Os pés no céu

Reflexão

http://pharaonx.blogspot.com (fonte da foto)

Bom dia tristeza. Sirvo café para a saudade. Corto o pão para a nostalgia: compartilhamos migalhas e pensamentos. Repasso, passo a passo, todos os cômodos tentando aprender a ler o sentido das estruturas que não se expõem ao abraço da chuva. Mobílias que revestem uma das minhas peles de existir. O cansaço cobre com uma fina camada de poeira os contornos, embaça a imagem no espelho, confunde formas na minha visão. Atravessando corredores, abrindo portas, desbravando gavetas, em tudo a voz de pai-e-mãe nos gestos do menino e da menina que diminuíam sem alarde, enquanto o universo crescia sem ostentação, vida adentro. Coisinhas pequenas (um quadro na parede, uma rolha de vinho, um papel de presente…) compondo a textura íntima, particular. Coisas inúteis que aos poucos, sem nenhum êxito, tentam fazer reverência ao essencial. Tentam provar que existo quando são falsos os vestígios a que se apegam. Meu sorriso se espalha, invadindo a luminosidade cinza dos detalhes: o mistério, a despeito da minha cobiça, sempre restará preservado. Em vão qualquer esforço para dele arrancar compreensão.

Sigo o roteiro do acaso sem nenhuma pressa de eliminar os descuidos. Nessa viagem do silencio, por ousadia ou pelo hábito de ser rascante, transcendo todas as possibilidades do espírito – se espírito houver -, todas as miragens de deus – se deus houver -, e retorno à matéria – certeza do princípio e fim em si mesma -, com a mesma naturalidade com que meus pés se apossam das nuvens que o rio reflete. O impossível me toma as mãos, me lava de mim, me leva nos braços, me acarinha os pés nas pedras roliças talhadas na água do tempo. Sem os adereços da individualidade, sou mais um bicho tentando lidar com a proposta de sobreviver das ocasiões em que as oportunidades se oferecem. Absoluto. Íntegro. Sem as tolices de maiores importâncias. Por defesa, os instintos básicos sem nenhum requinte.

Agora, desprovido das soberbas qualificações a que se atribuem os humanos, abro as memórias e vou ao encontro da chuva. Afogo as lembranças da pessoa que eu mesmo construí. Me lava, me leva. Mergulho nas águas todas as emoções e me desprendo da loucura do sentimento. Sou ar, terra, sol, água. E a respiração do mundo bem acomodada no alcance da minha energia é onde descansa e se traduz o amor. Fora tudo isso, o silencio que é proteção de mãe e benção de pai na responsabilidade da natureza, se propaga na indestrutível paz  do universo. E os dias correm, dentro de uma inteira felicidade, no movimento incansável da carruagem devolvendo o sol e trazendo a lua: luzes que se revesam no caminho.

Plena de tudo, eu retiro meus pés da intimidade do rio. As flores miúdas que crescem à margem do traçado da água, me sorriem na combinação do verde com o azul, em nome da beleza do dia que dentro de mim se despe na proximidade da noite.

2 Comentários até agora.

  1. Lívia Gomes disse:

    Veroca, com saudade de vc, entrei aqui para apreciar as suas doces, leves e delicadas palavras.
    Beijocas sempre,
    Lívia