Viver é tão impreciso…

Foto: Tânia Salgueiro-Fev 2011

Impossível dizer alguma coisa. Seria inútil tentar traduzir o outono espalhado na paisagem. Deixei assim, que a geografia descansasse nos meus olhos as últimas carícias da luz. Minha intimidade com as nuvens se dava a uns 10 mil metros de altura, hóspede na casa dos sonhos, as inseguranças agora se concentravam em se ter os pés no chão. Lá em cima a perspectiva da vida transgredia em extensão.

Em poucos minutos estaria no plano inverso, lidando com espaços fragmentados, me esgueirando nos intervalos das formas que se multiplicam a cada passo, ricocheteando meus pensamentos nos estímulos que se revezam nas viradas dos minutos, meu olhar obstruído pelos edifícios, pelo trânsito, pela sucessão de corpos indo e vindo nas confusas direções.

Lá do alto, o mapa-múndi de uma possível identificação da minha vida, era um coágulo de paz que não conseguia estancar a erosão dos meus sentidos, viciados em urgências, em providências, em informações, em decisões. As muitas justificativas imprensadas nos calendários me impelem a manter a visão na estreiteza dos momentos, que vão sendo substituídos por um efeito estroboscópico desalinhando sentidos. Tantos pedaços abandonados na respiração dos dias para tudo se resumir a uma cultuada displicência com a vida. A sedução pelos detalhes me fez assim: trechos amontoados arrastando a melancolia da diversidade. Coleção de sentimentos, pensamentos, impressões, sensações, que o cérebro insiste em desconhecer naquela reordenação singular de pedaços tão comuns a tantos. A carruagem das décadas, o automóvel dos anos, a bicicleta dos meses e os pés nos dias, me levaram para perto do silêncio e me fazem conviver com a solidão, que é uma reserva sem domínio que me acompanhará pelo tempo de existir. Esta individualidade sobrevivendo meio a tantas outras, despeja sobre a minha pessoa a angústia entulhada de finalidades que não se encaixam, que não se entendem, que procuram a cada lampejo do momento uma afirmação que fique assentada e que cumpra o seu destino sem duvidar de si mesmo.

Estremeço. Lentamente a luz vai se afastando e a sombra se espalha pelo outono. Alguém me adverte sobre a necessidade de me manter imóvel na despedida das nuvens. As minhas possibilidades amarradas a um rito de passagem que me levará novamente às estreitas perspectivas de sempre. Os pés no caminho superam com dificuldade o cansaço de seguir em frente sem nenhuma indicação de aonde chegar. Viver é tão impreciso…

2 Comentários até agora.

  1. Tania disse:

    Tão bonito e preciso. Fico imaginando quantos de nós carregam os mesmos “trechos amontoados arrastando a melancolia da diversidade”…
    Voltarei ainda no verão.
    Beijo

  2. Brotosaurus disse:

    Trilhar o caminho. É isso!!!