Yevgeny Khaldei – história fotografada

Era somente mais um dia de maio em Berlim. A chuva e o frio não mais surpreendiam, já que foram recorrentes ao longo daquele ano de 1945. Após seis anos de guerra com uma estimativa de 80 milhões de mortes, a água da chuva era uma maneira de matar a sede e o frio uma pálida noção de afeto, obrigando as pessoas a se abraçarem para que a quentura dos corpos os mantivesse vivos por mais tempo.

Meu nome é Yevgeny Khaldei, fui fotógrafo do exército vermelho, portanto as lentes do meu oficio tenderam a valorizar o desempenho das forças soviéticas nesta II Guerra Mundial. Depois de algum tempo acompanhando as manobras militares, certamente não sobra muito a ser valorizado, além da extraordinária capacidade do ser humano de sobreviver às condições extremas de precariedade e indignidade.

Meus inimigos usavam uma variedade limitada de uniformes que aprendi a reconhecer na primeira aula sobre a guerra: uniformes alemão, japonês, italiano, romeno, húngaro e búlgaro. Portanto, minha eficiência poderia ser medida pela habilidade em matar quem estivesse portando qualquer uma daquelas fardas. Azar dos meus companheiros – soviéticos ou aliados – que por circunstâncias quaisquer se apresentaram na minha frente com os uniformes errados. Bandeiras e fardas são muito valorizadas numa guerra. No meu bornal acomodei muitos rolos de filmes e alguns pedaços de pão.

Esta foto em que apareço, foi tirada no dia em que tomamos Berlim e capturamos alguns alemães, enquanto permitimos que outros fugissem para que as nossas tropas aliadas pudessem torturá-los. Em setembro deste ano – 4 meses após esta foto – os alemães, finalmente, se renderam. O holocausto e as armas nucleares serão por muito tempo as insígnias desprezíveis que nivelaram vitoriosos e derrotados.

Aos 28 anos, eu, judeu, lutei contra os nazistas agarrando nos punhos uma máquina fotográfica e registrando cenas que jamais historiadores ou sobreviventes poderão descrever com a saturação de detalhes que ficarão eternizados e protegidos dos lapsos de memória muitas vezes convenientes aos interesses políticos.

Coube-me viver até aos 80 anos de idade. Sempre permaneci atrás da minha máquina fotográfica. Uma espécie de escudo que ao invés de me proteger, sempre fez de mim um delator de gestos e atos que muitos poderosos teriam preferido que não constassem nos registros. Terminada a Guerra, acompanhei o surgimento de outra guerra, mais sutil e não menos vil: a Guerra Fria. Assisti duas nações desprezarem as alianças firmadas anteriormente para se converterem em dois emblemáticos inimigos, capazes de espalhar no mundo a ameaça de uma III Guerra Mundial, em nome das fragilidades ideológicas, tecnológicas, econômicas e políticas que juntas não valiam a eliminação de uma única vida sequer.

Vivi tempo suficiente para ter certeza que o medo é o único fenômeno capaz de interromper ou eliminar os estágios evolutivos de qualquer civilização. Deixei nas minhas fotografias as evidências dessa teoria.

2 Comentários até agora.

  1. Tania disse:

    Caramba, que coincidência. Ontem assistimos “A Chave de Sarah”, que passa pela 2a.guerra e seus horrores, mas desta vez com a inusitada faceta da França ajudando os alemães, fato que desconhecia. A guerra é o pior dos horrores. Ninguém sai dela sem sérias sequelas. Bjs

  2. Vera Menezes disse:

    Já coloquei “A Chave de Sarah” na minha lista de a ser visto…..bjs