Daniel Galera

Quando eu li “Barba Ensopada de Sangue” Daniel Galera não me era totalmente desconhecido uma vez que “Até o dia em que o cão morreu” inaugurou e me incitou a querer confirmar minhas impressões sobre o autor.

A primeira vez que ouvi falar em Daniel Galera foi no Podcast do Antônio Fagundes “Clube do Livro” (bom demais! Claro: saiu do ar…) e o título já me deixou curiosa.

Daniel Galera nasceu em São Paulo, mas é gaúcho de tempo vivido em Porto Alegre (até parece que estou abrindo uma janela nas minhas leituras para a ponta sul do país… inclusive o “Barba Ensopada” faz referência a Torres a partir de uma competição de natação que há, ou havia, chamada Travessia de Torres – algum gaúcho me confirme se esta competição aquática aconteceu, ou acontece, ou se a ficção do autor predominou até nisso), jovem (nasceu em 1979), já acumulou vários prêmios e tem seus livros traduzidos mundo afora. Salvo imperdoável erro de minha parte sua literatura consiste nas seguintes obras: “Dentes Guardados” (2001), “Até o dia em que o cão morreu” (2003), “Mãos de Cavalo” (2006), “Cordilheira” (2008), “Barba Ensopada de Sangue” (2012) e “Meia-noite e Vinte” (2016). Já comecei a ler este último…

A sensação quando li a “Barba Ensopada de Sangue” foi do tipo: “Nossa! Aonde isso vai dar?” Simplesmente não conseguia me desgrudar do livro, café da manhã lendo; almoçando lendo; feliz com o isolamento social por me deixar mais tempo mergulhada no livro; antes de dormir lendo; tá… cheguei a levar o livro comigo pro banheiro. A história e a maneira de escrever enredam o leitor de uma tal maneira que as páginas vão deixando quem as lê com aquela sensação de quando você sai de um filme um pouco enevoado e fica torcendo para ninguém quebrar o encanto com o fatídico “E aí? Gostou?”. Basta dizer que o personagem principal sofre de prosopagnosia, ou seja uma doença degenerativa que impede que a pessoa reconheça a fisionomia dos indivíduos. Daí é possível imaginar os níveis de aflição acompanhando o personagem num enredo intimidador com relação à própria vida sem a possibilidade imediata de reconhecer nos semblantes seus amigos e seus inimigos, além das estratégias usadas pelo personagem para identificar pessoas por algumas características distintas que não a face. Um baita exercício, convenhamos. Outros ingredientes alimentam fartamente o leitor: a descrição da cidade litorânea de Garopaba (SC) compele a se visitar a cidade com mapa e livro para percorrer todos os lugares descritos. É quase uma compulsão! Fora isso, tem suicídio, tem mistério, tem romance, tem amor incondicional, de tirar o folego, por uma cachorrinha…. Tem mar, tem montanha, tem empatia, tem medo, tem frustração, tem raiva…..

Olha, para resumir: eu vou ler tudo que o Galera escreveu só para conferir que ele não foi capaz de superar todos os sentimentos que o leitor vivencia em “Barba Ensopada de Sangue”.

Simplesmente brilhante!!!

Rabiscando na Areia

Em 2019 eu recebi o livro “Rabiscando na Areia’ que me foi presenteado pelo autor com uma dedicatória simpática e humilde. O autor, Bento Barcelos da Silva, não o conheço pessoalmente mas dele me foi transmitida admiração a partir de um comentário aqui, outro ali, por parte de quem expressou privilégio de o ter como amigo.

Quando terminei a leitura do livro me veio a nítida impressão de que escrever é a tarefa mais fácil do mundo. E, convenhamos, um autor que consegue nos passar essa sensação é digno de todo respeito por ser detentor de um mérito que para mim é fundamental: clareza na exposição de suas ideias. O escritor que consegue me enganar sobre as turbulências do processo criativo – impedindo que eu me confunda nas suas palavras, evitando que eu me embaralhe nas dúvidas do seu pensamento, me poupando das hesitações que algumas palavras trêmulas assombram quem as persegue – me apresentando uma escrita limpa, objetiva, direta, tem, certamente, minha reverência e certa quantidade de inveja.

Falar sobre estilo, não tenho conhecimento, pretensão nem interesse de dissertar sobre. No que diz respeito a estilo só sei que gosto de uns e não gosto de outros. Pelas razões acima o estilo do Bento Barcelos me satisfaz plenamente. Naturalmente isso não implica concordância ampla com todas as posições de suas ideias. Felizmente, já que contestações devem ser encaradas como um efeito espontâneo a quem ousa divulgar seus pontos de vista. Mas quem consegue transmitir suas ideias muito claramente, facilita o exercício crítico do leitor. A isso agradeço com entusiasmo.

O livro é dividido em duas partes: a primeira parte se refere a fatos reais, históricos ou pessoais, que foram buscados na memória prodigiosa de quem os narra; a segunda parte é ficcional, identificada pelo autor como sonhos. Embora o livro tenha essa divisão a narrativa permanece idêntica, com o mesmo grau de envolvimento do leitor. Tudo se assemelha a alguém que se aproxima da gente, estabelece uma conversa, e levamos para casa um repertório de casos que nos levam a refletir.

Falar sobre o autor eu não deveria me aventurar, uma vez que não o conheço. Mas dizem que todo escritor deixa seus traços pessoais nas páginas que preenche. Assim, a insolência me faculta a imaginar o que me é desconhecido. Diria que Bento é um prosador, alguém que gosta de uma boa conversa, alguém que tem o dom da escuta, alguém que nos convida para um cafezinho no meio tarde e quando nos damos conta já é meia noite e ninguém viu o tempo passar. Tem um traço marcante que fica muito destacado nos textos: um amor cívico pela terra que o viu crescer (Torres-RS) e faz um esforço, entre didático e indignado, para que seus conterrâneos se apropriem historicamente do lugar onde vivem. Além disso tem uma transparente gratidão pelos autores que o inspiraram na redação dos seus textos (não sei se são contos, artigos ou crônicas – ou tudo junto). E esse reconhecimento não se limita às frias notas de rodapé: as referências inspiradoras estão colocadas ao fim de cada texto com a mesma honraria que tiveram os seus textos. Confesso que nunca encontrei um livro que tivesse tal diagramação. Gostei, gentil.

Enfim, só posso agradecer a generosidade. Tanto pelo envio do “Rabiscando na Areia” quanto do que recebi no mês subsequente: “Torres – História em Crônica”. Além do prazer na leitura, certamente permitiram enriquecer meu conhecimento histórico de uma maneira que muitos dos meus professores de História fracassaram ao tentar.

Muito obrigada !!

Aprendizagem – ou Caderninho dos erros e acertos

Quando o telefone tocou não eram nem oito horas da manhã. Entendi que a situação era urgente: do outro lado da linha as palavras não fluíam com naturalidade e a respiração curta indicava que o ruim havia acontecido e que o pior poderia se estabelecer rapidamente. Vesti a primeira roupa que encontrei naquela parte do armário que reúne as autorizadas ao convívio social , engoli o café sem a dose necessária de açúcar, peguei as chaves e rompi o isolamento atravessando ruas, avenidas, túneis, viadutos, bairros, até chegar no endereço da voz que falava em sílabas entrecortadas de vazios pela falta de ar que estufava o peito em intervalos muito pequenos. No meio do caminho me dei conta que havia esquecido a máscara em casa. Parei no camelô e comprei, sem sair do carro, umas doze máscaras de pano vagabundo, talvez querendo tardiamente interromper o que já estava posto e sem a menor possibilidade de retroceder a sentença dos fatos.

Demorou algum tempo para que a porta fosse aberta. E bastou nossos olhares se encontrarem para ter que ampará-lo em meus braços, ali mesmo na ombreira da porta que separava o social do privado. Arrastei-o para dentro, o coloquei sentado no sofá. Cocei a cabeça com os olhos escancarados. Eu era a personificação irretocável da aflição. Depois acrescentei à aflição dosagens fortes de angústia. Fiquei algum tempo sem mencionar um único som e olhando o amigo sem reconhecer nele as características físicas que o distinguiram nos mais de trinta anos de convivência. O que era forte, quase atlético, saudável por todos os poros, se apresentava na minha frente abatido por enormes olheiras azuladas e por uma debilidade que não conseguia sustentar os seus oitenta quilos distribuídos harmoniosamente pelos metro e oitenta e cinco que sempre chamavam atenção pela agradável impressão a sua passagem.

Sem me recompor do susto consegui comunicar que iríamos imediatamente para o hospital. Onde a carteira do plano de saúde? Onde uma bolsa qualquer para colocar alguns itens necessários à hospitalização? Não poderia me esquecer do telefone celular dele, nem de manter comigo as chaves da casa na eventualidade de precisar voltar para renovar ou acrescentar itens ao enxoval, já que o atabalhoado do momento não me permitia ser perfeito. Meu amigo fez um gesto na minha direção, me segurou pelo antebraço e me direcionou a sentar ao lado dele no sofá: Não tenho plano de saúde e não quero ir a nenhum hospital. Hein?, foi o que consegui verbalizar quase sussurrando de espanto. Ele foi bem claro apesar do fôlego ser quase nenhum: Não quero ir para nenhum hospital. Não quero morrer sozinho rodeado por máquinas que emitem sons em duas vibrações: um sincopado que indica vida e outro contínuo que permite que a minha vaga seja ocupada pelo próximo infeliz. E, além do que, os uniformes revesam rostos quase totalmente cobertos que não me permitem saber que nomes têm, e sem intimidade mínima não passam de robôs apressados que só fazem agitar a morte sem nenhuma possibilidade dela ser suave, quase doce. Mas… balbuciei, acho que você não está pensando com discernimento. Não nos vemos só fazem vinte dias em função do isolamento social. Por que você se deixou ficar neste estado sem ter me chamado antes? Sem dúvida você passou por todos os estágios vastamente divulgados: coriza, tosse seca, dor de garganta, dor no corpo, inapetência, febre… Falei isso e estendi minha mão para a testa do amigo: podia fritar um ovo naquela temperatura. Ele fechou os olhos visivelmente exausto pelo ritmo da tosse contínua provocada pelo esforço da fala. Me levantei. Girei em torno de mim mesmo tentando decidir o que me cabia fazer na situação. Fui até a cozinha, lá não havia vestígio de quando uma última refeição tinha sido preparada. Tudo limpinho, todos os utensílios habitando os lugares a que se destinavam. Apenas um copo largado sobre a pia quebrava o ordenamento natural de uma cozinha zelosamente preservada. Fiquei parado segurando o copo, olhando o fundo brilhante da pia de aço inox, sem saber o que fazer.

Num filme, me vieram imagens que em retrospectiva tentavam dar sentido ao que eu não conseguia compreender. Procurava indícios no comportamento de uma vida que justificassem aquela reação do meu amigo. Mas não há vestígios possíveis de serem detectados quando a imprevisibilidade se impõe num jogo perverso e ameaçador de se andar sobre um fio desencapado que de uma hora para outra pode ser ligado à tomada. Lembrei do pré-vestibular de quando nos conhecemos, depois a faculdade, os bares e festas compartilhados, as namoradas, as paixões, tínhamos sido poupados da aids apesar de alguns comportamentos desviantes, doença nenhuma salvo algumas gripes curadas à base de muito limão e vodca. Nenhuma internação, nenhuma operação cirúrgica depois dos dezoito anos quando arrancou os sisos sem maiores traumas. Agora estava ali, gravemente depauperado, fincado num sofá, sem forças para se levantar, sem forças para falar, mas resolvido a tomar pulso da própria vida mesmo quando a sua pulsação cardíaca se encontrava visivelmente comprometida. Eu tinha duas opções: arrastá-lo contra a vontade para um hospital ou fazer parte de um enredo que por não haver privação óbvia de sentido ele escolhera para si. E esse escolher para si ganhava contornos de egoísmo na medida que me lançava para dentro do rodamoinho do contágio, mas também me distinguia com algumas pinceladas de honraria por ter sido eu o único a quem ele procurara para vivenciar um milagre ou um desfecho muito previsível. Voltei para a sala, me sentei no sofá e fiquei olhando para ele alguns minutos intermináveis, me decidindo por qual botão apertar.

A minha decisão levou em consideração a convivência que não se resumia em meia hora, levou em conta a cumplicidade que nos livrou de muitas catástrofes, levou em conta o que eu sabia dele e todas as expectativas criadas sendo que quase nunca elas se confrontaram com a decepção, levou em conta a pessoa que ele sempre foi e a pessoa que aquela situação me permitia saber de mim mesmo.

Cresci quando tinha mais de quarenta anos e o telefone tocou antes das oito da manhã.

 Texto mediocremente inspirado no livro “O Tribunal da Quinta-feira” de Michel Laub.

Um Tema, Dois Autores

Recentemente terminei a leitura de dois livros ambientados no período em que o AI5 foi instituído no país. Período certamente bastante triste da nossa história, quando a violência assumiu proporções capilares devastadoras, tanto no que diz respeito ao número de mortos e a forma pela qual tais mortes ocorreram, quanto no que diz respeito ao cerceamento de informações e à quantidade de fake news em verde e amarelo brilhantes que a militarização ofereceu ao povo.

Os dois livros foram escritos em 1988 e mencionam os mesmos fatos históricos. O primeiro que li foi do Zuenir Ventura (“1968 – O Ano que Não Terminou”) e se atém aos fatos com matizes de documentário. O segundo foi escrito pela Ana Maria Machado (“Tropical Sol da Liberdade”) e embora situe os mesmos acontecimentos daqueles anos, ganha contornos de romance. Eu diria que o primeiro é um livro masculino: repleto de informações, cirúrgico nas suas análises, os sentimentos explodem dos fatos apesar da narrativa racional do texto. Já o segundo é um livro que identifiquei bastante feminino: todas as emoções nos são transferidas na medida em que a personagem vai nos revelando a sua história, e a de sua família, ao longo daqueles anos.

Os fatos mencionados naturalmente não encantam o leitor e não duvido que muitas pessoas questionem se realmente eles aconteceram, mesmo que a imprensa os tenha mencionados com mais ou menos tinta, na medida da disponibilidade de tantos tons escuros. O que, inquestionavelmente, me emocionou foi apreciar os diferentes estilos, impecáveis, dos escribas. É claro que a depender de quem estiver lendo, a preferência irá recair para um dos autores. Comigo não foi diferente. Apesar de eleger um preferido, curvo-me respeitosamente à capacidade de ambos em propiciar uma leitura envolvente e instigante. O que me pergunto é: o que faz um texto ser agradável para quem lê?

Aí é inevitável que a resposta recaia sobre o leitor, em detrimento do autor. Existem leitores para todos os estilos. Existem leitores fáceis. São aqueles que apreciam frases curtas, com palavras que cotidianamente reconhecemos, capazes de compartilhar a informação de uma forma simples e objetiva; a sofisticação está no conforto da mensagem transmitida com clareza. Mas existem também leitores difíceis. Que podem até revelar serem, igualmente, pessoas difíceis. São os apreciadores de longas sentenças em que várias informações se acumulam num único período. As palavras são mais rebuscadas, exigindo que o leitor identifique o melhor significado para o sentido do que se quer transmitir. Esses leitores são especiais porque capazes de reler um parágrafo inúmeras vezes até se sentirem confortáveis, acreditando terem conseguido captar a mensagem, quase cifrada, proposta pelo autor.

Acredito que a parte indolente do meu temperamento se manifeste intensamente nas vezes que abro um livro. O meu raciocínio é bem básico: se você quer me dizer algo, por favor poupe os meus neurônios, que já são bem deficientes, e me diga claramente a sua opinião, facilitando que sobre ela eu tenha, ou não tenha, algo a acrescentar ou retrucar. No entanto, que fique bem entendido: um texto objetivo não implica, necessariamente, ausência de beleza na transmissão do pensamento. A poesia, as associações plenas de simbolismos não reduzem o entendimento do texto, ao contrário, expandem a imaginação e muitas vezes são responsáveis por novas dimensões alcançadas pelo leitor.

Os dois livros referendados me agradaram muito, mesmo considerando tratar-se de estilos diferentes. Os dois conseguiram manter o meu interesse pela leitura, conseguiram enriquecer o meu cardápio histórico sobre o país, conseguiram me fazer refletir sobre alguns aspectos cíclicos afeitos à civilização, conseguiram, enfim, me tornar um pouco mais ilustrada.

Obrigada a ambos!

Nas águas em que o tempo flutua…

 

 

 

Por coerência ao assunto o título deveria ser “O DETETIVE DO PASSADO E SUA VIAGEM ALÉM-MAR”, pois este é o livro que divulgo aqui com o sentimento de quem festeja o resultado de um trabalho que pude acompanhar desde o início, quando nem mesmo as ideias se alinhavavam no sentido de um projeto. Acompanhei o Autor às vezes de muito perto, outras vezes nem tanto, mas sempre reverenciei os progressos e as surpresas que o Autor compartilhava de tempos em tempos.

E agora, obra lançada ao mundo, eu fico na dúvida se eu gosto do livro ou se foi a admiração pelo Autor que se impregnou no meu sentimento com relação ao livro. Sem dúvida é o tipo de temática que a minha ignorância não valoriza na medida do que seria justo. Afinal, não entendo de Genealogia e deixei de perceber em profundidade uma série de inovações, sobretudo no que diz respeito à sistematização de dados, que especialistas poderão reconhecer e agregar valor ao meu entusiasmo genuíno. Mas eu gosto de histórias e o livro conta uma história – ou várias histórias – que me fez viajar na respiração de cada um dos personagens. Personagens que não surgiram da capacidade imaginativa do escritor, mas pessoas reais, inscritas no antepassado do Autor e que contribuíram para a Historia do Brasil. Impossível não reconhecer a seriedade da pesquisa e a tenacidade de quem se embrenhou em desafiar o esquecimento histórico.

O livro está aí para degustação dos interessados. Quem quiser adquiri-lo na versão impressa em pré-venda poderá entrar em contato com o Autor por e-mail (diderotcl@gmail.com). O livro também está disponível no formato eBook (livro digital) e pode ser obtido pelo site da Amazon (www.amazon.com.br) no link a seguir:

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Abaixo transcrevo as minhas impressões após a conclusão da leitura na sua versão final:

Buscar na arquitetura dos antepassados os fatos que iluminam as suas origens ao tempo em que desvendam a história da ocupação ao sul do Brasil, foi a aventura empreendida pelo Autor iniciada na necessidade de se conhecer um pouco mais.

Tudo começou com a simplicidade de reunir as fotografias que ocupavam espaço no fundo das gavetas em álbuns empoeirados. A um determinado momento as imagens e as datas que o Autor dispunha não bastavam para apascentar o seu interesse em examinar o fluxo do rio até o mais próximo da sua cristalina nascente. E o Rio Mampituba é personagem imponente que aproxima “catarinas” e “gaúchos”. Foi então que a pesquisa científica se impôs de forma dedicada – se não obsessiva – por uma década. A experiência adquirida nesse tempo, conforme relata o Autor, alcançou níveis inusitados que ultrapassaram as fronteiras geográficas influenciando a sua percepção da vida, com especial atenção à forma como se dá a interação do ser humano com o meio em que vive.

Trata-se de um livro libertário na medida em que rompe com as limitações geográficas que com alguma frequência influenciam determinados autores ao restringirem seus trabalhos a uma localidade específica, muito em função da fonte de subvenção a que se aplicam. Neste caso, todos os esforços – emocionais e financeiros – foram custeados pelo Autor e disponibilizados ao interesse dos estudiosos no aprofundamento do trabalho que, por natureza, nunca se esgota. Libertário porque também permitiu, ao longo da caminhada, enriquecer conhecimentos que possibilitaram ao Autor estudar mecanismos científicos que melhor se ajustaram à ordenação do vasto conteúdo obtido. Aprender para além dos princípios básicos de Genealogia e identificar dentre os programas tecnológicos existentes o mais adequado ao volume de informações existentes, são dois aspectos indicativos do empenho e determinação requeridos à realização.

Por tratar-se de uma busca investigativa dos familiares do Autor, pode sugerir que a importância do livro esteja limitada a um estreito círculo individual. No entanto, tal interpretação não se sustenta. Até neste ponto o livro é libertário, pois permite uma viagem histórica dos pioneiros portugueses que se fixaram às margens do Rio Mampituba, povoando e fazendo a História da região. Todas as informações, minuciosamente registradas com as respectivas fontes, permitiram atualizar de forma corretiva alguns equívocos históricos propalados até antes da pesquisa documentada pelo Autor. Fatos históricos ganham intensidade quando a narrativa se desprende do anonimato e passa a situar pessoas com nome, sobrenome e, sobretudo, quando realizamos que os protagonistas estão associados geneticamente a uma pessoa que se dedicou a resgatá-los do esquecimento que enfumaça todas as histórias.

Dentre as muitas qualidades do livro, não se pode omitir a forma instigante com que o leitor é desafiado a, minimamente, olhar para trás e se perguntar sobre os episódios históricos vivenciados por seus antepassados e que ficaram perdidos na velocidade exigente do tempo, ansioso por modernidades…

Sobre “Queria Ver Você Feliz”

Adriana Falcão dispensa as apresentações com base no vasto currículo ligado à arte de escrever. Seu mais recente título “Queria Ver Você Feliz” (Geração ePub – Intrínseca – 2014) chama atenção por vários aspectos. Um deles me trouxe a hipótese de estar na herança genética o talento para a escrita. Digo isto já que o livro em questão trata-se de uma compilação cronológica das cartas trocadas entre seu pai e sua mãe desde antes de se casarem.

São cartas intensas, urgentes. Cartas dramáticas que vibram a dependência que qualquer ato de entrega pressupõe. Um enredo psicologicamente emaranhado na negação de tudo que possa ser definido como politicamente correto.  Apesar de qualquer drama conceber níveis diferenciados de tragédia, as cartas são bem humoradas, inteligentes. Por vezes caricaturas, ou provas cabais, do quanto o sentir extremo tem a capacidade de se ancorar na fatalidade.  A vida, na veemência com que eles dela exigiam a plenitude, foi uma espécie de vilã a contradizer tudo. Se “viver é muito perigoso”, viver sem nenhum pudor com relação ao outro é, talvez, um índice infalível para a correção de que ‘viver é impossível’.

O respeito de Adriana Falcão pelos pais, ou pela história de amor de seus pais, é outro aspecto que encanta. A começar pela magistral estratégia de delegar ao Amor a responsabilidade de ser o mestre de cerimônia para contar essa história. Não há julgamentos. Não há necessidade de diagnósticos psiquiátricos para o comportamento do casal. Não há espaço para qualquer advertência, seja filosófica seja religiosa, sobre as consequências da vida em intensidade e em honestidade.

É um privilégio se despedir de alguém querido “chorando o que era triste e rindo com orgulho do que era engraçado”. Esta frase foi o salvo-conduto para que eu entendesse que muitas pessoas admiráveis que eu conheci, que fizeram diferença no afeto que senti por elas, decidiram por inúmeras variáveis psicológicas,  que a vida era muito pequena para a ambiciosa projeção de plenitude por elas idealizada. Plenitude esta ao preço da insatisfação, ao preço corrosivo do juízo de valor alheio, ao preço da angústia, ao preço do não pertencimento. Todas essas coisas que um disfarce, um jogo de cintura social, e tantas outras simulações, foram capazes de manter minha conectividade com o medíocre. Sobrevivo até hoje, “e quem há de dizer que esta lhe é superior?”.

Recomendo o livro por outros tantos motivos que aqui não foram mencionados. Mesmo porque narrativas absorvem cada um por motivos particulares e nem sempre confessáveis. Pode ser até que muitos não entendam essa minha recomendação, mas acredito que até o fato de não apreciarem, terá sido válido.

Abaixo uma versão da música predileta do casal extremado, nem sempre feliz:

Dos encantos no meu canto

Ainda observando esta dobradiça da existência, que abre novo período ao tempo que fecha outro, senti enorme necessidade de compartilhar um dos muitos presentes que a generosidade de 2014 me teve como testemunha. Foram inúmeros os presentes que chegaram por meio das pessoas que com frequência, ou casualidade, compartilharam a simbologia que levarei deste ano. É preciso esclarecer que alguns presentes vieram com papel cintilante, sem nenhum pudor em anunciar, desde o invólucro, que fagulhas de alegria seriam facilmente reveladas. Mas também recebi presentes envolvidos em papel pardo, escuro e grosso, amarrados em barbante resistente. Estes feriram as minhas mãos e arranharam a minha esperança até se confirmarem preciosos enquanto lições de vida.

Hoje eu quero compartilhar com vocês um presente iluminado que me foi recomendado, entre um assunto e outro, por uma amiga ao telefone, que num gesto de generosidade complementar, fez questão de ler o que para ela tem muito significado. Não bastasse a beleza do texto, ainda fui agraciada pela belezura do gesto da minha amiga. Uma das muitas preciosidades de 2014…

Isto posto, quero vocês possíveis sócios desse encantamento. A autora é Viviane Mosé e a poesia pode ser encontrada no livro “Pensamento Chão“, originalmente publicado em 2001:

“RECEITA PARA LAVAR PALAVRA SUJA
 
Mergulhar a palavra suja em água sanitária.
Depois de dois dias de molho, quarar ao sol do meio dia.
Algumas palavras quando alvejadas ao sol
adquirem consistência de certeza.
Por exemplo, a palavra vida.
Existem outras, e a palavra amor é uma delas,
que são muito encardidas pelo uso, o que recomenda esfregar
e bater insistentemente na pedra,
depois enxaguar em água corrente.
São poucas as que resistem a esses cuidados,
mas existem aquelas.
Dizem que limão e sal tiram sujeira difícil, mas nada.
Toda tentativa de lavar a piedade foi sempre em vão.
Mas nunca vi palavra tão suja como perda.
Perda e morte na medida em que são alvejadas
soltam um líquido corrosivo, que atende pelo nome de amargura,
que é capaz de esvaziar o vigor da língua.
O aconselhado nesse caso é mantê-las sempre de molho
em um amaciante de boa finalidade.
Agora, se o que você quer é somente aliviar as palavras
do uso diário,
pode usar simplesmente sabão em pó e máquina de lavar.
O perigo neste caso é misturar palavras que mancham
no contato umas com as outras.
Culpa, por exemplo,
a culpa mancha tudo que encontra e deve
ser sempre alvejada sozinha.
Outra mistura pouco aconselhada é amizade e desejo,
já que desejo, sendo uma palavra intensa, quase agressiva,
pode, o que não é inevitável, esgarçar a força delicada
da palavra amizade.
Já a palavra força cai bem em qualquer mistura.
Outro cuidado importante é não lavar demais as palavras
sob o risco de perderem o sentido.
A sujeirinha cotidiana, quando não é excessiva,
produz uma oleosidade que dá vigor aos sons.
Muito importante na arte de lavar palavras
é saber reconhecer uma palavra limpa.
Conviva com a palavra durante alguns dias.
Deixe que se misture em seus gestos, que passeie
pela expressão dos seus sentidos.
À noite, permita que se deite, não a seu lado
mas sobre seu corpo.
Enquanto você dorme, a palavra, plantada em sua carne,
prolifera em toda sua possibilidade.
Se puder suportar essa convivência até não mais
perceber a presença dela,
então você tem uma palavra limpa.
Uma palavra limpa é uma palavra possível.”

Meus amigos, desejo a vocês todos um 2015 de alma limpa.

Vidas Provisórias

O elemento principal de um repórter é o fato. O fato em si é consequência de uma escalada de circunstâncias que gravadas no tempo promovem o surgimento de uma realidade histórica. Fatos históricos não são sentimentais (eles cabem num enunciado e se ancoram em datas de início e término,), mas conseguem apaixonar aqueles que por eles se interessarem. Apaixonar, aqui, no sentido de atacar ou defender, a depender dos sentimentos que despertam.

Vidas Provisórias” é um romance escrito por um repórter. Nem sempre a junção da literatura com a reportagem consegue bons resultados. Mas Edney Silvestre conseguiu excelência, independente do ângulo em que se debruce a análise crítica. As negociações íntimas entre o repórter e o romancista se estabelecem com civilidade rara, beneficiando a ambos. Se a mesma fórmula fosse levada aos grandes conflitos atuais vivenciados pela humanidade, certamente não teríamos nenhum rastro de horror ou estarrecimento.

O repórter partiu de um fato histórico: ditadura militar brasileira. Mas também influenciou o romancista, impedindo que o autor ocupasse espaços não autorizados pelos personagens. Portanto, o direito à emoção do fato histórico é da competência narrativa de dois personagens que vivenciaram os acontecimentos. Eles não precisam dos substantivos e dos adjetivos que com frequência se infiltram no texto pela necessidade quase compulsiva dos autores.

Há vários aspectos estruturais interessantes no livro. Sem falar no ineditismo relacionado ao marketing de divulgação do produto. O livro dá voz a dois personagens: Paulo e Barbara que vivem vidas tão provisórias que mesmo os nomes são temporários, a depender da intensidade requerida a cada fuga. O relato de Paulo se dá com tinta preta; a narrativa de Barbara com tinta azul. Os discursos se revezam a cada capítulo. Não existe personagem mais ou menos interessante. O leitor não sente vontade de pular as tintas azuis ou as tintas pretas para se deter num personagem preferido, embora seja um excelente exercício refazer a leitura percorrendo a saga das tintas pretas com exclusividade ou das azuis de forma privilegiada. Talvez permaneça intocável o clímax final apesar dessa fragmentação da leitura.

Que traços comuns, no discurso psicológico, podem aproximar duas pessoas que nunca se encontraram, mas que vivenciaram na carne, na ideologia, na fantasia, o mesmo fato histórico? Que diferenças de atitudes, de posturas, estão refletidas no comportamento de cada personagem? Até que ponto “os donos do mundo” são capazes de intervir radicalmente no destino das pessoas? Em que medida sucesso e fracasso podem ser medidos por esforços individuais? Questões de uma vida inteira e que permanecerão inteiramente insondáveis.

Muito interessante o estratagema utilizado pelo autor para que seus personagens se assentassem na verossimilhança de um contexto de meias verdades, de sigilos cívicos, de defesas fragilizadas, de histórias secretas, de ignorâncias… São as dúvidas, as incertezas, que fazem com que seus personagens atravessem a própria história de vida: “Ele nunca ouvira palavras de amor em sueco. Imaginava que fosse sueco. Imaginava que fossem palavras de amor. Gostaria que fossem palavras de amor. Queria que fossem palavras de amor. Queria que ela percebesse que aquele momento mitigava inúmeras dores, mas não sabia como dizê-lo.”

Sobre o marketing empresarial da obra, enquanto produto vendável, o próprio Edney Silvestre disponibilizou gratuitamente uma brochura intitulada “Aqueles Tempos”, tendo por subtítulo “Nos bastidores de Vidas Provisórias”, e com ela pretende despertar o interesse do leitor em se apropriar do conteúdo do livro principal. Posso assegurar que a estratégia funcionou, pelo menos no que me diz respeito, pois foi a partir desse panfleto que fui definitivamente aprisionada por “Vidas Provisórias”. Existem fotografias dos lugares onde o livro transcorre e existem nomes e sobrenomes de conhecidas figuras que viveram o momento histórico; mas o livro é uma ficção que passeia por fatos que ficaram na História.

Uma agradável leitura de reconhecida qualidade literária. Faz pensar…

Estopim – Carla Dias

Levei um ano esperando o lançamento do mais recente livro de Carla Dias – Estopim. A ansiedade cultivada um ano inteiro é daquelas raras, das que você tem a garantia que será recompensada pela impaciência de ter que esperar. E não foi diferente: um genuíno deleite.

Os bons livros são aqueles que ao final da leitura nos deixam uma sensação de abandono. Ou melhor, uma espécie de saudade por não dispormos mais da companhia dos personagens quando a finalidade que os levou a ser criados esgota-se na missão cumprida. E o curioso é que mesmo sabendo que esta sensação acontecerá, a avidez da leitura, pela excelência do conteúdo, não esmorece frente a essa curiosa impressão de que ficaremos mais solitários quando privados da “convivência” desses seres inventados que generosamente nos ofereceram a interpretação de suas vidas. E sempre a inevitável consequência de refletirmos sobre a nossa própria vida…. Sorte nossa que temos uma segunda chance de permanecer mais tempo usufruindo dos personagens de Estopim, a partir de uma trilha sonora, construída de canção em canção a cada capítulo.

Estopim, a exemplo dos livros anteriores da autora (Os Estranhos e Jardim de Agnes) prima pela beleza de estilo. Uma especial e única habilidade de salpicar poesia na realidade, sem deixar nenhum rastro de delírio, nenhum vestígio de impossibilidade. Tenho cá para mim que esses fatores só são possíveis a partir de um incondicional respeito pelos caminhos nos quais arrastamos os nossos pés na vida. Em outras palavras, uma descarada consideração pela biografia de cada um. Aliás, biografia é uma palavra-mantra talhada na produção da autora.

A excursão que nos conduz Estopim segue um itinerário angustiado dos abandonos que a vida nos oferece, ou às diferentes portas que tentamos abrir e fechar para sobreviver à coleção de abandonos que acumulamos. Mas abandonos nem sempre são registrados nos cartórios dos fatos, muitos, somos nós que assim os qualificamos a partir da matéria com que nos construímos enquanto indivíduos. Mas isso pouco importa, pois sejam eles reais ou idealizados, quem os sente não lida com esses filtros racionais. Sente e pronto!

Sentir é o primeiro estágio na relação do indivíduo com a vida. Sentir é experimentar alegrias e decepções. Sentir é tocar na precariedade de tudo e assim mesmo estabelecer fórmulas – nem todas eficazes – para respirar a possibilidade de algum conforto. Abandonos são estopins discretamente camuflados, mas atentos à ocasião do fogo se estabelecer na proximidade. E quando acionados, os abandonos explodem e são as oportunidades que se apresentam à reconstrução da pessoa. E tudo isso regado ao sabor da poesia, descreve, sem mistérios, a arte de viver.

Carla Dias está aí. Está no mundo. Há muito deixou de ser uma promessa. Já é uma constatação profissional cuja competência me obriga a novamente entrar num ciclo de extrema ansiedade esperando o próximo livro. Oxalá que seja breve!

Referência: Estopim – Carla Dias – Editora [Sic] – 2012

Ayn Rand

Estava eu espantando as moscas que sempre implicam com a prostração que os dias abafados imprimem no nosso metabolismo e, enquanto assistia a tarde mudar de cor, folheava o jornal. A quantidade de más notícias já deixou de me impressionar pela constância com que a incapacidade humana vai costurando os dias com uma sórdida suavidade, despejando gota a gota o avesso do reconhecimento, deixando a realidade de pernas para ar sem nenhuma habilidade acrobática. Até o dia que amanhecemos nos dando conta que o mundo mudou e nós permanecemos fincados nos mesmos ultrapassados valores que há muito nos sustentavam. Ia passando os olhos de notícias em notícias, quando um texto de parágrafo único e bem curto, me trouxe certo alento: uma possibilidade de salvação. Só não soube identificar quem poderia ser salvo: ou o mundo ou eu….

“Quando você perceber que para produzir precisa obter a autorização de quem não produz nada; quando comprovar que o dinheiro flui para quem negocia não com bens, mas com favores; quando perceber que muitos ficam ricos pelo suborno e por influência, mais que pelo trabalho, e que as leis não nos protegem deles, mas, pelo contrário, são eles que estão protegidos de você; quando perceber que a corrupção é recompensada e a honestidade se converte em autossacrifício; então poderá afirmar, sem temor de errar, que sua sociedade está condenada”

Parágrafo do pensamento de Ayn Rand, nascida em 2 de fevereiro de 1905 em São Petersburgo, e faleceu em Nova Iorque em 06 de março de 1982. Foi escritora, dramaturga, roteirista e controversa filósofa norte-americana de origem judaico-russa, mais conhecida por desenvolver um sistema filosófico chamado de Objetivismo. Emigrou para os Estados Unidos em 1926 alcançando a fama com o romance “A Nascente” (The Fountainhead), publicado em 1943.

Sujeito vira objeto; objeto, sujeito.

artigo de Frei Betto
(Escritor, é autor de A obra do artista – uma visão holística do Universo, entre outros)

O consumismo neoliberal gera, hoje, uma proeza que deixa os filósofos mais encucados: o sujeito humano passa à condição de objeto e o objeto – a mercadoria – ocupa a condição de sujeito.

O consumo já não é determinado pela necessidade. Depende, sobretudo, do sonho do consumidor de alcançar o status do produto. Isso mesmo: a mercadoria possui grife, status, agrega valor a quem a porta. Ao obtê-la, o consumidor se deixa possuir por ela. O valor que ela contém, criado pela mídia publicitária e pela moeda, emana e impregna o consumidor.

No universo consumista, se alguém deseja ser bem aceito entre seus pares, no círculo social que frequenta, precisa equipar-se com todos aqueles objetos de luxo que o revestem de uma auréola capaz de sinalizar socialmente o alto nível de seus status. Ai dele se não ostentar certas marcas de carro, relógio e roupa. Ai dele se não frequentar restaurantes seletos. Ai dele se não viajar em classe executiva para Nova York, Paris ou uma ilha do Pacífico apontada como o novo point.

Caso o sujeito se recuse a ostentar a lista de objetos considerados requintados, ele corre o risco de ser excluído, deletado do círculo social que estabelece como código de identificação certo nível mínimo de padrão de consumo.

Em suma, o sujeito passa a ser tratado como objeto. Duplo objeto: por se sujeitar à mercadoria e por ser rechaçado por seus pares. Porque no sistema consumista só é aceito quem transita despudoradamente no universo do luxo e do supérfluo.

Esse processo de desumanização estimula a obsolescência das mercadorias. Agora se produz para atender, não a uma necessidade, mas a um sonho, um desejo, um anseio de alpinismo social. O produto adquirido hoje – carro, computador, IPad – estará obsoleto amanhã.

Você pode até insistir em conservar o mesmo equipamento eletrônico, suficiente às suas necessidades atuais. Todos à sua volta constatarão o seu anacronismo. Você perdeu a identidade da tribo, que avança para a aquisição de mercadorias ainda mais sofisticadas, com design mais arrojado.

O único modo de ser aceito na tribo é ser revestindo dos mesmos objetos que, atuando como sujeitos, o resgatam do cinzento e medíocre universo do comum dos mortais.

Essa inversão do sujeito humano tornado objeto e do objeto transformado em “humano” ou mesmo “divino”. Isso se dissemina por meio da publicidade – que não faz distinção de classes. O apelo é igual para todos. Tanto o biliardário em seu jato executivo quanto o jovem da favela semianalfabeto sofrem o mesmo impacto publicitário.

A diferença é que o primeiro tem fácil acesso aos novos ícones do consumismo. O jovem absorve os ícones em seus embornal de desejos e reconhece o quanto ele é socialmente descartado e descartável por não se revestir de objetos que imprimem valor às pessoas. Daí a frustração e a revolta.

A frustração pode ser compensada pela sadia inveja dos espectadores de brilho alheio: leitores de revistas de celebridades e internautas que navegam atraídos pelo canto da sereia de seus ídolos. A revolta leva ao crime – “não sou como eles, mas terei, a ferro e fogo, o que eles têm”.

Haverá limites à obsolescência? Um dia a superprodução fará com que a oferta seja assustadoramente superior à demanda? Tudo indica que não. A indústria há tempos aprendeu que o consumidor é irracional, não se move por princípios, e sim por efeitos. É a emoção que o faz se aproximar do balcão.

Aprendeu também a fazer a produção acompanhar a concentração de renda. Já não se fabricam carros populares. Quem mais adquire veículos são as famílias que já possuem ao menos um.

Agora na pós-modernidade, as pessoas já não se relacionam, se conectam. Os encontros não são reais, são virtuais. Já não se vive em sociedade, e sim em rede. Ninguém é excluído, e sim deletado.

(publicado no Correio Braziliense em 19 de outubro de 2012)

Canção amiga

Eu preparo uma canção
em que minha mãe se reconheça,
todas as mães se reconheçam,
e que fale com dois olhos.

 

Caminho por uma rua
que passa em muitos países.
Se não se veem, eu vejo
e saúdo velhos amigos.

 

Eu distribuo um segredo
como quem anda ou sorri.
No jeito mais natural
dois carinhos se procuram.

 

Minha vida, nossas vidas
formam um só diamante.
Aprendi novas palavras
e tornei outras mais belas.

 

Eu preparo uma canção
que faça acordar os homens
e adormecer as crianças.

 

Carlos Drummond de Andrade

Receituário

De que fel preparava
as porções que servia?
O papel que rasgava
era eu que escrevia?
De que erva era o chá
que o bule fervia?
De que águas o mar
que cortava de fria?
De que sal o tempero
que azedava o meu dia?
De que fogo o luar
que furioso latia?
De que medos a tarde
mastigava e mordia?
De que arte marcial
o furor apreendia?
De que livro infernal
as lições consumia?
De que bem, de que mal
se chorava, se ria?
De que torvo quintal
suas flores colhia?

 Reynaldo Jardim (13/12/1926 + 02/02/2011)

Prêmio Jabuti 2010 – categoria poesia – Sangradas Escrituras

Um homem quando arrasta a sua alma

Eu não sabia, com exatidão, o que ele queria dizer com algumas daquelas frases ininterruptas. Frases que eram pronunciadas até onde o seu fôlego podia alcançar, e logo em seguida descreviam o mesmo arco assimétrico. Certamente ele não queria, não naquele momento, se explicar. Bastava que eu ficasse ali ao seu lado, e de preferência sem lhe fazer nenhuma pergunta.

Algumas frases eram plenas em significados e nesses momentos podia sentir a intensidade da dor que não era a minha. “As impossibilidades fazem crescer os cílios”, e eu ali querendo saber se os cílios cresciam nas noites insones ou, ao contrário, se desenvolviam na depressão das prolongadas horas que ele passava dormindo. E foi instintivo lhe oferecer um cigarro ao ouvir “coleciono guimbas no chão da minha alma”. Imaginá-lo guardando em si um número razoável de resíduos de coisas já consumidas, me entristecia. Apesar de saber que se bem me dispusesse a uma faxina, arrancaria da minha alma uma quantidade expressiva de enfumaçadas quinquilharias que corroídas pelo tempo já não significavam muito. Sabê-lo daquela minha maneira me deixava triste.

Na medida em que o garçom nos trazia copos e mais copos, sua voz ia ficando fraca e a língua se embaralhava dificultando a dicção: “roubaram da Terra a sua caixa de temperos”. Neste ponto fiz um esforço para conter a gargalhada: natural que o paladar fique comprometido após tantos cigarros e tanto álcool. Mas, na verdade, geralmente é o mundo que primeiro fica desenxabido e as pessoas recorrem aos paliativos na expectativa de preservarem o que muito provavelmente jamais lhes será restituído na íntegra.

No bar onde estávamos, soube depois, meu amigo era assíduo freqüentador e todos os garçons lhe dedicavam especial carinho porque por mais que bebesse nunca faltara ao respeito com ninguém. Era uma espécie de mascote e assim poupado das comuns zombarias que são direcionadas àqueles privados da plena capacidade de defesa. “Vejo passar a sorte com cachecol”. Ainda tentei um singelo “oi?” na esperança que ele repetisse a frase porque precisava distinguir se era a sorte que usava o cachecol ou era ele de cachecol que assistia a passagem da sorte. Espero que compreendam que depois de uma hora bebendo essa informação tinha muita relevância, mas felizmente a posterior sobriedade tratou de dissipá-la e não me ocupei mais com a indumentária do destino.

Nos despedimos quando ele, num esforço de concentração, tentou me encarar por alguns minutos e muito compenetrado, olhos nos olhos, disparou: “a paciência caolha bebe uísque em Dublin”. Eu me ajeitei na cadeira e chamei o garçom anunciando a “saideira”. Olhei para ele desconfortável com a hipótese do “caolha” me ter como referência. Paciência sempre tive e leve estrabismo trago de nascença, mas a associação dos termos, verbalizada daquela forma, me fez supor que a minha paciência não o satisfazia, me faltando um olhar mais apurado para a tristeza da sua existência. E Dublin estava tão longe, que somente um poeta seria capaz de nos deslocar para além das nossas próprias fronteiras.

(uma homenagem ao poeta Leonardo Marona)

Hora Certa

Um daqueles dias em que a sua agenda fica em posição de destaque na sua mesa de trabalho, recomendando a necessidade de acordar cedo para cumprir todas as tarefas caprichosamente escritas nas linhas do tempo que um fabricante produziu e você comprou. Mas aí, você no contra-fluxo da prudência, perde a hora e só vai abrir os olhos quando é certo, sem nenhuma possibilidade de contestação, que a vida já está atrasada no dia recém inaugurado.

E acelera os movimentos iniciais de uma sinfonia eletrônica: botão da escova dental elétrica, botão da cafeteira, botão do telefone para recuperar as mensagens deixadas na secretária eletrônica, botão do celular na conferência dos “torpedos” que o tem como alvo, botão do computador para inaugurar acessos, muitas vezes imprevisíveis e inadministráveis.

Naquela segunda-feira as primeiras horas de atividades já haviam consumido energia elétrica – e a minha própria energia – com uma avassaladora intensidade. Eu tentava compensar o tempo a mais que havia dormido. Como coisa que não me era dado o direito de nenhuma transgressão.

Foi na velocidade de uma tentativa de ser absolvida pelo tempo “perdido”, que folheando o jornal me deparei com a poesia, que teve um efeito bem parecido a de uma pedra lançada com toda força numa porta de vidro. E essa porta, sem nenhum ruído, espalhava no ar estilhaços, em câmera lenta:

Hora Certa
Não estou em atraso com nada,
nem mesmo tenho poema pra escrever.
Os compromissos foram todos suspensos,
os guichês se transformaram em bilheterias.
Olho o relógio e ele me oferece
qualquer tempo – noite ou dia -,
sempre estarei na hora certa,
a que me der na veneta,
que é o melhor ponteiro.
Apenas a vida se oferece a mim,
simples como desenho rupestre,
exata flor de estufa,
pontual como a morte.
Ronaldo Costa Fernandes
(A Máquina das Mãos – Editora 7Letras)

A precisão dos versos me apunhalou…. Era exatamente esta poesia que meus sonhos perscrutaram ao ponto de me aconselhar, na minha temporária morte, a perder a hora…

Olhei à minha volta: aquele seria mais um dia de fiel dedicação ao exercício da responsabilidade. Não precisava de uma investigação aprofundada para saber que os meus assuntos faziam parte de uma honrada irmandade mutuamente gerenciada pela praticidade e pela inutilidade. Para que mesmo a sensação da agenda cumprida? Para que mesmo tentar direcionar o mundo defendendo uma racionalidade que nunca coube no senso comum? Uma coleção de anos – muitos anos – no desempenho de funções que se desdobravam em outras funções, e assim sucessivamente, até alcançar uma nebulosa especialidade. Para que mesmo ser especialista em alguma coisa?

Era segunda-feira e a partir de uns versos, abri mão dos filamentos que sustentaram a minha percepção da vida até aquele dia. Foi necessária uma existência, praticamente inteira, para me dar conta que todas as avenidas oferecem duas calçadas, paralelas, para que cada um estabeleça o seu próprio caminho. Mudar de calçada era o cardápio único daquele dia. E a fome grande.

Viver já não cabia na rigidez de uns traços largos com que dia após dia eu riscava o tempo nos calendários. Listar compromissos e fazer o mundo girar com a sensação do dever cumprido, já não sustentava os níveis de satisfação a que me conformara. O outro lado da calçada me exigia suavidade, alegria, reduzir preocupações infundadas, experimentar algumas tintas de irresponsabilidade pela insubstituível simplicidade de poder contemplar o pôr do sol, em silencio.

Foi numa segunda-feira, cansada, que eu morri.

Carlos Drummond

Consideração do Poema from mira filmes on Vimeo.

O Instituto Moreira Salles em homenagem ao nascimento de Carlos Drummond de Andrade (31 de Outubro de 1902) lançou em seu site o filme “Consideração do poema” (acima) que reúne leituras de poemas de Drummond por ícones da cultura brasileira e entrevistas com grandes leitores da obra drummondiana.

A minha geração foi alimentada pelos versos de Drummond. Houve muitos que fugiam das maçantes aulas acadêmicas para, no refúgio da biblioteca, “conversar” com tudo que queríamos dizer – e ele dizia por nós…..

Uma bela homenagem, mesmo que modesta frente ao imenso legado que nos foi deixado.

Vídeo: vários poemas declamados

prá semana começar….

jardim 001

Hoje amanheci com aquela preguiça quase santa…. sem querer explicar nada….. só olhando o mundo pela fresta do arco-íris…..

“Na vida, as pessoas são ferramentas que não somente registram suas próprias biografias, mas também assaltam as alheias e as modificam, e às vezes de tal forma que fica impossível voltar atrás. E o mais improvável se mostra simples, somos seres humanos melhores quando outros nos desarrumam por dentro.”

Trecho do livro “Jardim de Agnes”   da escritora Carla Dias

Editora ‹SIC>

Recomendo a leitura desse livro pela elegância do estilo, pela intimidade que o leitor vai lentamente estabelecendo com os personagens, pela história que prende a atenção.

Vale a pena até mesmo ter que suportar aquela sensação de vazio quando a leitura terminar e deixamos de “conviver” com as personalidades que aprendemos a respeitar nas suas diferenças.

Loja de Amores Usados – Carmen Moreno

usado

O livro me chegou por correio quando eu estava saindo para justificar meu voto. Domingo é dia de votos… talvez por isso cometamos tantos enganos: selecionamos nossos empregados em dia sem expediente…. Bom, mas essa é uma outra questão. O livro chegou no domingo, início de tarde, dia ensolarado e ameno que sempre acontece depois da despedida da chuva. Levei comigo o pacote que me foi endereçado e autografado pela própria autora. Levei comigo vaidosamente o envelope pardo. E o título do livro, desde o primeiro contato, já podia me oferecer o risco do vôo.

E que viagem! E que viagem…. Apreciando a carícia das sílabas a cada verso, cada vez mais, a autora vai conduzindo a alma de quem lê como um berço preparado para acolher a beleza, pelo dom de usá-la como abraço, utilizando as palavras bem mais como beijo. A sempre bem intencionada bússola dos abraços que cruzando destinos, fustigando os sonhos com o risco de outros, muitos, assédios, faz com que o “sim” rejunte a fissura dos sorrisos, e o rio lave a secura das bocas.

E é essa Poeta que nos avisa a nunca reter na concha das mãos um punhado de mar porque a estranheza da vida se resume a ser às vezes beco escuro, às vezes bocas acesas! E nessa condição de amor largado no mundo, aprende-se a esquecer datas e nomes para lembrar a perdoar, limpando todo o lixo entranhado na história  e aquele que se instala sob a garganta. Investigando o verbo que mata  e o gesto que enterra, nos casais que não se beijam com o olhar. De palavra em palavra, restaurando cada vez melhor as mágoas no desamparo com que os chicotes atuam nas certezas. Afastando o poder dos olhos amedrontados com um riso equilibrista direcionado ao desgosto.

Só é possível agradecer o perigo da beleza que nos é oferecido por um coração trilhado por tantos, com suas pegadas incuráveis dos envelhecidos casos de amor, que se esbarram e se misturam, com suas semelhanças. Nos deixa assim, numa inquietação do silêncio, realçando o olhar solitário, onde se acendem incensos para defumar os sonhos que se convertem numa farra das sementes, para todos.

Que eternamente a caneta seja o recurso desta Poeta para coçar a alma permitindo o luxo de um pedaço de seda sobre a dor, enganando as moscas. Para que a nossa dor, volátil, migre para o invisível, rumo ao sol. Porque é espantando o pó dos medos que neste quintal provisório a gula de Deus em engolir amores é quebrada pela alegria de compartilhar os sentidos das palavras estiradas nas páginas dessa enorme Loja….

Obrigada!

Livro: LOJA DE AMORES USADOS – autora: Carmen Moreno – Editora Multifoco (Av. Mem de Sá, 126 – Lapa – CEP: 20230-152 Rio de Janeiro – RJ)