Rabiscando na Areia

Em 2019 eu recebi o livro “Rabiscando na Areia’ que me foi presenteado pelo autor com uma dedicatória simpática e humilde. O autor, Bento Barcelos da Silva, não o conheço pessoalmente mas dele me foi transmitida admiração a partir de um comentário aqui, outro ali, por parte de quem expressou privilégio de o ter como amigo.

Quando terminei a leitura do livro me veio a nítida impressão de que escrever é a tarefa mais fácil do mundo. E, convenhamos, um autor que consegue nos passar essa sensação é digno de todo respeito por ser detentor de um mérito que para mim é fundamental: clareza na exposição de suas ideias. O escritor que consegue me enganar sobre as turbulências do processo criativo – impedindo que eu me confunda nas suas palavras, evitando que eu me embaralhe nas dúvidas do seu pensamento, me poupando das hesitações que algumas palavras trêmulas assombram quem as persegue – me apresentando uma escrita limpa, objetiva, direta, tem, certamente, minha reverência e certa quantidade de inveja.

Falar sobre estilo, não tenho conhecimento, pretensão nem interesse de dissertar sobre. No que diz respeito a estilo só sei que gosto de uns e não gosto de outros. Pelas razões acima o estilo do Bento Barcelos me satisfaz plenamente. Naturalmente isso não implica concordância ampla com todas as posições de suas ideias. Felizmente, já que contestações devem ser encaradas como um efeito espontâneo a quem ousa divulgar seus pontos de vista. Mas quem consegue transmitir suas ideias muito claramente, facilita o exercício crítico do leitor. A isso agradeço com entusiasmo.

O livro é dividido em duas partes: a primeira parte se refere a fatos reais, históricos ou pessoais, que foram buscados na memória prodigiosa de quem os narra; a segunda parte é ficcional, identificada pelo autor como sonhos. Embora o livro tenha essa divisão a narrativa permanece idêntica, com o mesmo grau de envolvimento do leitor. Tudo se assemelha a alguém que se aproxima da gente, estabelece uma conversa, e levamos para casa um repertório de casos que nos levam a refletir.

Falar sobre o autor eu não deveria me aventurar, uma vez que não o conheço. Mas dizem que todo escritor deixa seus traços pessoais nas páginas que preenche. Assim, a insolência me faculta a imaginar o que me é desconhecido. Diria que Bento é um prosador, alguém que gosta de uma boa conversa, alguém que tem o dom da escuta, alguém que nos convida para um cafezinho no meio tarde e quando nos damos conta já é meia noite e ninguém viu o tempo passar. Tem um traço marcante que fica muito destacado nos textos: um amor cívico pela terra que o viu crescer (Torres-RS) e faz um esforço, entre didático e indignado, para que seus conterrâneos se apropriem historicamente do lugar onde vivem. Além disso tem uma transparente gratidão pelos autores que o inspiraram na redação dos seus textos (não sei se são contos, artigos ou crônicas – ou tudo junto). E esse reconhecimento não se limita às frias notas de rodapé: as referências inspiradoras estão colocadas ao fim de cada texto com a mesma honraria que tiveram os seus textos. Confesso que nunca encontrei um livro que tivesse tal diagramação. Gostei, gentil.

Enfim, só posso agradecer a generosidade. Tanto pelo envio do “Rabiscando na Areia” quanto do que recebi no mês subsequente: “Torres – História em Crônica”. Além do prazer na leitura, certamente permitiram enriquecer meu conhecimento histórico de uma maneira que muitos dos meus professores de História fracassaram ao tentar.

Muito obrigada !!