Melancholia

Não foi um filme que me arrebatou. E mesmo sem me arrebatar fez uma ventania danada nas minhas emoções, me deixando em silencio dias seguidos, fixada em algumas imagens e flutuando em determinados acordes da trilha sonora. Enfim, deu-se a dimensão do título em estado particular da experiência.

Tudo é inevitável e a transformação é o princípio da inevitabilidade. Talvez este seja o universo percorrido por Lars Von Trier, com mais intensidade nas imagens que se movimentam de uma forma extremamente lenta, como se quisessem nas frações milionésimas dos segundos a revelação dos sentidos que inevitavelmente permanecerão turvos para qualquer explicação. Toda transformação pressupõe a efetivação de algo novo. Toda novidade apresenta-se a partir da eliminação do que era conhecido. Aqui a primeira encruzilhada: ou exaltar a chegada da transformação, ou amargar o peso da perda. Lars Von Trier não se aventurou na direção da novidade; contou a história na perspectiva do que inevitavelmente se perde.

O que acontece quando a perda é uma inevitável iminência? Coloca-se no superlativo todos os atributos daquilo que não irá mais permanecer. Só que desta maneira, a grandiosidade torna tudo mais pesado diante do seu inevitável fim: “o maior carro e o mais luxuoso deles” é inútil para uma estrada sinuosa e estreita; “a festa de casamento mais cara” é vã se não houver motivação de felicidade; “um castelo com um campo de golfe de 18 buracos” é um exagero sem propósito quando a família é pequena e ninguém pratica golfe. Prevalece o peso da dor apesar da sombra frágil da esperança – “balões facilmente inflamáveis” -, na escura noite das tensas incertezas de um processo que conduzirá ao inevitável fim.

Justine (Kirsten Dunst) é a consciência do inevitável fim de tudo. Ter consciência é, com muita frequência, uma aguda sensação de estar deslocado do senso comum. À parte – ou numa parte diferenciada – Justine não se encaixa no mundo e passeia o olhar com o desespero de lhe ser inevitável – por mais que se esforce na direção contrária – a interdição de um pertencimento social.

Claire (Charlotte Gainsbourg) é a guardiã – até onde lhe for possível – dos bons hábitos, das boas maneiras, dos bons comportamentos, dos timbres elegantes, adequadamente alinhados e pactuados às convenções sociais. E a sua intensa manifestação de amor é uma inevitável frustração por sempre tentar inserir seus entes queridos no cenário cujos valores, sem nenhum esforço, ela os tinha em perfeita estabilidade.

Mas a transformação é inevitável, e seja lá em qual dos mundos nós estivermos, é certo desaparecermos nele e para ele. Quando ao ser humano lhe foge o controle, pode surgir algum lampejo promissor de autenticidade. Quando tudo lhe for uma novidade – incluindo a si mesmo – não mais lhe sendo conveniente o modo de atuar adotado até então, obrigado a se “despossuir”, talvez, nem que por pouco espaço de tempo, uma fagulha da ordem cósmica lhe seja generosamente disponibilizada, até ocorrer o próximo inevitável, naturalmente.

Justine e Claire se deslocam frente ao inevitável. Justine até então acuada pela depressão de não mais se reconhecer no mundo onde todos transitavam com desenvoltura, assume o comando, mesmo que improvisado, quando o que parecia ser delírio se apresenta como realidade. Por outro lado, Claire ejetada do mundo que lhe era especialmente familiar e compreensível, se desespera quando nenhum dos seus instrumentos e habilidades poderá preservar as regras vividas até aquele momento.

De olhos abertos ou fechados, é mais provável que não tenhamos a quem dar as mãos na inevitável transformação do nosso momento, enfim, definitivo.


 

2 Comentários até agora.

  1. Kelly disse:

    Com certeza, se tivesse lido algo assim após ter visto o filme teria dado jeito no 38 kkkkkk Eu, extremos inevitáveis…..mas, a caminho da mudança… Pra que?, Por que? e Onde isso vai dar?…em novamente…e lá vai, história comum a todos:….desejo nasce, cresce, nem sempre cria asas, mas escapa e nasce em outro….e… melancolia..

  2. Vera Menezes disse:

    É por aí Kelly…… lembrando que os frágeis balões da esperança, mesmo frágeis, sempre nos acompanham….