Um homem quando arrasta a sua alma

Eu não sabia, com exatidão, o que ele queria dizer com algumas daquelas frases ininterruptas. Frases que eram pronunciadas até onde o seu fôlego podia alcançar, e logo em seguida descreviam o mesmo arco assimétrico. Certamente ele não queria, não naquele momento, se explicar. Bastava que eu ficasse ali ao seu lado, e de preferência sem lhe fazer nenhuma pergunta.

Algumas frases eram plenas em significados e nesses momentos podia sentir a intensidade da dor que não era a minha. “As impossibilidades fazem crescer os cílios”, e eu ali querendo saber se os cílios cresciam nas noites insones ou, ao contrário, se desenvolviam na depressão das prolongadas horas que ele passava dormindo. E foi instintivo lhe oferecer um cigarro ao ouvir “coleciono guimbas no chão da minha alma”. Imaginá-lo guardando em si um número razoável de resíduos de coisas já consumidas, me entristecia. Apesar de saber que se bem me dispusesse a uma faxina, arrancaria da minha alma uma quantidade expressiva de enfumaçadas quinquilharias que corroídas pelo tempo já não significavam muito. Sabê-lo daquela minha maneira me deixava triste.

Na medida em que o garçom nos trazia copos e mais copos, sua voz ia ficando fraca e a língua se embaralhava dificultando a dicção: “roubaram da Terra a sua caixa de temperos”. Neste ponto fiz um esforço para conter a gargalhada: natural que o paladar fique comprometido após tantos cigarros e tanto álcool. Mas, na verdade, geralmente é o mundo que primeiro fica desenxabido e as pessoas recorrem aos paliativos na expectativa de preservarem o que muito provavelmente jamais lhes será restituído na íntegra.

No bar onde estávamos, soube depois, meu amigo era assíduo freqüentador e todos os garçons lhe dedicavam especial carinho porque por mais que bebesse nunca faltara ao respeito com ninguém. Era uma espécie de mascote e assim poupado das comuns zombarias que são direcionadas àqueles privados da plena capacidade de defesa. “Vejo passar a sorte com cachecol”. Ainda tentei um singelo “oi?” na esperança que ele repetisse a frase porque precisava distinguir se era a sorte que usava o cachecol ou era ele de cachecol que assistia a passagem da sorte. Espero que compreendam que depois de uma hora bebendo essa informação tinha muita relevância, mas felizmente a posterior sobriedade tratou de dissipá-la e não me ocupei mais com a indumentária do destino.

Nos despedimos quando ele, num esforço de concentração, tentou me encarar por alguns minutos e muito compenetrado, olhos nos olhos, disparou: “a paciência caolha bebe uísque em Dublin”. Eu me ajeitei na cadeira e chamei o garçom anunciando a “saideira”. Olhei para ele desconfortável com a hipótese do “caolha” me ter como referência. Paciência sempre tive e leve estrabismo trago de nascença, mas a associação dos termos, verbalizada daquela forma, me fez supor que a minha paciência não o satisfazia, me faltando um olhar mais apurado para a tristeza da sua existência. E Dublin estava tão longe, que somente um poeta seria capaz de nos deslocar para além das nossas próprias fronteiras.

(uma homenagem ao poeta Leonardo Marona)

2 Comentários até agora.

  1. Tania disse:

    Uau! Uma escrita maravilhosa, sô! Minha favorita de 2011! Adorei.

  2. Vera Menezes disse:

    Nossa…. que bom que gostou tanto assim…..