Visões


A noite ia alta e eu assistindo a transmissão do Stevie Wonder se apresentando do Rock In Rio. De repente os acordes iniciais (lindos) me transportaram para um tempo iluminado com a mesma emoção que me arrebatou a fotografia do filme “A Árvore da Vida”. Um tempo que estava adormecido em uma das curvas da memória; espaço que a visão não alcança na reta que a antecede. E foram lembranças que sorriram para mim em detalhes sutis que vieram em refrescantes marolas brincando com os pés em uma tarde de verão.

Foi um tempo vivido na época da universidade. Quando as escolhas não eram definitivas e a generosidade da vida ainda concedia uma segunda ou terceira chances. Eu empreendia uma meticulosa tarefa de forrar as paredes do quarto de uma inexistente empregada, com imagens recolhidas de jornais e revistas que hoje já nem existem mais. Um painel instigante do caos onde inimigos permaneciam lado a lado sem nenhuma intenção bélica; intérpretes de gêneros musicais diferentes pareciam juntos numa mesma inimaginável canção; palavras cuidadosamente escolhidas lançadas à importância que continham em si mesmas; cores e formas que procuravam os melhores destaques e buscavam quem as pudesse interpretar naqueles ângulos insólitos que as reuniam. No centro daquilo tudo era onde eu vivia, ou passava a maior parte dos meus dias. Lembro que foram meses sequenciais na construção daquele isolamento povoado por celebridades e palavras selecionadas para conviverem comigo silenciosamente, cenas flagradas no respirar de um instantâneo cuja intenção o tempo engoliu.

No meio daquele minúsculo mundo eu coloquei uma mesa com a máquina de escrever “Underwood” . Esta máquina me obrigou a fazer um curso de datilografia só para tentar acompanhar a velocidade dos meus pensamentos, muitas vezes desalinhados e fragmentados na mesma proporção daquelas paredes revestidas. Também havia uma cômoda repleta de papéis e sobre ela uma vitrola e vários longplays enfileirados, aguardando a trilha sonora de cada momento. E foram muitos os momentos dentro daquela caverna platônica repleta de imagens que se reversavam na minha atenção; eu hipnotizada pelos detalhes ficava horas observando os fragmentos de muitas histórias que revestiam as paredes.

Não faltaram momentos solenes naquele espaço. E sempre que escolhia dentre os vinis o álbum “Innervisions” do Stevie Wonder, era obrigada a interromper tudo e me deixar ser transportada, faixa por faixa, para um espaço transformador:  aquele quarto, porção mágica, feitiço melódico de voz e acordes . Lado A e  B cúmplices do sentimento que conseguiam uma edição diferenciada de mim mesma. Um longplay gravado em 1973 que tive a sorte de ser atraída por ele apesar das minhas preferências sempre me levarem para a música brasileira. Por muitos caminhos a música Visions conduziu meus pensamentos: sempre foram estradas ensolaradas, floridas, de intenções realizadas, perspectivas capazes de assentarem algumas promessas, tudo muito leve, suave, possível…..

Trinta e oito anos depois, muitos ritmos percorridos, muitos sentimentos depurados, muitos pequenos mundos reordenados, Stevie Wonder, me coloca na trilha lá atrás, no início do caminho que escolhi para mim. E meu sorriso passeia pelos acordes das lembranças e as visões permanecem nítidas reconhecendo nos meus movimentos as canções da sinfonia do meu tempo.

Um Comentário até agora.

  1. Tania disse:

    Menina, que post mais lindo. De fato, não conhecia essa música do Stevie. Sua narrativa, tão leve como “refrescantes marolas brincando com os pés em uma tarde de verão” me transportou para o quartinho também! Felicidade.
    Beijo