem histórica dos pioneiros portugueses que se fixaram às margens do Rio Mampituba, povoando e fazendo a História da região. Todas as informações, minuciosamente registradas com as respectivas fontes, permitiram atualizar de forma corretiva alguns equívocos históricos propalados até antes da pesquisa documentada pelo Autor. Fatos históricos ganham intensidade quando a narrativa se desprende do anonimato e passa a situar pessoas com nome, sobrenome e, sobretudo, quando realizamos que os protagonistas estão associados geneticamente a uma pessoa que se dedicou a resgatá-los do esquecimento que enfumaça todas as histórias.

Dentre as muitas qualidades do livro, não se pode omitir a forma instigante com que o leitor é desafiado a, minimamente, olhar para trás e se perguntar sobre os episódios históricos vivenciados por seus antepassados e que ficaram perdidos na velocidade exigente do tempo, ansioso por modernidades…

Lugar Nenhum

O nariz sangrava. Rosto, peito, pernas, braços, pés… Ele, inteiro, uma dolorida existência que por mais que indesejada, se impunha ao sentimento. O seu corpo um dicionário para todas as variantes de incomodo. Assim simples. Assim cruel. Lembrou, enquanto se apoiava nas pedras que muravam aquela arquitetura majestosa, que havia passado por um modesto café no quarteirão anterior. O frio ajudava a estancar o sangue. Estava andando desde o início da tarde, depois veio a noite e agora a madrugada. Apenas o tempo derretendo as horas, desmanchando a vida. Precisava de um café. Ao menos um café, já que banho e cama quente eram lembranças tão confusas quanto insistentes.

Tudo ia bem até começar a se configurar pelo avesso. Nada extraordinário se entendermos a realidade como algo de provisório sem validade determinada. Viver é apenas uma imposição das circunstâncias, não importa o grau de controle dedicado ao alcance de um objetivo. As estações mudam. O tempo escorre. As relações vão se tornando flácidas na mesma proporção em que as exigências se fortalecem. Um dia, além de não aceitar qualquer espécie de assédio moral, resolveu denunciar. Mexer com o poder faz muito mal à saúde… um nariz sangrando era a prova incontestável… Aceitou as consequências só porque a indignação ocupou todos os espaços, sobretudo aqueles onde o medo se confundia com prudência. Não sei se o nome disso é absoluta aceitação de si mesmo. Talvez seja menos digno e traduz-se na conclusão do “não ter mais nada a perder”.

Disse não. E naquela ocasião ignorava que a negativa iria varrer a sua vida para longe de tudo. Havia uma recusa, entre o heróico e o ridículo, de não se sujeitar a servir poderosas incompetências que apesar de criminosas descansavam no convencimento da impunidade. Processos corrompidos, editais fraudados, privilégios para afilhados, regalias para os partidários e, para alinhavo de tantas contravenções, a imposição, aos funcionários, de condutas desviantes. A decisão de não mais funcionar assim veio com a naturalidade de saber que não havia outro caminho se quisesse manter o respeito por si mesmo. E a cada ordem de como proceder, ele contra argumentava apontando os efeitos que tais ordens promoveriam e quais as normas administrativas que seriam infringidas. Não agradou em nada o poder. Sobretudo quando, servil, oferecia a alternativa de acatar os comandos desde que os superiores assinassem por ele o trabalho que não concordava em executar. Além de desagradável ele começava a ser identificado como conspirador. Passou a importunar tanto que um dia foi chamado ao Gabinete Supremo onde um dos asseclas o indagou sobre o fato de se recusar a cumprir ordens. Ele assentiu com um sorriso premonitório de que a sentença estava por ser decretada. O Secretário de Gabinete então se disse obrigado a rescindir o contrato. Permaneceu na empresa o tempo necessário para reunir seus poucos pertences pessoais que sobravam dentro de uma caixa de sapatos. Seu computador havia sido bloqueado no intervalo de tempo que ele precisou para sair do Gabinete Supremo e chegar à sua baia de trabalho. Ele ainda conseguiu, mesmo atordoado, avaliar que eles sabiam ser competentes, mesmo que na direção errada… Seus colegas de trabalho assistiram a tudo em silencio. Sabia quantos se alegravam por não tê-lo mais por perto, como se fosse possível afastar a consciência que ele simbolizava com muito peso; também sabia que alguns sentiam o desconforto da injustiça com relação àquela demissão, mas tinham família e outras alegações para preservarem o emprego; deixava para trás aqueles outros colegas que reprovavam com algum desprezo a atitude dele em ir contra os plantonistas do poder. Existe gente para tudo e ele era apenas um tudo que cabe em ser gente…

O seu contrato não previa qualquer tipo de indenização, mas como era sozinho e nutria aversão por compensações consumistas, conseguiu reservar boa quantidade de dinheiro que o habilitava a viver por um ano, caso nenhum incidente se interpusesse no curso e discurso de sua vida. No primeiro mês, desempregado se dedicou a analisar o mercado e a distribuir currículo para conhecidos e poucos desconhecidos. No segundo mês, o critério seletivo não comportava tantas exigências. Do terceiro ao sétimo meses, valia qualquer trabalho, do intelectual ao braçal, desde que garantisse a sua sobrevivência. O diferencial da sua qualificação (ou desqualificação) era aquela tendência que sempre o perseguiu de ser um especialista das generalidades e, neste caso, saber um pouco de quase tudo lhe era muito lúdico, mas nada funcional. Se divertia tirando conclusões próprias sobre determinados assuntos e não dava importância quando apontavam que as suas descobertas já eram, na grande maioria, de domínio público e patenteadas por esse ou aquele autor.  Foi no oitavo mês que ele se deu conta que um país economicamente destroçado sangra em duas partes: a primeira, evidencia o êxodo imediato dos mais abastados que reorganizam as suas vidas em terras de idioma estrangeiro; e, a segunda parte, a mais visceral, é quando a desesperança passa a ser cardápio único da grande maioria dos que permanecem quando as oportunidades desaparecem…

Levou algumas semanas acompanhando os noticiários. Percebeu com muita clareza que o desespero percorre dois caminhos socialmente bem definidos: ou a depressão profunda ou a violência progressiva. O desespero coletivo é inevitável todas as vezes em que não é mais possível disfarçar a falha na cadeia dos escalões do poder. E a pior crise nunca é as que estão relatadas nos muitos estudos analíticos, sejam econômicos, políticos ou sociais. A pior crise é aquela que cada um vivencia a sua maneira e na medida das suas privações e temores. Foram semanas de alta intoxicação com manchetes apontando a falência dos aparelhos públicos e a assustadora recessão devorando salários e empregos. Começou a se deter nas notícias de acidentes suspeitos. Aqueles em que grades de proteção se desprendem e pessoas despencam de andares elevados; ou atropelamentos em que os motoristas insistem em afirmar que “do nada” surgiu aquela pessoa na frente do seu carro; ou aqueles tombos fatais e inexplicáveis em que pessoas se veem caídas nos trilhos minutos antes dos trens chegarem nas estações quase vazias de passageiros. Acidentes com tintas de suicídio ganhavam espaço no crescente índice de mortes que se acumulavam num período curto de tempo. A faixa etária dessas pessoas estava compreendida num intervalo de quarenta a sessenta anos, um pouco menos, um pouco mais. Aprofundando outras características, verificou que os “acidentados” estavam afastados do trabalho por aposentadoria, invalidez ou demissão, e que até bem antes dos acidentes eram eles quem sustentavam suas famílias… Um outro fascículo do caos foi constatar a frequência ascendente de crimes praticados por jovens adolescentes. Muitas vidas interrompidas no susto de uma pedalada, num ônibus menos lotado, num ganho de cem reais, num tênis usado… vidas tão baratinhas quando comparadas à inveja ou à necessidade de sustentar vícios… A violência quando interage com o DNA da miséria explode numa irreconhecível humanidade. O levantamento de informações traçou alguns perfis tão assustadores quanto reais: jovens expulsos das salas de aula ou mesmo que as tenham abandonado por interesses outros; pais – ou apenas mãe – trabalhando o dia inteiro sem tempo de cuidar dos filhos que se fazem órfãos na sobrevivência e expatriados da moral; a grande maioria recrutada pelos xerifes do tráfego; pai/mãe que de um dia para o outro recrudesceram na intolerância, na impaciência, e despejam nos filhos suas frustrações, suas amarguras, com os carnês de crediários exigindo pagamentos que nunca se concretizam; adolescentes que empoderados pela menor idade debocham das leis e menosprezam qualquer figura de autoridade. Tudo isso alimentado pela incompetência e ganância de poucos que manipulam o público submetendo-o a seus interesses privados. Governabilidade é um bastão que se reveza de escândalo em escândalo na sucessão do poder.

Foi no nono mês, que, desempregado e desesperançado, revirando seus pertences, encontrou o seu passaporte. Assim válido. Assim convidativo. Assim aventureiro. Pagou à vista e com grande desconto a passagem para Paris. O raciocínio foi simples: se era inviável viver no país onde nasceu, preferiu perder aqueles conceitos utópicos de dignidade – que só existem nas cartografias humanistas financiadas para a pacificação coletiva -  em terra distante. Se for para morrer que seja em Paris, com um nariz sangrando, sem lar, sem sonhos, desejando um café presumível na distância de um quarteirão…

Não quero falar com Deus

Guimarães Rosa sugeriu a Deus que se ele quisesse aparecer por aqui, que viesse armado. Clarice Lispector já aconselhou que ele chegasse desarmado. Tenho cá para mim que Deus nunca deveria dar as caras no planeta. Por que nem ele iria acreditar no que anda acontecendo.

Se Deus insistir e desconfiar de conselhos gratuitos, nem pense em se instalar em qualquer favela, a menos que queira colecionar balas perdidas. Corre o risco de se envolver, em lá estando, com aquele exército que não usa uniforme e que disputa espaço com aquele outro exército uniformizado. De um lado se recrutam crianças que carregam na mão esquerda uma pipa e na direita uma arma de peso e ofensiva bélica maior que o físico suporta. Do outro lado, quem for pego, culpado ou inocente, se escapar da morte em pouco tempo está de volta às fileiras dos sem uniforme. A falha deve estar nessa tal de humanidade e que me esclareçam o que significa “direitos humanos”…

Pode até morar em edifícios ou condomínios de luxo. Mas cuidado quando sair ou entrar de carro, tem uma porção de gente querendo fazer distribuição de renda se apropriando dos bens dos que trabalham honestamente. Não dá para considerar, ainda, que os praticantes de furto ou latrocínio sejam inscritos em qualquer categoria profissional reconhecida. Ainda não, mas não há quem possa duvidar que daqui a pouco o governo invista nesse contingente para engrossar a arrecadação de impostos.

Se quiser se deslocar de bicicleta não esqueça a armadura. Se for caminhando, “perdeu” seja lá o que tiver. Pegar ônibus não vai prestar, corre o risco de ser assaltado (desde a tarifa cobrada) e ter que voltar a pé exposto a perder o que sobrou: a vida. Poderia sugerir os deslocamentos aéreos mas já se está atirando aviões em belos cenários de difícil acesso. Faltou o trem. Faltou mesmo, ou enguiçou em qualquer ponto, ou foi depredado pela revolta dos que esperam e nunca o alcançam. Automóvel? Mas quem vai conseguir pagar o combustível?

Nem pense em ficar doente! Mas também não me pergunte como é que se faz para se ter uma alimentação balanceada com o preço da cesta básica que mal dá para a semana da família. Vai lá naquela padaria sem nome e pede aquele salgadinho encharcado de gordura com direito a um refresco do dia: é tanta gordura que vai se sentir alimentado o dia inteiro. Também pode recorrer às bebidas alcoólicas batizadas com metanol que em doses módicas vão lhe prover de energia do café da manhã ao jantar, que não acontecem. Mas se todas as artimanhas falharem e a saúde for para a cucuia, lhe desejo boa sorte! Precisa mesmo ser uma espécie qualquer de divindade para se arrastar até um Hospital ou até qualquer Unidade de Pronto Atendimento e esperar mais de doze horas por um atendimento que nem Você sabe se vai acontecer. Pois é, se cuide porque saúde perdida não vai ser encontrada nesses tantos aparelhos oficiais de saúde com sotaque caribenho.

E te digo mais: se escolher vir como professor vai ter muita dor de cabeça. E não me refiro àquelas dos confrontos com a polícia nas inúmeras manifestações por salário e condições de trabalho. É que professor hoje em dia além de transmitir conhecimento tem que educar as crianças porque os pais andam muito ausentes tentando ganhar o “pão” de cada dia. Sobrou para o “tio” ou para a “tia” transmitir valores que nem sempre se afinam com os exemplos que os pais oferecem aos filhos.

Não quero influenciar na sua decisão, mas do jeito que a coisa anda ser ateu é quase uma distinta referência de qualidade humana. Em seu nome as barbaridades são cometidas com requintes tais que superam todo o histórico que as religiões promoveram até bem poucos séculos atrás. Não sobrou nenhuma reserva daquele “amor” que todas as doutrinas evocam. Cá entre nós, muitas coisas inadmissíveis são justificadas em seu nome… Isto sem falar no incompreensível “Deus ajuda” que é a expressão absoluta da incapacidade de resolver os próprios problemas, delegando aos poderes tidos supremos a resolução para tudo que a falência da auto-estima já não pode mais administrar.

Portanto, recomendo não aparecer por aqui. Mas se vier, lembre-se que precisamos de imagem e semelhança…

A conta, por favor

- A gasolina já aumentou?

- Não, somente às 18h de hoje.

- Enche o tanque até a indicação da bomba, por favor.

Por favor, aqui, é a fronteira entre alguém que não tem nada com isso e a indignação de outro alguém por ter que pagar aumentos, aumentos, aumentos. A expressão dos outros motoristas que entraram no posto de gasolina era a mesma daqueles que enfrentam as caixas registradoras dos supermercados. Um suspiro calculando por alto os gastos acumulados no cartão de crédito. Um segundo suspiro para os desatinos que podem ser mensurados pelos impostos que crescem, pelas alíquotas estabelecidas contra nós, pela batata que desbancou o valor estratosférico do tomate de algum tempo atrás. Às vezes o cansaço toma conta e tenho que me controlar para não me reconhecer agindo igual aos que faço oposição.

O rei está nu. E nenhuma camada de tinta pode tornar palatável tudo que vem a reboque do caos político em que estamos mergulhados. E de um mandato a outro – o mesmo – a angústia passa a ser o cardápio de todos os dias. Perdemos para a corrupção. Perdemos quase tudo para uma ideologia partidária. Perdemos para os exemplos comuns, longe de serem dignificantes. Convivemos com as balas perdidas, com as crianças armadas, com o sem limite em querer tirar vantagem de tudo.  A insatisfação é uma unanimidade corrosiva infiltrada nas expressões extremas das barbáries com as quais convivemos. Votar parece não ser mais capaz de nos levar à redenção. O ar asfixiante se alastra e o medo é a máxima norteadora do limite estreito que nos leva a matar ou a morrer. Perdemos a dignidade, perdemos o orgulho. “Sou brasileiro, com muito orgulho” é um refrão estagnado numa história de retrocessos.

Esqueçam a panfletagem mentirosa alimentada por décadas a fio. Nós não somos um povo alegre. Não somos um povo pacato. Não somos um povo tolerante. Não somos um povo “boa gente”. Estamos por aí, despejando nossa crueldade nas filas de ônibus, no desrespeito aos idosos, nas críticas a todos que não pensam como a gente, no bullying àqueles que fisicamente desprezamos, na arrogância intelectual enlameada de ironia com relação aos outros. Somos selvagens e enquanto não aceitarmos este fato, a nossa indignação continuará sendo uma hipocrisia realimentada pela demagogia tacanha que sobrou para as nossas vidas.

A indignação não é um sentimento que surge quando nos debruçamos na janela e observamos a vida alheia. Ao menos não deveria ser assim. Se sinta indignado para nunca estacionar em local proibido. Se sinta indignado o suficiente para ceder lugar no ônibus a quem mais precisa viajar sentado. Se sinta indignado recusando se hospedar nos hotéis que cobram diárias elevadas, mas não se aplique a qualquer tipo de compensação levando para casa uma toalha, um talher, seja lá o que for que não lhe pertence. Se sinta indignado com a violência do trânsito, então dê passagem àqueles arriscadamente apressados, cujos motivos você desconhece. O mundo é uma ameaça tecida nas vantagens que queremos com relação a tudo e a todos. As boas maneiras, daquelas bem simples, que não elevam o tom de voz e se dedicam à gentileza, preferencialmente praticadas junto a estranhos, é a indignação mais revolucionária. As transformações que promovem esse tipo de indignação só conhecem os capazes de exercitá-la.

Sim, eu sei. Você foi procurar atendimento médico no posto de saúde e depois de cinco horas esperando vieram te dizer que o especialista havia faltado. Você foi esclarecer seu ponto de vista com aquela pessoa e teve que ouvir um monte de desaforos sem a menor chance de ser ouvida. Você agendou a vistoria do carro e a retirada do passaporte, mas os serviços públicos estão em greve. Você não sabe o valor exato dos bilhões que foram roubados da PETROBRÁS, mas a gasolina aumentou aqui enquanto no resto do mundo os preços despencam. Você ficou se sentindo um idiota esperando na plataforma o trem que nunca chegaria porque houve um “apagão” na cidade. Eu sei disso tudo. Só quero deixar claro que não é depredando o patrimônio público (ou privado), ou partindo para uma luta corporal, que a nossa realidade irá se transformar. Enquanto cidadãos as opções ainda existem para reivindicarmos nossos direitos. Sim, sei que os caminhos legítimos são morosos e a civilidade anda sempre numa corda-bamba, confrontada com a nossa reduzida tolerância. Mas o momento requer muita reflexão para que nossos atos não se igualem aos dos que nos causam repúdio.

Está difícil. Na beira do insuportável. Admito. Questões de subsistência estão em jogo. A instabilidade entrou na nossa corrente sanguínea. A respiração está curta e cheia de sobressaltos diários. É este o momento de nos posicionarmos.

Se não quisermos muito do que está aí e que nos foi imposto (perdão pelo trocadilho), precisamos serenidade e convicção de princípios para nos distinguirmos de tudo que reprovamos. Fora isso, seremos cúmplices das atrocidades e sem direito à indignação, pois teremos aceitado e estaremos agindo da mesma forma.

Nem sabia que era meu aquele dia

Eu tinha tudo praticamente acertado: acordaria; tomaria um banho; escovaria os dentes somente após a dose matinal de café preto; colocaria as roupas, quase esportivas, separadas na noite anterior e daria especial atenção ao calçar os sapatos de mocassim novos. Foram comprados na liquidação de uma loja prestes a ser liquidada naquele ano quando a inflação alcançou índices possíveis aos contos de bruxa má. Ano difícil. Cheio de apelos para as coisas baratas de qualidade duvidosa. Incluindo a vida de todos. Ou pelo menos a vida de uma enorme maioria.

Mas o que havia sido programado não aconteceu em conformidade ao imaginado. Talvez este tenha sido o meu erro: não ter colocado no papel o que a imaginação enquadrava, ajeitava, retocava. Palavras escritas são procurações com plenos direitos a reger nossas vidas. Não coloquei no papel o roteiro e aí as circunstâncias embaralharam tudo. Mas continuei com as roupas esportivas e mocassim novos. E o meu figurino não tinha nada a ver com o filme do dia.

No planejamento inicial seria um dia ensolarado. Choveu. O carro popular, comprado em 60 parcelas – nem todas pagas – que rastrearia a minha aventura, não estava onde eu o havia estacionado após encher o tanque. Boletim de Ocorrência e tantas horas perdidas. A minha indignação seguia num crescente: tanto pelo carro roubado quanto pela indiferença dos policiais que escrituravam o furto com olhares e movimentos flácidos de corpo que me colocavam como responsável pela perda de tempo deles e minha. A essa altura do campeonato seu carro já deve ser um monte de peças esquartejadas, irreconhecíveis no que era sua propriedade. Peguei o celular, mas não há o que ser feito (salvo esbravejar) quando a operadora recusa a fornecer o sinal, aquele barulhinho que parece ser o mesmo desde a invenção da maquineta e que nos permite acessar os outros à distância, ou aquele barulhinho pelo qual você paga mensalmente uma fatura que lhe permite avaliar financeiramente o quanto você é um ser comunicativo.  Não sei por que me lembrei daquele slogan antigo do governo: Brasil, país do futuro. Sabe qual é? Que imaginação podre daquela turma já que a atualidade do país é o futuro que eles (des)construíram para o aqui e agora. Propaganda enganosa de governo é um dos crimes hediondos que escapam do abraço da Justiça. Mas a Justiça além de cega com certeza sofre mutilações contínuas a cada impunidade das muitas que circulam nos corredores palacianos. Sem celular operante, não podia avisar Mariana. Você já viu que está chovendo? Pois é, roubaram o meu carro, não sei se antes ou durante a chuva.

Sem contato telefônico, seja com Mariana seja com o mundo, me sentia mais desamparado que nunca. Colocado numa outra cena, interpretando a sequencia dos fatos sem nenhum ensaio, sem nenhum texto decorado. O mocassim barato, muito provavelmente não suportaria a quantidade da chuva, cada vez mais intensa.  Enchente na cidade. Eu saturado da vida que se improvisava. Mariana sempre me acalmou. Não que eu fosse dado a ataques de fúria e rompantes violentos. Nada disso. Mariana sempre me acalmava das angústias frequentes que me impediam qualquer manifestação de simpatia e bom humor na direção do mundo. Sem Mariana, sem condições de recuperar o que havia sido combinado para aquele dia, me restavam as roupas esportivas e o mocassim sem prazo de validade garantido. Fazer o quê?

Foram três horas de delegacia. Três horas de chuva. Três horas de celular inoperante. A manhã já evoluíra e o início da tarde não se fazia de rogado sob o céu cinzento, o mesmo desde o amanhecer. Saí da delegacia e fui tomar café num botequim tão sujo que mais parecia uma extensão da delegacia. Daqueles “puxadinhos” que guardam todas as características esteticamente comprometidas do prédio principal. O que eu queria mesmo era fugir, ao menos da chuva, já que fugir daquele dia me era de todo impossível dado ao nível de exigências e urgências que me consumiam. Entrei no botequim e a água da chuva mantinha uma relação indesejável com os meus sapatos e, principalmente, uma intimidade sem limites com os meus pés. Eu fazia qualquer movimento com os pés e um som estranho – sapatos encharcados – denunciava o quanto o meu dia e os meus pés estavam naufragados. Espantei as moscas e tomei o café que para a minha surpresa tinha gosto bom, de recém-coado. Se estivesse um pouco mais forte – o café, não eu – teria me tornado um freguês do tipo contumaz daquele botequim pé sujo. Os meus pés também, bem entendido.

Depois de três cafés concluí que ficar ali esperando a chuva passar poderia significar perder por completo o que me sobrava daquele dia. Como já estava bem molhado e com os sapatos destruídos, resolvi que voltar para casa o quanto antes era a decisão mais sensata para evitar um resfriado. Era só atravessar a rua e pegar o ônibus que me deixaria em frente a minha casa. Era tomar um banho quente, uma dose de conhaque, jogar o mocassim no lixo, fazer contato com Mariana, e ficar grudado na frente da televisão sem pensar mais naquela confusão toda.

Claro! Tinha que aparecer aquele carro desgovernado para atrapalhar tudo. Quando dei por mim, estava estirado no asfalto molhado, sentindo um frio estranho, sem entender direito aquela roda de pessoas debruçadas sobre mim com os olhos esbugalhados e gritando possibilidades sobre as minhas condições físicas que ora me sentenciavam à morte e ora garantiam que eu iria sobreviver. Um cansaço enorme foi tomando o meu corpo. Não sabia se era eu desistindo de alcançar qualquer outra ideia para ocupar aquele dia, ou se era a vida que desistia de mim, se afastando e me deixando um cansaço que impedia que eu mantivesse meus olhos abertos. Quando a ambulância chegou com aquela estridência toda na minha direção, ferindo avassaladoramente a discrição que por princípio norteei a minha existência, entendi que era absoluta a minha impossibilidade de interferir nos acontecimentos. Sem vontades, sem desejos, sem expectativas nem perspectivas, assistia a vida fazendo de mim o que bem entendesse. Nenhuma resistência de minha parte.

Antes de desmaiar – ou morrer – olhei para o lado e o Boletim de Ocorrência se libertara do meu bolso e se afastava seguindo o fluxo da correnteza formada no asfalto. O celular acreditem vocês, tocou. Alguém o arrancou de mim com alguma violência. Fiquei sem saber se eu era vítima de um novo furto ou se a atitude era para informar o acidente a quem me procurava. São tão imprevisíveis as reações humanas. Mas sobre o imponderável e seus derivados não precisava mais perder meu tempo tentando entende-los. Eu fui assim…

E o tempo levou…

Meu nome é Joaquim. Carrego a minha idade, mas também sei me deixar carregar por ela. Moro numa casa enorme, cravada numa floresta que a urbanização teve a piedade de manter quase intacta. Comigo moram muitos outros. De comum apenas o fato de termos, mais ou menos, a mesma idade. Converso pouco com todos eles porque observá-los me diverte, me entristece. Me esgota. Quando vim para este asilo, ou albergue, ou hospício, ou abrigo, ou retiro (pelas minhas contas já se passaram quinze anos), ainda me era permitido sair e entrar com alguma independência. Atualmente só saio daqui nas vezes que leio os jornais. De certa maneira os jornais me levam para bem longe: passeio por outros países que ficam muito mais distantes que aquela pracinha na qual costumava passar as tardes nos dias que saia daqui. As minhas restrições físicas, ou melhor, geográficas, aconteceram com moderação, no arrastar de passos, cada vez mais vacilantes, da minha memória. Em nome da prudência meus guardiões impediram que eu transpusesse os muros. Para que mantivessem uma boa imagem/relação comigo, permitiram a minha saída desde que acompanhado por um familiar. Mas aos poucos a minha família foi esquecendo a minha existência e eu lhes fiz o favor de igualmente esquecê-la. Não me dei ao trabalho de contestar junto aos meus guardiões que o que para eles significava prudência, não passava de comodidade porque me queriam quietinho sem lhes dar trabalho, ou muito trabalho. Aceitei ser contido porque onde moro posso andar, andar, andar até ser alcançado pelo cansaço. Exercito-me com alguma constância percorrendo as alamedas e pátios do lugar onde moro. Meus olhos, ao tempo que alcançam o céu, também se interessam pelas variações de flores e frutos que as estações trazem, enfeitando os ciclos da minha natureza.

Os dias chuvosos são mais penosos. Têm gosto de antibiótico. Nós, velhos, somos propensos a vários tipos de infecção, chegamos mesmo, tempos atrás, a fazer um bolão tentando acertar qual de nós faria uso mais sistemático de antibióticos num intervalo de seis meses. Muitos não viveram para pegar a recompensa. Velhice cheira a farmácia antiga, daquelas de manipulação. Preso no acanhado do meu quarto, olhando a chuva pela janela e querendo que durasse o suficiente para satisfazer a vegetação, esse gosto de antibiótico sempre foi a minha companhia nesses momentos. O meu quarto é pequeno. Mantém proporcional correspondência com a minha vida. Cabe uma cama estreita, uma cômoda com três gavetões e uma mesa quadrada assistida pela solidão de uma única cadeira. Os meus pertences não causam inveja a ninguém: duas calças de brim que se revezam na lavanderia, quatro camisas de tergal que dispensam o ferro de passar, uma sandália de dedo e um par de sapatos que não precisam de cadarços. Para os dias mais quentes uma bermuda, igualmente de brim, e uma camiseta branca que no meu tempo era conhecida como camisa de português. Dois casacos para a friagem que é sempre mais aguda na velhice. Preciso dizer que quando vim para cá eu só precisava de dois pijamas, mas com o tempo e as incontinências fisiológicas decorrentes, adquiri mais cinco pijamas para a eventualidade de qualquer agravamento das especificidades clínicas. Diferente de muitos dos meus companheiros de clausura, me recuso a sair do quarto com vestimentas de dormir. Manter velhos hábitos, mesmo que desprovidos da importância que tinham, é a estratégia que encontrei para impedir aproximação com a senilidade. Um rádio tão antigo quanto o relógio de pulso que me acompanha desde antes da invenção dos relógios a bateria, são os bens mais valiosos que achei por bem preservar. Fora isso, alguns cadernos pautados preenchidos a lápis que eram febrilmente completados quando cheguei aqui, mas agora estão abandonados porque a vontade ficou melancolicamente esquecida.

Hoje completo os meus oitenta e seis anos. A moça da secretaria me acenou com um sorriso diferente quando fui dar a minha caminhada diária. Foi quando tive a confirmação, silenciosa, que é o meu aniversário. Ganhei de presente um dia lindo: um céu azul, uma aragem que carinhosamente me abraçou a cada passo, e até um sabiá me fez um cumprimento nervoso escondido nos galhos do abacateiro. Se não estiver enganado hoje é quarta-feira, então no cardápio principal teremos frango assado com legumes. Tudo quase sem sal. Minha vida.

A sineta toca. Todos caminham em silencio, passos arrastados, na direção do edifício principal. Uma grande mesa é ocupada por todos os meus companheiros. Somos todos hóspedes do nosso próprio exílio. Nossa solidão é mato alto. Terra abandonada.

Meu filho, depois de sete anos sem me visitar, ou talvez oito, – já não me recordo ao certo – o reconheço parado na porta do salão, passando em revista todos os ocupantes do refeitório. Discretamente o observo. As rugas começam a ocupar o seu rosto. Quando as espinhas foram substituídas por aquelas rugas? Não faço nenhum gesto para chamar a sua atenção. Tenho certeza que ele ficará uma eternidade parado ali, tentando me encontrar. Mas sou um outro qualquer, completamente diferente do pai que ele procura naquela minha última ceia.

Palavras de acontecer os dias

Marcela não se perguntava desde quando havia adquirido aquele hábito. Não prestava atenção quando a indelicadeza de todos insistia para extrair dela informações pela quais as medidas de tempo, frequência e motivações poderiam ser desvendadas. Não, não. Coisas sem mistérios não tinham nenhum interesse, assim como considerava de absoluta inconveniência invadir retraimentos ferindo-os com uma série de cinzentas explicações ou magoando-os com um conjunto de pálidas possibilidades. Acreditava que cada coisa repousava na simplicidade e este direito deveria ser obrigatório à condição de existir. Entregava-se com leveza às pequenas porções de vida servidas nas doses absorvidas a cada dia. Evitava, com fervor, insurgir-se contra a simplicidade, pois intuía que se assim o fizesse teria por convívio a angústia e a ansiedade. Diga-me qual a direção que escolheste e eu te direi das pedras eleitas no teu caminho.

A singularidade de Marcela se confirmava a cada manhã. Bastava ela acordar para que a singeleza da sua existência acontecesse: a primeira palavra que lhe viesse ao pensamento passava a ser o guia norteador do seu dia.  Não se pode omitir que houve uma época que Marcela tentou influenciar a primeira palavra do dia: antes de deitar folheava o dicionário pesquisando termos pouco usuais pretendendo fazer com que permanecessem submissos à luz do sol. De nada adiantou a estratégia, salvo um enriquecimento da linguagem sem qualquer serventia extraordinária. Sobretudo para quem as explicações não tinham projeção no curso da vida. As palavras se manifestavam a partir de uma lógica pouco evidente que não seduzia a curiosidade investigativa de Marcela, mas que atiçava indiscriminadamente todos que conheciam a aplicabilidade ritualística empregada. Marcela até se arrependeu de não ter guardado para si aquela rotina, mas ao longo do tempo o interesse alheio foi sendo dissipado frente à acirrada postura evasiva de Marcela.

Os dias de Marcela eram reverenciados pela própria como uma sublime extensão da palavra que identificava e centralizava cada um deles. Mas para além dela, o conjunto de dias que se revezavam em meses e anos, não aguçava nenhum observador a considerá-lo extraordinário. Nem todos os dias eram amenos. Nem todos os dias eram assustadores. Dias ordinários para qualquer pessoa que quisesse revisitar sua biografia. Enfim, a vida de Marcela não tinha nada de interessante que pudesse instigar qualquer popularidade. Somente ela se deliciava com os dias possuídos nas suas palavra-do-dia. Havia alguns bordões, como naquela vez que por semanas as primeiras palavras sempre insistiam em terminar com ade. Os dias foram tracejados por acontecimentos do tipo Saudade, Vontade, Felicidade, Atividade, Maldade, Verdade, Casualidade.  Se as palavras rimaram por uma semana inteirinha, certamente foram dias desbaratados, sem muita afinidade. Mas o que importava para Marcela não era concluir se o dia havia sido bom ou ruim, mas perceber em cada acontecimento a sociedade entre a palavra e os fatos trazidos no transcurso de vinte e quatro horas. Foram significativas as ocorrências do dia intitulado Encontro: recebeu até mesmo carta de outro país, sem falar na amiga que não via desde a infância e que sem aviso prévio lhe chamou pelo nome e sobrenome em plena avenida central. Em se tratando de outra natureza qualquer, menos coincidência, os dias trazidos por palavras que por si só fazem o corpo da gente recuar – como nas vezes em que um surdo inicia um repique solene – Marcela compulsivamente tinha acesso aos jornais e aos noticiários televisivos. Eram os dias consagrados ao Desamor, Violência, Intolerância, Perplexidade, Humano, termos de uma sucessão de palavras-fatos, no mínimo, retumbantes. Mas Marcela passava por tudo isso convencida que todos os atos criminosos são consequências da perda de simplicidade. Os dias desajustados, desalinhados, impulsivos, sombrios, só se estabelecem quando a simplicidade perde a transparência. O ódio, o ciúme, a inveja, a paixão, são sofisticados processos imaginativos, capazes de trazer para o plano do real as barbáries de proporções inimagináveis.

Quando Marcela faleceu, sobre a mesinha de cabeceira os parentes encontraram várias cadernetas, em cada uma o mesmo sequencial de anotações. Uma série de palavras, cada uma referendada ao seu dia, mês e ano. Muitos se surpreenderam pela constatação de que Marcela nunca havia abandonado aquele procedimento, ou aquela maneira de levar a vida. Na estante uma quantidade grande de outras tantas cadernetas que obedeciam ao mesmo padrão de registro, catalogadas por ano. No último dia de vida de Marcela, nenhum fato foi capaz de prenunciar o desfecho: cumpriu a rotina que iniciava no trabalho e terminava nas aulas da faculdade de engenharia. Foi ao se recolher para mais uma noite de sono que um ataque cardíaco fulminante assediou a família de Marcela. Pode existir maior naturalidade em interromper uma vida com o emudecimento das batidas do coração? Marcela se retirou com a mesma simplicidade que regulou toda a sua existência.

Escriturado ao lado da última data preenchida na caderneta de Marcela, quebrando toda a harmonia de base da sua própria vida, não existia ali uma palavra, mas uma frase curta, sem nenhum desperdício de sentido. Uma frase que, segundo os plantonistas inventariantes de alma, sintetizava o entendimento e a conduta exercida por Marcela a respeito do sentido da vida por ela desfrutada.

E você? Qual a frase síntese da sua própria vida?