Hora Certa

Um daqueles dias em que a sua agenda fica em posição de destaque na sua mesa de trabalho, recomendando a necessidade de acordar cedo para cumprir todas as tarefas caprichosamente escritas nas linhas do tempo que um fabricante produziu e você comprou. Mas aí, você no contra-fluxo da prudência, perde a hora e só vai abrir os olhos quando é certo, sem nenhuma possibilidade de contestação, que a vida já está atrasada no dia recém inaugurado.

E acelera os movimentos iniciais de uma sinfonia eletrônica: botão da escova dental elétrica, botão da cafeteira, botão do telefone para recuperar as mensagens deixadas na secretária eletrônica, botão do celular na conferência dos “torpedos” que o tem como alvo, botão do computador para inaugurar acessos, muitas vezes imprevisíveis e inadministráveis.

Naquela segunda-feira as primeiras horas de atividades já haviam consumido energia elétrica – e a minha própria energia – com uma avassaladora intensidade. Eu tentava compensar o tempo a mais que havia dormido. Como coisa que não me era dado o direito de nenhuma transgressão.

Foi na velocidade de uma tentativa de ser absolvida pelo tempo “perdido”, que folheando o jornal me deparei com a poesia, que teve um efeito bem parecido a de uma pedra lançada com toda força numa porta de vidro. E essa porta, sem nenhum ruído, espalhava no ar estilhaços, em câmera lenta:

Hora Certa
Não estou em atraso com nada,
nem mesmo tenho poema pra escrever.
Os compromissos foram todos suspensos,
os guichês se transformaram em bilheterias.
Olho o relógio e ele me oferece
qualquer tempo – noite ou dia -,
sempre estarei na hora certa,
a que me der na veneta,
que é o melhor ponteiro.
Apenas a vida se oferece a mim,
simples como desenho rupestre,
exata flor de estufa,
pontual como a morte.
Ronaldo Costa Fernandes
(A Máquina das Mãos – Editora 7Letras)

A precisão dos versos me apunhalou…. Era exatamente esta poesia que meus sonhos perscrutaram ao ponto de me aconselhar, na minha temporária morte, a perder a hora…

Olhei à minha volta: aquele seria mais um dia de fiel dedicação ao exercício da responsabilidade. Não precisava de uma investigação aprofundada para saber que os meus assuntos faziam parte de uma honrada irmandade mutuamente gerenciada pela praticidade e pela inutilidade. Para que mesmo a sensação da agenda cumprida? Para que mesmo tentar direcionar o mundo defendendo uma racionalidade que nunca coube no senso comum? Uma coleção de anos – muitos anos – no desempenho de funções que se desdobravam em outras funções, e assim sucessivamente, até alcançar uma nebulosa especialidade. Para que mesmo ser especialista em alguma coisa?

Era segunda-feira e a partir de uns versos, abri mão dos filamentos que sustentaram a minha percepção da vida até aquele dia. Foi necessária uma existência, praticamente inteira, para me dar conta que todas as avenidas oferecem duas calçadas, paralelas, para que cada um estabeleça o seu próprio caminho. Mudar de calçada era o cardápio único daquele dia. E a fome grande.

Viver já não cabia na rigidez de uns traços largos com que dia após dia eu riscava o tempo nos calendários. Listar compromissos e fazer o mundo girar com a sensação do dever cumprido, já não sustentava os níveis de satisfação a que me conformara. O outro lado da calçada me exigia suavidade, alegria, reduzir preocupações infundadas, experimentar algumas tintas de irresponsabilidade pela insubstituível simplicidade de poder contemplar o pôr do sol, em silencio.

Foi numa segunda-feira, cansada, que eu morri.

4 Comentários até agora.

  1. Tania disse:

    Morreu pruma vida chatinha de dar dó e nasceu praoutra com direito a vento no rosto e areia no pé, salgando em saquá! Vambora!

  2. Vera Menezes disse:

    rs….. ainda não será desta vez amiga…..

  3. Kelly disse:

    Que morte maravilhosa! Arrepiei-me inteira ao ler tua denúncia… Estou eu neste trajeto dificultoso de se descompreender, de se desmontar, de permitir outras sensações para além das personas que já aprendi a administrar. Sair da zona de conforto não é fácil, pior ainda é admitir que ela existe. Estou ansiosa para me permitir trilhar no outro lado da Avenida e assim, compreender o que é estar também ao meio dela. Adorei beijos.

  4. Vera Menezes disse:

    Às vezes, quando trocamos de calçada um automóvel (ou caminhão) nos atropela…. Mas como é possível viver sem ficar exposto a tantos riscos e armadilhas…… Lhe desejo um suave e doce caminho. Bjs