A vida em um dia

A criatividade, para muitos, é o que faz a diferença na busca de um sentido para a vida. Ser criativo, com muita freqüência, diz respeito a reordenar a realidade de tal forma que os sentidos, anestesiados pelo hábito da repetição, se surpreendem com a percepção de algo que não tinham alcançado até então.

Esta semana me chamou atenção uma matéria do jornal pela ousadia da produção e pela curiosidade em querer entender a motivação dos autores em realizar a façanha. A idéia veio de dois irmãos cineastas: Ridley (Blade Runner) e Tony Scott (Top Gun). Eles resolveram investigar um dia (um dia específico) na vida das pessoas desse planeta. A data escolhida foi 24 de Julho de 2010. Neste dia as pessoas, dos mais diferentes cantos do mundo, deveriam filmar a vida que levam e postar no YouTube.

A empreitada resultou em 70 mil horas de filmetes que foram incluídos no YouTube, participando 192 países. Uma equipe de 25 assistentes ficou dois meses e meio assistindo os vídeos recebidos dando notas de 1 a 5 para cada vídeo. Foram necessárias sete semanas para que os idealizadores da idéia vissem os vídeos que receberam avaliações 4 e 5. O responsável pela edição final do filme, Joe Walker, nos oferece um filme de 95 minutos, recentemente disponibilizado pelo YouTube, com legendas em 25 línguas.

Sugiram que todos vejam o filme: A Vida em Um Dia.

Naturalmente que a edição do filme é um grande processo transformador. E nesta recriação, é bem provável que muitos participantes irão se surpreender com o contexto a que foram incluídas suas obras originais. E tomara, realmente, que isso tenha acontecido, pois, afinal, não existe íntimo reconhecimento da individualidade quando submetida a um conjunto de individualidades.

O filme me causou certa angústia, devo confessar. Talvez por saber que, a princípio, não se trata de uma ficção. Mesmo considerando que alguns vídeos tenham refletido a projeção de seus autores a respeito de suas próprias vidas, ainda sim é real e nos fala da complexidade do ser humano. Enfim, o resultado final me causou certo incômodo. Quanto tento ligar os pontos dessa quantidade enorme de pessoas vivendo em diferentes e distantes locais desse planeta, a solidão e a esperança se abraçam de forma quase inexplicável, seja na alegria ou na tristeza. E o depoimento final da jovem é quase uma síntese, indicativa de que apesar do que nos aconteça, viver é uma angústia necessária para fins desconhecidos.

2 Comentários até agora.

  1. Tania disse:

    Deve ser mesmo intrigante e, concordo, também, um pouco angustiante, incômodo até. A gente não pode dar conta disso. Vou ver com calma. Beijo

  2. Vera Menezes disse:

    Tânia, vale a pena (angústia e incômodo) ver o resultado final. Foi muito bem feito e nada enfadonho não….. bjs