Conferência de Mia Couto em Estoril

Compartilho com vocês um excelente texto (Murar o Medo) proferido por Mia Couto em uma Conferência sobre Segurança, realizada em Estoril (Portugal) neste ano de 2011. Além de ser um texto que estimula a reflexão sobre o entendimento do que seja segurança, é bastante provocativo quando tenta chamar atenção para alguns equívocos fáceis de serem cometidos em nome da segurança. Espero que apreciem:

 O medo foi um dos meus primeiros mestres. Antes de ganhar confiança em celestiais criaturas, aprendi a temer monstros, fantasmas e demônios. Os anjos quando chegaram, já eram para engordarem. Os anjos atuavam como uma espécie de agentes de segurança privada das almas. Nem sempre os que me protegiam sabiam da diferença entre sentimento e realidade. Isso acontecia, por exemplo, quando me ensinavam a recear os desconhecidos. Na realidade a maior parte da violência contra as crianças, sempre foi praticada, não por estranhos, mas por parentes e conhecidos. Os fantasmas que serviam na minha infância reproduziam esse velho engano: de que estamos mais seguros em ambientes que reconhecemos. Os meus anjos da guarda tinham a ingenuidade de acreditar que eu estaria mais protegido apenas por não aventurar para além da fronteira da minha língua, da minha cultura e do meu território. O medo foi, afinal, o mestre que mais me fez desaprender.

Quando eu deixei a minha casa natal, uma invisível mão roubava-me a coragem de viver e a audácia de ser eu mesmo. No horizonte vislumbravam-se mais muros do que estradas. Nesta altura algo me sugeriu o seguinte: que há neste mundo mais medo de coisas más do que coisas más propriamente ditas. No Moçambique colonial onde nasci e cresci, a narrativa do medo tinha um invejável casting internacional: os chineses comiam as crianças, os chamados turistas lutavam pela independência, e um ateu barbudo com um nome alemão. Esses fantasmas tiveram o fim de todos os fantasmas: morreram quando morreu o medo. Os chineses abriram restaurantes à nossa porta, os ditos turistas são hoje governantes respeitáveis, e Carl Marx, o ateu barbudo, é um simpático avô que não deixou descendência.

O preço dessa construção de terror foi, no entanto, trágico para o continente africano. Em nome da luta contra o comunismo, cometeram-se as mais indizíveis barbaridade. Em nome da segurança mundial foram colocados e conservados no poder alguns dos ditadores mais sanguinários de toda a História. A mais grave desta longa herança da intervenção externa é a facilidade com que as elites africanas continuam a culpar os outros pelos seus próprios fracassos. A guerra fria esfriou, mas o maniqueísmo que a sustinha não desarmou, inventando rapidamente outras geografias do medo a oriente e ocidente. E porque se trata de entidades demoníacas, não bastam os seculares meios de ordenação, precisamos de intervenção com legitimidade divina. O que era ideologia passou a ser crença, o que era política tornou-se religião, o que era religião passou a ser estratégia de poder. Para fabricar armas é preciso fabricar inimigos. Para produzir inimigos é imperioso sustentar fantasmas. A manutenção desse alvoroço requer um dispendioso aparato e um batalhão de especialistas que, em segredo, tomam decisões em nosso nome. Eis o que nos dizem: “Para superarmos as ameaças domésticas, precisamos de mais polícia, mais prisões, mas segurança privada, e menos privacidade. Para enfrentarmos as ameaças globais precisamos de mais exército, mais serviços secretos, e a suspensão temporária de nossa cidadania”. Todos sabemos que o caminho verdadeiro tem que ser outro. Todos sabemos que esse outro caminho poderia começar, por exemplo, pelo desejo de conhecermos melhor esses que de um e de outro lado aprendemos a chamar de “eles”. Aos adversários políticos e militares, juntam-se agora o clima, a demografia e as epidemias. O sentimento que se criou é o seguinte: a realidade é perigosa, a natureza é traiçoeira, e a humanidade é imprevisível. Vivemos como cidadãos e como espécie, em permanente situação de emergência. Como em qualquer outro estado de sítio, as liberdades individuais devem ser contidas, a privacidade pode ser invadida, e a racionalidade de ser suspensa. Todas essas restrições servem para que não sejam feitas perguntas, como por exemplo, estas: Por que motivo a crise financeira não atingiu a indústria de armamento? Por que motivo apenas no ano passado se gastou um trilhão e meio de dólares em armamento militar. Por que razão os que hoje tentam proteger os civis na Líbia, são exatamente os que mais armas venderam ao coronel Kadafi? Por que motivo se realizam mais seminários sobre segurança do que sobre justiça?

Se queremos resolver, e não apenas discutir, a segurança mundial, temos que enfrentar ameaças reais e urgentes. Há uma arma de destruição em massa que está sendo utilizada todos os dias, em todo mundo, sem que seja preciso o pretexto da guerra. Essa arma chama-se fome. Em pleno século XXI, um em cada seis seres humanos passa fome. O custo para superar a fome mundial seria uma fração, muito pequena, do que se gasta em armamento. A fome será, sem dúvida, a maior causa de insegurança do nosso tempo. Menciono ainda outra silenciosa violência: em todo mundo, uma em cada três mulheres, foi ou será vítima de violência física ou sexual durante o seu tempo de vida. É verdade que sobre uma grande parte do nosso planeta, essa é uma condenação antecipada pelo fato, simples, de serem mulheres. A nossa indignação porém, é bem menor que o medo. Sem nos darmos conta, fomos convertidos em soldados de um exército sem nome e como militar sem farda deixamos de questionar. Deixamos de fazer perguntas e discutir razões. As questões éticas são esquecidas por estar provada a barbaridade dos outros. E porque estamos em guerra não temos que fazer prova de coerência, nem de ética, nem de legalidade. É sintomática que a única construção humana que possa ser vista do espaço, seja uma muralha. A Grande Muralha foi erguida para proteger a China das guerras e das invasões. A Muralha não evitou conflito nem para os invasores. Provavelmente morreram mais chineses construindo a Muralha do que vítimas das invasões que realmente aconteceram. Dizem que alguns dos trabalhadores que morreram foram emparedados na sua própria construção. Esses corpos, convertidos em muros e pedras, são uma metáfora do quanto o medo pode nos aprisionar. Há muros que separam nações; há muros que dividem pobre dos ricos; mas não há, hoje no mundo, muros que separem os que têm medo dos que não têm medo.

Sob as mesmas nuvens cinzentas vivemos todos nós: do sul e do norte, do ocidente e do oriente. Citarei Eduardo Galeano acerca disto, que é o medo global: “Os que trabalham têm medo de perder o trabalho; os que não trabalham têm medo de nunca encontrar trabalho. Quando não têm medo da fome, têm medo da comida. Os civis têm medo dos militares, os militares têm medo da falta de armas, e as armas têm medo da falta de guerras”. E se calhar, eu acrescento: há quem tenha medo que o medo acabe.

6 Comentários até agora.

  1. Brotosaurus disse:

    Tenho que reconhecer o meu medo também.

    Até para escrever umas poucas palavras por aqui imagino que ele (o medo) está em algum lugar vigiando e criticando, embora saiba que o que sinto é meu e está comigo, e não “em algum lugar” fora de mim…

    Parece que ele (o medo) fica compartilhando a existência material no mundo da imaginação com todos os que ficam e eu vou, sem ele, servir a natureza transformadora, em profundo silêncio.

    Será que será possível naquela hora dizer simplesmente fui?…

  2. Vera Menezes disse:

    Brotosaurus, acho que não conseguimos fazer as coisas com a mesma facilidade com que pronunciamos “fui…”. E acho mesmo que medo é alguma coisa que quando superamos um, logo se aproxima outro para ser superado…. e assim vamos vivendo, tentando não desistir nunca….

  3. Tania disse:

    Muito bem escrito. Traduz e sumaria muito do que penso. Pena mesmo é que materiais assim sejam sempre de pequena circulação, não? Beijo

  4. Vera Menezes disse:

    Sim Tânia, as idéias foram colocadas com muita clareza. Fiquei muito impressionada ao ponto de querer percorrer alguns livros do autor. Convenhamos que esse tipo de texto não interessa a nenhum poder uma ampla divulgação…… Felizmente os meios alternativos de divulgação estão bem populares….. Bjs

  5. Kelly disse:

    Um estrondoso pensar que me propiciou gargalhadas sobre o que o “medo” é capaz de gerar… Desde mentes maléfico-perversas pensantes e no poder (óbvio), até o lugar do executor/braçal denominado alienado/ignóbil na construção da tão famosa muralha.
    Medo: amo ele. Não os supero, jamais! Mas sim, aprendo forçosamente a blefar a vida, pois só assim mantenho o sentir a vida/viva – a tal angústia citada em outro texto seu. A angústia nada mais é, no meu vivenciar, o que nos movimenta (clichê psicológico) e, com certeza, outra denominação para medo. Cara, realmente, que pena a pouca circulação deste texto, porém, te agradeço muito Vera de me proporcionar entrar em contato com estes outros olhares. Beijos

  6. Vera Menezes disse:

    Kelly, concordo com você: angústia e/ou medo também ajudam a seguir em frente. Também agradeci muito a quem me enviou esse texto do Mia Couto! Bjs.