Caminhos caminhados e a caminhar

Meire1

Fonte: photographyfotografia.blogspot.com

Naquele ponto exato, a visão embaçada conseguia perceber os pedaços de tantos muitos destinos e a fina névoa que roçava as montanhas numa escalada, sem esforço, para atingir a altura plana do definitivo azul. Tirei as pesadas botinas e bati meus pés no chão rochoso. Foi preciso confirmar que era real a paisagem que inundava a minha alma. E a realidade era o peso do corpo arranhando os meus pés a cada passo inseguro naquele relevo irregular. Um sorriso largado no mundo foi o que de melhor pude oferecer frente à visão inesperada depois de tantas horas caminhando.

O absoluto estava instalado. Por onde Andes no sul dessa América o risco é iminente de esbarrar,  inadvertidamente, nas quase trágicas percepções do absoluto. É quando a visão suspende a sua respiração e você é tragado pela incontestável confirmação que a natureza não pressupõe nenhuma espécie de hierarquia: as curvas do caminho, a pedra sob os meus pés, o capim crescido na aridez do solo, o vento, as montanhas na sua exuberância, eu no vão do mundo, a névoa fria e fina, as demais existências que ali se abrigam mesmo que imperceptíveis na limitação do meu olhar…. estamos todos cumprindo o tamanho da energia que conseguirmos captar do absoluto que nos reúne no banquete da vida.

O trágico disso tudo está na intensidade com que essas visões relativas nos atingem: roubam a respiração, deixam em suspensão os pensamentos, desequilibram as experiências lógicas… O tamanho da nossa surpresa e do nosso encantamento é a drástica confirmação do quanto nos colocamos distantes das energias que poderiam nos ajudar a contribuir com o absoluto e a ele pertencer sem que nenhum espanto nos domine.

E nos assustamos na delicadeza do deslumbramento porque nossa energia está canalizada para uma extraordinária liquidação de objetivos. Nossas aspirações, muitas vezes, empaca a meio caminho e embota os sentidos nos fazendo desejar todos os requisitos – incluindo os dispensáveis – que alimentam a vida prática: as tecnologias mais avançadas, as exigências de beleza menos compatíveis, as inutilidades ditadas exclusivamente pela ostentação….. Todos esses passos só fazem aumentar nossa perplexidade quando o absoluto nos prende pelo olhar e nos acena, convidando a uma repaginação da vida em profundidade absoluta.

Tomara então que cada vez mais as percepções relativas do absoluto não me sejam tão extraordinárias e que nelas eu me inclua com a naturalidade de ser apenas mais um elemento no conjunto das demais importâncias.

Obrigada Meire Ruiz e

Obrigada Diderot Lopes.

2 Comentários até agora.

  1. Tania disse:

    Engraçado vc postar isso hj. À tarde, navegando na rede, soube da morte de um escalador experiente, brasileiro, no Fitz Roy. Fiquei imaginando as horas dele lá, sozinho, ferido, toda aquela beleza empanada pelo desespero da ajuda que não poderia chegar. A família decidiu não resgatar seu corpo. Que lindo, que trágico. Que coisa tão na contramão da gente. Um lugar como esse (da foto), as palavras que vc escreveu, a vitória do Fitz Roy, mostram nosso pequeno lugar no mundo. Como diria Fernando, que tenhamos a alma com que ver a vista clara. Obrigada! Beijo

  2. Meire Ruiz disse:

    Fiquei encantada…simplesmente lindo, lindo…