Dublê

PoesiaReunida

“Quem dera eu pudesse contratar um dublê

para terminar certas cenas por mim.

Martha Medeiros

Perfeito! Deixaria ao dublê todas as cenas que nenhum pop star gostaria de encenar (sejam elas na privada batalha do ego, sejam elas na cena aberta ao mundo). Meu dublê certamente teria um trabalhão, iria me cobrar horas extras  e estaria rapidamente com a vida ganha. Ganha a vida que seria minha.  Mas isto é outro comentário….

Deixaria meu dublê entretido em administrar, divertido, todos os meus ridículos, flagrados distraidamente na surpresa dos outros.  A isso gostaria de assistir. A ele cabaria romper todas as relações em que o amor se desencontrou daquilo em que um dia acreditou.  Mas que o doublê por mim também vivesse os sentimentos que alinhavam as separações. Me deixasse apenas um futuro bem leve, sem ransos, sem danos, brejeiro e faceiro. Disponível e disposta a novas apostas de eternidade, que me parecem sempre transitórias. Meu doublê podia lidar com todas as questões financeiras (de preferência com recursos também em doublê) me deixando apenas a fatia dos benefícios. Doublê: lavar roupa, limpar a casa, tirar o pó dos bibelôs, passar roupa, Senhor!, passar roupa, lavar louça, encarar filas, enfrentar trânsito quando eu estivesse atrasada para algum lugar.  Para complementar os termos da contratação, se apresente nos meus ódios sinceros, nas minhas indignações patrióticas, nos meus ciúmes emocionados e a atabalhoados.

Caberia a mim cultivar rosas sem espinhos, beber sem os riscos de ressaca, amar sem a ameaça da perda. As luxúrias e os luxos ficariam todos comigo….

Hummmm….. Urgente uma revisão de contrato. Vida em pedaço é muito chato……

(para Jandiara que compartilhou os versos comigo… e rimos…)

Um Comentário até agora.

  1. Daniele Lessa disse:

    Olhe, eu desconfio que a gente tenha uma variedade vasta e interessante de dublês. Só que eles cometem a indelicadeza de contar aos outros o que se passa, contar de solidões e constrangimentos, fazer relatórios detalhados que relações que se desatam e nós que se atam (por dentro, quase sempre). O ideal é que os dublês cuidassem tão direitinho de seu trabalho que nenhum outro ficasse sabendo de nada. Mas isso ainda não inventaram. Ou até inventaram – o artista por vezes consegue fazer isso. E até respira e se ri do mundo quando vive sua esquizofrenia tão necessária.
    Que siga compartilhando seus dublês ;-)
    Abraços,
    Daniele