Só nos resta viver…

 

É brisa a divertir todas as estações dos meus dias.
Assovia canções que conheço e melodias por descobrir.

 

É um inteiro que ofereço, e nele cabe tudo que desconheço.

 

É o que não sei definir, não sei expressar, um presumir sem medida
que se reinventa imenso dentro do coração que o sustenta.

 

É tudo que se faz perto, ignorando distância:
um sorriso, um gesto, uma expressão do olhar.
Leveza e certa alegria pulsando o cabaré do existir.
Um vício que a imaginação protege em doce fantasia
e que de tão intenso, dispara o peito e se recolhe em silencio.

 

É dor que se alastra no medo
porque assim grande, assim bonito, assim sentido,
para além da realidade, é no meu ser o seu abrigo.

 

É intensidade devorando este provisório presente.
É o futuro trágico lentamente quebrando o mágico.
Sei que é amor porque em si repousa o que é eterno.
Sei que é outro nome da vida que caminha o seu fim.
 
Kelly Vieira
(autora e colaboradora deste Blog)

A Viagem de Existirmos

São tantos os medos e bem sei que maiores ainda os desafios para tentar superá-los. Medos que na alma dos dramáticos ganham volume. Eles ocupam espaços e se contrapõem por mais determinadas que sejam as intenções dos passos. Medos que deixam de perceber as oportunidades, sobretudo aquelas que se aproximam do carinho. Contra o medo, a sorte grande do afeto se impor como uma suave armadilha.

Foi numa dessas viagens encantadas em que o desejo se estabelece como destino, que encontrei uma mulher, dessas de espírito largo cuja existência exala os melhores perfumes. Ela me acolheu sem levar em conta nosso pouco tempo de convivência – pessoas que têm sede de amar não levam em consideração o que para muitos significa prudência -, me abriu a sua casa, me apresentou aos seus filhos, e me deu o que comer. Alimentou o meu corpo e hospedou a minha alma por inteiro, com as inseguranças e receios que carrego nesta minha vida.

Com muita naturalidade coloquei em suas mãos as minhas amarguras: “Não sei viver desta maneira”. Ela me rodeou, me olhou com suavidade, confirmou em silencio a capacidade que eu desconheço em mim, e com muita simplicidade me tirou alguns véus: “Diego e Maria nunca abandonaram você. E que sorte nenhum dos dois terem desistido de você. Seja gentil e deixe que eles se expressem porque não há zona de conforto que possa se manter quando a nossa individualidade se sente reprimida. Viva a autenticidade de ser por inteiro as muitas partes de tudo que somos. Não tenha medo de ser feliz”. Foi assim que eu percebi que o meu medo era proporcional à intensidade com que eu me agarrava aos antigos hábitos por julgá-los irreversíveis simplesmente porque minuciosamente me preparei para nunca abandoná-los. Os meus medos perderam intensidade na medida em que eu passei a reconhecer que o meu apego ao passado me impedia de existir para tudo que à minha volta reclamava uma oportunidade para acontecer. E acontecer é mesmo a única possibilidade de celebrar a vida.

Hoje eu me lembrei dessa viagem e novamente trouxe para perto de mim aquela mulher. Foi com ela a leveza de dizer “eu te amo” sentindo em nós a criança cheia de curiosidade encantada nos braços da novidade. Foi para ela que ao dizer “eu te amo” me despi das mentiras, me libertei dos próprios boicotes e atirei para longe as amarguras do passado. Toda a liberdade de entrega quando nuas, duas almas se encontram e percebem que há muito se procuravam. Acho que gratidão é o que se sente todas as vezes que alguém nos convence de que podemos perseverar na realização dos nossos sonhos, dos nossos desejos. Foi a gratidão que me incentivou a escrever; é a gratidão que um dia me fará abraçar a minha mãe inaugurando uma relação mais libertadora; será por gratidão tudo que alcançarei a partir dessa minha enorme vontade de ser, mesmo não sabendo exatamente o quê.

É um conforto ter certeza que essa mulher sabe do amor que sinto por ela, que transborda no meu carinho e se espalha na minha generosidade. Escrevo agora, antes do tempo futuro, a importância de ser você a minha inestimável amiga.  E se algum dia o medo chegar perto, lhe devolvo o que você me ajudou a descobrir: o medo é o seu melhor amigo, pois é com ele que você convive e vive a grandeza de saborear a sua existência. Ele é o termômetro da realidade.

Obrigada por você existir em mim.

Kelly Vieira

(autora do texto e Colaboradora deste Blog)

Poema

A maior riqueza do homem
é a sua incompletude.
Nesse ponto sou abastado.
Palavras que me aceitam como sou – eu não aceito.
 
Não aguento ser apenas um sujeito que abre portas,
que puxa válvulas, que olha o relógio,
que compra pão às 6 horas da tarde,
que vai lá fora, que aponta lápis,
que vê a uva etc. etc.
 
Perdoai
Mas eu preciso ser Outros.
Eu penso renovar o homem usando borboletas.

Manoel de Barros

Porque todo ser é sem limite

Certo dia Diego saiu de sua cidade. Estava decidido nunca mais voltar. Mas parece que o destino – se ele acreditasse nessas coisas de predestinação – tinha outra decisão e o colocou novamente frente a frente com o território que ele queria abandonar.

Os anos passaram e ele não era mais o mesmo. A roupagem era outra; seus cabelos de outra cor… O tempo lhe transformou; até o nome “Diego” foi rejeitado. A impressão é que lentamente ele foi se diluindo ao longo do tempo – sem conseguir se eliminar de sua história – para se tornar “aquela” que sempre desejara ser.

Sem saber a força que as amarras podem exercer no corpo e longe de querer ser diferente da pessoa que se tornara, ficou desconcertada quando o desejo se manifestou pelo avesso da pessoa em que se convertera. Diego, que agora era Maria, nadava em um mar aberto em possibilidades. Depois de tanto tempo, depois de assumir tantas formas, sem fôlego, já não era capaz de decifrar na sua essência o que lhe reservava o destino. Agora, sendo Maria, se impunha fidelidade a sua alma e as inúmeras regras e circunstâncias bem ordenadas para a sua conduta. Mas dentro dela pulsava uma força desbravadora; se alastrava uma curiosidade imperiosa. Outra vez se desconhecia; outra vez se encantava por ser sem limites.

Maria e Diego se encaravam. A tensão entre eles era voraz na disputa por um mesmo espaço. Os dois desejavam ser apenas um. Ambos competiam pela exclusividade de um único corpo. Pendenga de almas prisioneiras do corpo:

Maria: Por que agora você quer me afastar? Agora que te mostrei que esse corpo também é seu e que é comigo que a beleza e a arte te fazem feliz. Por que agora?

Diego: Não te pedi de volta o corpo!

Maria: Como não?!

Diego: Não. Você, da maneira que é temerosa e frágil, fica inventando paranoias. Coisa típica de mulher.

Maria: Mas isto é muita ignorância! O seu machismo se impõe para que eu não possa me manifestar. Você desperta o seu homem para que eu me sufoque sem expressão. Sabia! Eu sabia quem você era e agora você me confirma que continua sendo o mesmo.

Diego: Espera aí! Quem de nós dois é o machista aqui?! Como você é capaz de reconhecer somente em mim tanto machismo? Você ainda não se deu conta que somos uma peça única? Sempre teremos a mesma essência, não importa o homem, não importa a mulher.

Maria: Então tá! Agora você ficou machista em dobro. Só falta você me dizer que tirou de si mesmo uma costela para que eu tivesse condições de existir.

Diego: Sim e não. Saiba que quando o meu desejo se confundia com o seu, eu era criança miúda descobrindo o mundo. Alcançava os sentidos de tudo com a fragilidade da inexperiência. O tempo foi nos desenvolvendo até o dia em que você cresceu. E como nas brincadeiras de adulto onde só uma coisa é o certo, você me disse adeus. Não morri, nem mesmo adormeci: sempre estive aqui na genética de que somos feitos. Pode ser até que eu seja machista – nós sejamos machistas -, porque nem você nem eu conseguimos escapar das armadilhas cruéis que as diferenças são capazes de construir. Não quero te ofender tampouco causar preocupações. É o amor que me trouxe à tua presença. Para que eu possa te fazer feliz é preciso estabelecer nossa convivência, sermos um. Cansei dos bastidores e de te ver apanhar sozinha. Cansei de querer te defender e você me dispensar numa retórica autossuficiente comum às feministas. E eu te observava agarrada as suas próprias forças, convencida que eu não era necessário. Cansei de ser submisso a você e me manter imobilizado ao te ver perdida nesse caminho. Vamos nos manter juntos a partir de agora. Fique calma. Não há necessidade de me agredir.

Maria: Sei… Isso deve ser um truque e daqueles bem baixos. Uma dessas estratégias usadas por esses camaradas que dizem proteger e de conversa-mole em conversa-mole vão tomando as rédeas da minha vida até me colocarem na cozinha, ou então me colocarem na cama, enredada nos mais baratos dos desejos. Conheço bem o seu tipinho.

Diego: Maria, eu só tenho a lhe dizer uma coisa: vivi com você e você viveu comigo. Por dezessete anos, no mínimo, te dei espaço para ser quem você é hoje, agora você me tira para machista ou um desses inanimados que reforçam a cultura fácil. Se existiu alguém nesse mundo que lhe deu força, esse alguém fui eu. É importante que você compreenda isso, afinal, se fui definido por uma genitália, abri mão do meu corpo inteiro para que dele você se servisse. Lógico que a força que te dei você me devolveu em dobro, e é em nome dessa força que peço o seu amor. Não precisamos desses embates eternos, basta que nos esforcemos em saber um do outro. Permita que eu caiba em você com o amor que sempre preservei você em mim.

E esse combate continua. A história conta que todos os dias Maria chora e que Diego se arrependeu de ter desistido de trazer Maria para junto dele. Maria pensa em morte e Diego não quer outro adeus.

Não sabemos qual o destino de ambos, pois eles são hábeis em virar as costas para os desígnios. O que intriga é o fato de Maria estar preparando a corda e Diego se entristece com esse ritual. O destino de um, inevitavelmente, alcançará o destino do outro.

Kelly Vieira

(autora do texto, colaboradora deste Blog)

Ayn Rand

Estava eu espantando as moscas que sempre implicam com a prostração que os dias abafados imprimem no nosso metabolismo e, enquanto assistia a tarde mudar de cor, folheava o jornal. A quantidade de más notícias já deixou de me impressionar pela constância com que a incapacidade humana vai costurando os dias com uma sórdida suavidade, despejando gota a gota o avesso do reconhecimento, deixando a realidade de pernas para ar sem nenhuma habilidade acrobática. Até o dia que amanhecemos nos dando conta que o mundo mudou e nós permanecemos fincados nos mesmos ultrapassados valores que há muito nos sustentavam. Ia passando os olhos de notícias em notícias, quando um texto de parágrafo único e bem curto, me trouxe certo alento: uma possibilidade de salvação. Só não soube identificar quem poderia ser salvo: ou o mundo ou eu….

“Quando você perceber que para produzir precisa obter a autorização de quem não produz nada; quando comprovar que o dinheiro flui para quem negocia não com bens, mas com favores; quando perceber que muitos ficam ricos pelo suborno e por influência, mais que pelo trabalho, e que as leis não nos protegem deles, mas, pelo contrário, são eles que estão protegidos de você; quando perceber que a corrupção é recompensada e a honestidade se converte em autossacrifício; então poderá afirmar, sem temor de errar, que sua sociedade está condenada”

Parágrafo do pensamento de Ayn Rand, nascida em 2 de fevereiro de 1905 em São Petersburgo, e faleceu em Nova Iorque em 06 de março de 1982. Foi escritora, dramaturga, roteirista e controversa filósofa norte-americana de origem judaico-russa, mais conhecida por desenvolver um sistema filosófico chamado de Objetivismo. Emigrou para os Estados Unidos em 1926 alcançando a fama com o romance “A Nascente” (The Fountainhead), publicado em 1943.

Sujeito vira objeto; objeto, sujeito.

artigo de Frei Betto
(Escritor, é autor de A obra do artista – uma visão holística do Universo, entre outros)

O consumismo neoliberal gera, hoje, uma proeza que deixa os filósofos mais encucados: o sujeito humano passa à condição de objeto e o objeto – a mercadoria – ocupa a condição de sujeito.

O consumo já não é determinado pela necessidade. Depende, sobretudo, do sonho do consumidor de alcançar o status do produto. Isso mesmo: a mercadoria possui grife, status, agrega valor a quem a porta. Ao obtê-la, o consumidor se deixa possuir por ela. O valor que ela contém, criado pela mídia publicitária e pela moeda, emana e impregna o consumidor.

No universo consumista, se alguém deseja ser bem aceito entre seus pares, no círculo social que frequenta, precisa equipar-se com todos aqueles objetos de luxo que o revestem de uma auréola capaz de sinalizar socialmente o alto nível de seus status. Ai dele se não ostentar certas marcas de carro, relógio e roupa. Ai dele se não frequentar restaurantes seletos. Ai dele se não viajar em classe executiva para Nova York, Paris ou uma ilha do Pacífico apontada como o novo point.

Caso o sujeito se recuse a ostentar a lista de objetos considerados requintados, ele corre o risco de ser excluído, deletado do círculo social que estabelece como código de identificação certo nível mínimo de padrão de consumo.

Em suma, o sujeito passa a ser tratado como objeto. Duplo objeto: por se sujeitar à mercadoria e por ser rechaçado por seus pares. Porque no sistema consumista só é aceito quem transita despudoradamente no universo do luxo e do supérfluo.

Esse processo de desumanização estimula a obsolescência das mercadorias. Agora se produz para atender, não a uma necessidade, mas a um sonho, um desejo, um anseio de alpinismo social. O produto adquirido hoje – carro, computador, IPad – estará obsoleto amanhã.

Você pode até insistir em conservar o mesmo equipamento eletrônico, suficiente às suas necessidades atuais. Todos à sua volta constatarão o seu anacronismo. Você perdeu a identidade da tribo, que avança para a aquisição de mercadorias ainda mais sofisticadas, com design mais arrojado.

O único modo de ser aceito na tribo é ser revestindo dos mesmos objetos que, atuando como sujeitos, o resgatam do cinzento e medíocre universo do comum dos mortais.

Essa inversão do sujeito humano tornado objeto e do objeto transformado em “humano” ou mesmo “divino”. Isso se dissemina por meio da publicidade – que não faz distinção de classes. O apelo é igual para todos. Tanto o biliardário em seu jato executivo quanto o jovem da favela semianalfabeto sofrem o mesmo impacto publicitário.

A diferença é que o primeiro tem fácil acesso aos novos ícones do consumismo. O jovem absorve os ícones em seus embornal de desejos e reconhece o quanto ele é socialmente descartado e descartável por não se revestir de objetos que imprimem valor às pessoas. Daí a frustração e a revolta.

A frustração pode ser compensada pela sadia inveja dos espectadores de brilho alheio: leitores de revistas de celebridades e internautas que navegam atraídos pelo canto da sereia de seus ídolos. A revolta leva ao crime – “não sou como eles, mas terei, a ferro e fogo, o que eles têm”.

Haverá limites à obsolescência? Um dia a superprodução fará com que a oferta seja assustadoramente superior à demanda? Tudo indica que não. A indústria há tempos aprendeu que o consumidor é irracional, não se move por princípios, e sim por efeitos. É a emoção que o faz se aproximar do balcão.

Aprendeu também a fazer a produção acompanhar a concentração de renda. Já não se fabricam carros populares. Quem mais adquire veículos são as famílias que já possuem ao menos um.

Agora na pós-modernidade, as pessoas já não se relacionam, se conectam. Os encontros não são reais, são virtuais. Já não se vive em sociedade, e sim em rede. Ninguém é excluído, e sim deletado.

(publicado no Correio Braziliense em 19 de outubro de 2012)

Melindres da Lua

Ontem, minha melhor amiga me sacudiu com algumas verdades, daquelas que lembram açoites:
 
- Você esteve ausente. Não me valorizou com a mesma intensidade de antes.
 
E continuou:
 
- Quer saber? Se é para ser assim não quero mais. É sempre a mesma história: você se infiltra no meu mundo, invade a minha casa, nem sequer se faz anunciar, derruba tudo e pelo enorme acúmulo de ilusões de que és capaz, me ignora. Quando é que você vai crescer?
 
Abismada, entre perplexa e ameaçada, indago:
 
- Por que tanta revolta? O que eu fiz para ser castigada assim? Por que a intimidação para que eu cresça se é na pureza que me reconheço e ela o que invejo em ti?
 
E ela me devolve com certa irritação:
 
- A pureza que invejas em mim eu acreditava ser tua, até ontem. Adorava quando entravas no meu mundo e só havia olhos para mim.  Quando todas as noites eu surgia, sentia a tua vontade de me ter. Te sentia inteira. Você era minha e eu sua. De repente tudo muda: em teus olhos outro brilho que não o meu. Conheço essa história! Não quero ser egoísta e reivindicar a tua exclusividade, mas te conheço muito bem e sei o significado de quando deixas o meu mundo para ficar em outro… Sinto-me perdida quando eu, a quem tu chamas de princesa, tua lua, fico isolada dos teus pensamentos; ou quando nossa sincronia desaparece nas vezes em que você me esquece por outro satélite. Lembra-se da vez em que o Sol foi tudo para você? Pois é… Pense bem! Você disse naquela ocasião que não era nada e que as minhas intuições não passavam de eventos fantasiosos da minha imaginação. Mas não demorou muito e você veio toda queimada, ardida, me pedindo socorro. E te dei por inteiro a prata cintilante do meu conforto. Todas as noites, desde então, seu coração só teve espaço para mim. Foi preciso isso acontecer para que você me desse mais valor. Com que facilidade eu te acolhi quando chegaste machucada. Não é verdade?
 
Ouvi em silêncio e nele permaneci depois do desabafo. Não tinha como argumentar as verdades de quem me conhecia muito bem. Ao me retirar, depois de contemplá-la por algum tempo, fui eu quem lhe obriguei a refletir:
 
- Lua, você sempre será a minha Lua. E o teu mundo é, por essência, o meu mundo. Não fiques ressentida comigo. Eu cresci, e talvez por isto mesmo, volta e meia, eu tenha que me queimar para fortalecer o nosso amor.
 
Setembro/2012 
Kelly Vieira (texto cedido para publicação neste Blog)