Leve e Suave

No dia seguinte ao meu aniversário o telefone tocou e era uma amiga querendo algumas informações sobre um aparelho a ser adquirido. E como nos é de feitio, as despedidas acontecem depois de salpicarmos gotas de bom humor sobre os fatos, muitas vezes desidratados, que entrelaçam as nossas vidas. Mas naquela ocasião algo de especial me foi dito ao término da ligação: “Você já se deu conta de que daqui a quinze anos estaremos com oitenta anos? Precisamos tomar algumas providências porque quinze anos passam num piscar de olhos”. Sobre o passar do tempo acho que todos com mais de sessenta anos são graduados, ou deveriam ser, com relação às prioridades a serem encaradas na vida. Creio que envelhecer bem deveria ser uma dessas prioridades.

Me foi impossível ignorar um dos possíveis sentidos da mensagem contida naquela observação. Imediatamente me veio à mente, como num filme, os mais de cinquenta anos de uma convivência, quase milagrosa, permeada de tolerância; de aptidão para valorização dos pontos comuns das duas personalidades; de confiança irrestrita apesar de algumas atitudes fugirem à nossa compreensão; de cumplicidade como naquela noite em que nos dispusemos a não dormir para esperar o Papai Noel, e fomos logo dissuadidas por argumentos peremptórios de um adulto que mais tarde soubemos ser ele um dos Papais Noéis que enfeitavam a nossa infância; por nossas divagações sempre muito artísticas sobre o que seria o futuro; por nossas projeções existenciais que eram assustadoramente sem limites até irmos crescendo e os limites cada vez mais estreitados ao ponto de muitas vezes nos sentirmos sufocadas, sem espaço; lembranças do primeiro emprego; do primeiro salário; das análises sem fim sobre os filmes de Ingmar Bergman que sempre terminavam com uma série de interpretações possíveis, mas sobre as quais nenhum empenho em fazê-las prevalecer sobre as demais; das tentativas sempre pacientes, perseverantes, querendo que eu viesse a apreciar esse tal do rock and roll quando eu sempre fui mais um banquinho e um violão pela música popular brasileira; de nossas confidências sobre tantos feitos que a vida caprichosamente nos devolveu em desfeitos; dos nossos sorrisos; das nossas lágrimas; da gratidão silenciosa por estarmos sempre presentes nos reveses que não foram parcimoniosos nem passíveis de adiamentos – sequer transferidos a quaisquer outros. A sugestão telefônica foi, então, pensarmos nas providências cabíveis para que o andamento natural das nossas vidas continuasse a ser belo e nos fizesse sempre manter contato com aquelas crianças abarrotadas de infinitudes que nunca foram rejeitadas por mais que a vida nos desafiasse a fazê-lo.

Um dia, muitos anos atrás, ela me veio com a ideia de futuramente recolhermos todos os nossos sobreviventes queridos em uma comunidade batizada de “Genoveva Ville”. Nessa aldeia da “melhor idade”, repleta de verde, repleta de luz, repleta de pássaros, repleta de riachos, repleta de uma imaginada felicidade, estaríamos todos lá tomando nosso chá à tarde, lendo nossos livros e os fazendo circular, acompanhando as variações das estações e delas os frutos dos diferentes plantios; alguns cachorros que saberiam rodear aqueles que mais os desejavam; muitas flores coloridas emoldurando as janelas de cada uma das – não sei quantas – edificações ocupadas individualmente pelos nossos amigos. E lá viveríamos felizes até que a eternidade viesse nos retirar da cena.

Sim, para chegarmos até lá providências são necessárias. A maioria é de foro íntimo, e aí reside a gravidade maior dos nossos problemas. Segue uma lista cujo cumprimento não executo a marca de um por cento (numa avaliação otimista de minha parte): fazer caminhadas ao raiar do dia; aproveitar as pracinhas públicas com aquele monte de aparelhos que parecem ter sido instalados na hipótese de virmos a disputá-los; uma alimentação balanceada, de preferência sob os auspícios de uma nutricionista; diminuir o café; eliminar a ingestão alcoólica, salvo aquela eventual taça de vinho em algumas refeições ou comemorações; periodicidade médica com a constância requerida pelas necessidades ocasionais ou permanentes; um pouco de sol naqueles horários do benefício; eu pedalar; você nadar; mantermos essa predisposição inabalável na certeza de que tudo passa e portanto, preservar ou restaurar o equilibro é lei natural das nossas vidas. Não, não coloquei de propósito o quesito “parar de fumar”, porque, felizmente, não nos é uma providência compartilhada e por ser de foro muito íntimo, é uma estupidez que posso diminuir mas nunca erradicar. Cada um é estúpido ao seu modo, afinal.

E, assim, podemos caminhar saltitantes na direção do “Genoveva Ville”. Desfrutar das idiossincrasias de uma mesma geração, compartilhando um espaço de convívio que imaginamos altamente harmonioso, povoado por seres que amamos e tendemos a acreditar, piamente, que daremos “um banho” em Shangrilá (o filme) e deixaremos Manuel Bandeira acanhado com as possibilidades idealizadas para Pasárgada. E aquele bando de velhinhos juntos, entusiasmados, felizes para sempre…

Agora só nos resta identificar quem será o Administrador do nosso “Genoveva Ville” porque, convenhamos, podemos muito, mas as inevitáveis consequências do tempo irão nos buscar por maior que seja o privilégio de estarmos rodeados de boas companhias.

Para M.M.C.

(uma versão “FM” do amor. A anterior foi “AM” e cheia de ruídos)