Safári de si mesmo

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Ficou olhando aquilo tudo a sua frente com certa irritação, um incômodo que afetava o humor. Havia caminhado quatro horas seguidas, só naquela manhã, e incontáveis dias por caminhos desconhecidos, áridos, desabitados, lidando com geografia seguida de geografia, para dar de frente com aquela provocação em forma de cordilheira.

Iniciara a peregrinação para se afirmar como pessoa, para descobrir a sua importância. Dias e dias, meses arrastados pela exclusividade dos sons da natureza e ainda não aprendera a linguagem dos ventos e não conseguira considerar-se superior às montanhas, nem sequer às tímidas e exóticas germinações, quase imperceptíveis, que enfrentavam um solo arenoso se impondo à vida. Agora aquela muralha que interceptava o seu caminho se desdobrando em várias tonalidades, numa brincadeira de luz e sombra a que não tinha acesso por mais que se esforçasse em entender. Para enfrentá-la, menos raciocínio e mais resistência física para percorrer os contornos irregulares que talvez tenham atravessado milênios só para dificultar a passagem de um homem que seguia obstinadamente a direção Norte indicada na bússola – única companhia admitida no trilhar daquele caminho.

Sentou-se na parte plana e ficou observando altura e profundidade das cores e formas a superar. Riu lembrando que cinco meses atrás rodara a bússola em torno de si mesmo e optara pelo Norte apenas porque a geografia o seduzira lhe apresentando uma silhueta que indicava facilidades em ser possuída. Riu mais ainda quando se lembrou que de onde viera havia esperado oito anos para ver nascer uma tangerina no pé; quando enfim o fruto surgiu, ele se sentiu intocável por qualquer acontecimento ruim já que a natureza lhe permitira testemunhar o primeiro fruto. Dias depois sua mãe morreu. Ele não sabia que para ter tangerinas por alguns meses do ano sua mãe teria que deixar de existir… Os arbítrios não são livres; mas o que é mesmo liberdade?… Depois vieram outros episódios igualmente estranhos, instruídos por improváveis circunstâncias, que o fizeram desistir de compreender porque ficou ocupado demais tendo que lidar com o impacto que eles lhe trouxeram. Agora aquela cordilheira, que a manhã inteira se manteve encoberta pelas rajadas de areia, de súbito, se interpõe no Norte que lhe é dado a trilhar.

Ah, mas não seria aquele idoso aglomerado de minerais que iria interromper, por desistência, os cinco meses devotados ao caminho. Mesmo não sabendo aonde chegar, nada o impediria de seguir para o Norte. E dane-se se o mundo é redondo, o que importava era a reta ornamentada de altos e baixos até o outro lado da cordilheira, impassível e silenciosa, indiferente à irritação que causava no andarilho. Deu um chute no chão levantando algumas pedrinhas e muita areia; olhou de canto de olho para a montanha e poderia jurar que ela se divertia dele.

Se apressou porque perdera quatro horas do dia até chegar ali e não queria dar vantagem para a montanha: iria fazer o percurso naquele mesmo dia. Descansar só lá, aonde a vista não alcançava as incertezas do destino. Começou a escalada.

E foi um tal de sobe um pouco e escorrega um tanto, de perder o fôlego, de transpirar ao ponto de arder a visão turva, de se arranhar, de doer a perna, de praguejar contra a natureza (não a própria), de ranger os dentes. A noite chegara e com ela uma friagem sentida nos ossos, apesar do esforço em se manter na constante disputa com a ancestral formação rochosa e a natureza dos seus pés à disposição do caminhar. Nada o fazia interromper, hipótese que não passava pelos filamentos nervosos preenchidos por uma espécie de ira santa que o fazia ir em frente, esbravejando, e isso o impulsionava mais e mais.

Levou praticamente a noite inteira atravessando a cordilheira. Ainda no frio escuro da alta madrugada, finalmente alcançou chão plano. Completamente trôpego, descompensado ao extremo, metabolismo levado à exaustão das possibilidades, ele se virou na direção da montanha, que não conseguia enxergar, e falou muitos palavrões. Delírio da felicidade. Vitorioso, mesmo que invisível a luta entre ele e as sucessivas montanhas derrotadas pela obstinação dos seus pés que bem entendiam de Norte, não tendo ninguém a quem submeter o poder de sua gloriosa conquista, ele mais uma vez desfrutou da própria fúria e execrou a humanidade (à exceção de si mesmo), lembrando-se dos muitos covardes, dos tantos submissos, dos demais derrotados… a todos os humanos, a sua indiscutível superioridade! E pouco importava se naquele momento não houvesse ninguém a testemunhar a majestade do seu feito. Depois disso caiu no chão. Mas aquele era o chão que poderia confirmar o seu sucesso.

Esse homem só foi encontrado muitos anos depois, apenas por um descuido qualquer já que ninguém por ele procurava. Uma ossada sem nenhum interesse para a paleontologia. Um transtorno desencadeando uma série de providências sem nenhuma inspiração nobre. Instigante mesmo, foi a bússola encontrada na mão do morto: resistiu ao tempo e permanecia disponível, apontando todas as direções. Só bastava que alguém escolhesse qual a direção tomar para si.

 

Um Comentário até agora.

  1. Tania disse:

    A cordilheira, como o deserto, tem seu preço, querida. beijo