Fresta do Tempo

TEMPO

Quando eu fui embora daquela cidade, a noite ainda não tinha acontecido.

Acreditava que chegaria ao destino inundado de luz

Teria nitidez nos olhos e na alma – para as armadilhas que os lobos devem evitar.

Teria o horizonte claro para desenhar a nuvem que definisse o meu céu.

Quando fui embora daquela cidade, a bagagem era leve e cabia dentro de um sorriso

Sapatos novos e macios, perfeitos a quem se põe no caminho

Uma dúzia de intenções, sempre boas para a fome dos sentidos

Uma disposição ingênua, valente, como convém aos vinte anos.

Quando eu cheguei aqui, a noite não permitia qualquer reconhecimento

O pó e a estrada estavam inteiros na secura dos olhos, cegos no escuro de mim

Os pés sangrando ausências que não se mede em distâncias

As mãos vazias, os sentimentos desocupados, as saudades esmaecidas.

Quando eu cheguei aqui já passava muito da metade, praticamente no fim.

E foi assim que entendi que a vida só pulsa quando resgato os pedaços de tudo que sou

Quando reconstruo o menino perdido nas curvas do tempo

E lavo a alma, desprovida de qualquer pudor, na inteira inocência que mora em mim.