A Lenda do Pianista do Mar

É um filme de uma sensibilidade constrangedora. Uma lenda sobre um pianista contada com lirismo e poesia capazes de contrair o diafragma, espremendo o coração até sufocar a alma.

É um filme de Giuseppe Tornatore, e a exemplo de “Cine Paradiso” a presença de um menino na construção da história é mais uma vez incluída. Desta vez o menino cresce e quem assume a magnífica interpretação é Tim Roth, numa caracterização que com muita naturalidade se aproxima do sublime.

A música de Ennio Morricone prescinde de elogios e a fotografia arrebata compondo algumas cenas com tamanha carga dramática que qualquer diálogo seria indesejável. Citaria vários exemplos, mas me restrinjo a dois que provavelmente são inesquecíveis para quem viu o filme: o piano sendo tocado e deslizando no salão de festas do navio à mercê dos movimentos de uma tempestade; e a cidade de Nova Iorque vista pelo pianista ao descer a rampa do navio que o levaria à terra firme.

A história, ou melhor, a lenda: um bebê é encontrado por um maquinista sobre um piano na primeira classe do navio. Esse bebê é criado pela tripulação e recebe o nome do ano em que foi encontrado (1900). Aos oito anos o maquinista que o encontrou sofre um acidente fatal. 1900 se isola no navio e reaparece de madrugada, quando, maravilhado, o navio inteiro acorda com as notas musicais tocadas ao piano. A fama do pianista ficou amplamente difundida tanto por ser um virtuose no piano quanto pelo fato de nunca sair do navio.

Surpreende a possibilidade – ou impossibilidade – de alguém passar a vida inteira dentro de um navio sem nunca colocar os pés em terra firme? Identifique o seu navio. Vamos lá: onde você mora? Seja seu país, seja seu bairro, seja sua rua, seja sua casa. Aquele espaço em que você circula; o cercadinho da sua vida, onde você pensa ter amplo domínio, pleno acesso, que encontra pessoas com alguma freqüência e outras só de passagem. É essa a sua vida. É esse o seu navio. É o cenário que por escolha ou qualquer outra circunstância, lhe foi dado a viver. Nessa sua vida passaram e passarão muitas pessoas. Algumas permanecerão por mais tempo e farão companhia por muitas viagens, outras serão breves como um cumprimento, ou o tempo de compartilharem uma refeição ou uma bebida. Você as conhecerá a partir da sensibilidade que se estabelecerá com cada uma dessas pessoas: uma música, uma conversa, uma cumplicidade, um distanciamento, ou antipatia. Passará a vida recebendo as informações a que terá alcance: pelos jornais, televisão, internet, bate-papo…. Passará por bons tempos e por tempestades. Ficará no meio do caminho, uma, duas… tantas forem as vezes que o medo lhe aconselhar a não transgredir os limites da própria capacidade de ousar.

Esta é a analogia mais ampla, portanto a mais óbvia. Mas existem sutilezas no filme que não deixam de ser menos importantes mesmo que não se apresentem ao espectador com todas as “notas musicais”. A primeira provocação que o filme me ofereceu diz respeito ao dom que acredito que cada pessoa possui, mesmo que não o desenvolvam plenamente ou se confundam ao identificá-lo. Pois bem, 1900 tinha o dom de ser um brilhante pianista. Fiquei me perguntando de onde surgem os dons. Me lembrei que 1900 foi encontrado, recém nascido, sobre um piano da primeira classe. Se tivesse sido encontrado embrulhado num jornal teria sido um escritor ou jornalista? Eu particularmente acredito que cada pessoa tem um dom – ou uma habilidade que facilita a interação da pessoa com o mundo – mas os fatores que definem este dom e os outros fatores que permitem, ou não, que ele se manifeste, dificilmente a ciência me convencerá sobre as origens.

Outro detalhe do filme que me impressionou e que se manifestou numa cena de pouquíssimos segundos: o nosso 1900 foi desafiado a um duelo musical por um vaidoso e arrogante pianista, considerado o “pai do jazz”, que sobe ao navio com a certeza absoluta da sua superioridade musical. Tendo sido “derrotado” pela habilidade de 1900, só consegue demonstrar humildade quando abaixa a cabeça para confirmar por meio de uma cinza de cigarro que cai sobre o seu sapato, a superioridade do adversário que ele próprio construiu. Bastou um único olhar para sentirmos o momento em que a empáfia não é mais auto-sustentável e nenhuma alternativa é capaz manter a confiança que nos parecia inabalável. Brilhante a interpretação de Clarence Williams III que passa de insuperável à vulnerável num único olhar.

Para terminar as considerações sobre A Lenda do Pianista do Mar, a distinção entre o navio e a terra firme me fez lembrar um filme que assisti há muitos anos atrás – se não me engano “Derzu Uzala” – em que a noção do espaço também foi trabalhada de uma forma poética. Aqui, 1900 tenta explicar ao amigo Max (Pruitt Taylor Vince) a sua decisão em permanecer no navio, mesmo sob a iminência de ser explodido transformado em sucata pelo tempo. Ao voltar atrás, retornando ao navio, quando se encontrava no meio do passadiço que o faria pela primeira vez colocar os pés na terra firme (Nova Iorque) foi assim descrita: “Quando olhei a cidade do passadiço, não consegui enxergar onde ela terminava. Foi o que eu não vi que me impediu de sair do navio. Naquela cidade havia de tudo, só não havia um fim. No piano, as teclas começam e acabam. Ninguém pode negar que um piano possui 88 teclas. Elas não são infinitas. A música que se produz com aquelas 88 teclas é que é infinita. Eu vi naquela cidade milhões, bilhões de teclas, que nunca tinham fim. Num piano com teclado infinito não existe homem que possa tocá-lo: somente deus pode tirar dele uma música. Eu vi centenas de ruas naquela cidade. Como é possível escolher uma só? Uma mulher, uma casa, um pedaço de terra para chamar de sua, uma paisagem apenas para contemplar… Como escolher uma maneira de morrer? O mundo que vi daquele passadiço me sufocou porque ninguém sabe aonde acaba. Só de pensar, sinto medo de me despedaçar: a enormidade que é viver nele. Eu nasci e vivi neste navio. O mundo passou por mim, mas foram 200 pessoas por vez. Muitos desejos foram vividos dentro deste navio, mas todos os desejos couberam entre a proa e a popa. A minha felicidade foi tocada num piano que não era infinito. A terra é um navio demasiadamente grande para mim. Uma mulher demasiadamente bonita. Uma viagem demasiadamente longa. Um perfume demasiadamente forte. É uma música que não sei fazer. Não posso sair deste navio. Na melhor das hipóteses posso sair da minha vida, afinal não existo para ninguém.

Não somos, no meu entendimento, muito diferentes de 1900. Temos que lidar diariamente com os nossos próprios limites. Sabermos, mesmo que relativamente, o espaço minúsculo que conseguimos ocupar nesse mundo que nunca acaba. Aprendemos a administrar a sensação que muitas vezes no sufoca que nos é proporcionada pelas angústias, pelas dúvidas, pela insegurança com que nos colocamos frente a muitas situações dentre as opções que sempre serão infinitas. Fazemos constantemente escolhas que acreditamos serem as melhores, quando nosso cardápio de possibilidades é ridiculamente limitado. Carregamos a angústia de não alcançarmos o entendimento deste mundo que não tem fim e ainda temos que conviver com angústias de outra natureza que se desdobram pelos outros planetas e nos fazem supor a existência de outras espécies de vida… E num mundo infinito somos apenas sombras embaçadas para algumas poucas pessoas. E sem possibilidade de abranger as infinitas alternativas de vida, natural que não possamos dispor da melhor oportunidade ao encerrarmos a nossa vida. Apenas aguardamos que o mar recolha em si a ilha que cada um de nós personifica.

(para Kelly, agradecendo a sugestão)

4 Comentários até agora.

  1. kelly disse:

    Esse filme me propiciou uma catarse na tragédia. Tragédia minha e de outros, mas em particular a minha dor é a maior dos mundos. Mas a de quem não é? Quero poder não temer abandonar essa paralisia e compreender o limite à mim mesma e não deixar minha nau soçobrar. Não sei por onde, não sei como começar a desejar ir além das 10 pessoas por vez…olha que acho que é muito. Tenho me isolado, tenho me depreciado e ao mesmo tempo, paradoxalmente e narcisicamente, me exalto pela capacidade – que também foi a de 1900 – que surge da vontade de ir além do que foi imposto, colocado, e como um filme: pregado a um roteiro. Mas com certeza aprendi a ser eu a diretora, protagonista, antagonista, mocinha, vilã, princesa, bruxa e, inclusive, meu próprio príncipe. A questão é que ainda parece ser tudo somente da ordem do discurso. Estou cansando de discursar e querendo vivenciar de fato, não dando razão à própria razão de deixar tudo ir abaixo, afundar…. Adorei que você tenha gostado do filme, pensei em você gando vi… aliás, não sei o que anda ocorrendo, qual a identificação, mas penso em você diariamente…. talvez seja bem o que pontuas acima: a inevitável casualidade do trajeto que nosso navio faz repetidas vezes, idas e vindas, mas sempre com um passageiro a mais. Beijos e muitas saudades.

  2. Vera Menezes disse:

    Pois….. Acho Kelly que o processo é esse mesmo: nos recolhemos para teorizar sobre tudo e depois saímos por aí experimentando. Não há como ser diferente: somos mesmo todos os personagens do nosso próprio filme. Às vezes esse tal filme consegue ser um sucesso de bilheteria; outras vezes não. Estamos sempre, felizmente, reinventando aquilo que somos – ou acreditamos ser. Gostei muito do filme sim! Também sinto saudades de você…. Nenhuma viagem agendada para as bandas de cá? Bjs.

  3. kelly disse:

    Infelizmente nenhuma viagem. Mas darei um jeito de ir no início de Fevereiro, aí mato a saudade. Enquanto isso, fico aqui teorizando rsrs e tentando me experimentar também. Beijos.

  4. Vera Menezes disse:

    LEGAL !!!! Ano novo vai começar bem então….rs