Melancólica ingratidão

Quando ele se recuperou da enfermidade sem nome, que chegara sorrateiramente, lhe roubando as forças, turvando o raciocínio, lhe deixando incapacitado para as tarefas mais simples, o que sentiu não foi alegria, ou alívio, mas uma melancolia indefinida, perdida no foco.

Passara dias arrastando seu corpo num instinto primário de sobrevivência nos intervalos em que os calafrios lhe permitiam um pouco de fôlego por sobre a incompreensão do que lhe acontecia. Buscara identificar o que havia provocado tudo aquilo, mas não encontrara nada de extraordinário no ritual dos dias que justificasse tanta falta  de apetite, tanta aversão ao café, tanta parcimônia na vontade de acender os cigarros. Se deslocou até o supermercado e trouxe para casa uma variedade mínima de frutas, na hipótese de que o seu organismos estivesse reivindicando algumas vitaminas naturais a que não recorria com frequência. E foi um tal de comer maçã, seguida de mamão, com continuidade na laranja e na banana, que só o levou a permanecer mais tempo no banheiro, obrigando a administrar um incômodo a mais.

O fato é que na tarde que poderia ser igual a tantas outras, lhe trouxe a surpresa da cabeça não estar mais lhe pesando sobre o pescoço, nem precisava mais se proteger das desavisadas crises que lhe faziam ranger os dentes, independente da quantidade de edredons que não o resguardavam do frio que deixava dormente pés e mãos. Enfim, parecia recomposto e quando percebeu que o mundo parecia enquadrado na ordem natural das coisas, uma melancolia atravessou qualquer hipótese e se instalou nele sem nenhuma cerimônia.

Ficou algumas horas investigando a origem daquela melancolia. Afinal, restabelecido, conseguia ler o jornal na íntegra, sobretudo as pequenas notas que muitas vezes causam maior assombro que as manchetes; conseguia arrumar seus papéis na ordem do sem ordem que somente ele era capaz de entender; conseguia discorrer sobre um tema mantendo certa coerência de raciocínio sem se perder nos muitos ângulos da percepção; conseguia lidar com as obrigações com a eficiência cívica que o distinguia como um homem de muita responsabilidade. Enfim conseguira manter o ritmo e constância dos cafés acompanhados por muitos cigarros.

Levou muito tempo, até enfim entender que estar completamente recuperado implicava a convivência com a melancolia. Bastara alguns intermináveis dias para esquecer a companheira fiel que sempre lhe indicou os caminhos. Bruta ingratidão!

7 Comentários até agora.

  1. Tania disse:

    Nossa… que triste. :( beijo beijo beijo

  2. Kelly disse:

    Melancolia, a perda sem nome, sem definição…
    Somente o símbolo dela.
    Falta.
    Essa falta é a sumidade de si mesmo ao encontrar com o eu, e permitir os mais belos caminhos da auto crítica. Talvez, e por isso, seu amigo soube que deu conta de arrumar as coisas que meramente lhe são possíveis.
    Vale a pena deixar a dica de assistir o file de Lars von trier – melancolia.

    Saudades.

  3. Vera Menezes disse:

    Oi amiga, este filme está aqui na minha lista do “a fazer”…. listinha melancólica de grande…..
    Saudades também.
    Bjs

  4. Kelly disse:

    Estou ansiosa para ler teu olhar sobre o filme… te confesso (e não poderia ser diferente, comigo) que a identificação foi imediata… e o sintoma instantâneo. rsrsrsrs…ainda bem que não vendem 38 na barraquinha de saída do cinema rsrsrsrs

  5. Vera Menezes disse:

    Caramba Kelly! Então o filme é daqueles que a gente se arrasta pela vida depois……. ai,ai…

  6. Brotosaurus disse:

    Bem…

    Como disse fiz uma cópia para você. Sá falta agora entregar. Imaginei que fosse acontecer ontem.

  7. Vera Menezes disse:

    Pessoa, eu estou tipo “deixa a vida me levar”….. minha agenda e calendário estão no olho do furacão….