Um Conto Chinês

Existem atores que conseguem fortalecer e qualificar qualquer roteiro. Ricardo Darín é um desses atores que valorizam qualquer história. Não que o roteiro de Um Conto Chinês seja desprezível, mas não fosse a excelência da interpretação de Darín seria apenas mais um filme argentino. E no caso, de um diretor desconhecido: Sebastián Borensztein.

O roteiro é exclusividade de três personagens: (1) Roberto (Ricardo Darín) dono de uma pequena loja de ferragens na Argentina, metódico, de humor arruinado, e bastante satisfeito com o fato de só ter a si mesmo como companhia; (2) Jun (Inacio Huang) um jovem chinês que vai parar na Argentina a procura de um tio após a absurda morte da noiva, no momento que estava oficializando o noivado; e Ana (Muriel Santa Ana) que é apaixonada por Roberto pelas boas qualidades de caráter não demonstradas por ele.

Apesar de ranzinza, intolerante, paciência zero e de convívio deplorável, Roberto cativa porque o espectador se vê agindo como ele em pelo menos uma das características, nem que tenha sido por um único instante de sua vida. Embora o personagem seja um concentrado de idiossincrasias descrevendo uma identidade que facilmente qualquer pessoa desistiria de preservá-lo no convívio social – o que habilmente o personagem se esforça para assim ser -, é impossível não sentir simpatia por ele e aguardar, com certa ansiedade, o momento e a situação que o conduzirão para uma perspectiva diferente de vida. O elemento desencadeador dessa virada é o jovem chinês que sem falar e compreender uma única palavra em espanhol é recolhido (jamais se poderá dizer acolhido) por Roberto. A convivência dos dois se estabelece por uma série de situações equivalentemente tensas e engraçadas que evidenciam posições emocionais contrárias: um desesperado querendo se livrar da companhia que a vida lhe impôs, e o outro desesperado querendo permanecer onde está por não ter para onde ir.

O dilema de Roberto é: como se ver livre da companhia do jovem preservando a tranqüilidade da sua consciência? E neste desarranjo da própria rotina, Roberto assume um exagerado espírito de solidariedade: vai à polícia, procura a embaixada, distribui cartazes com a fotografia do jovem, percorre o reduto da comunidade chinesa atrás de informações. No entanto, sua motivação principal não é colocar-se à disposição para ajudar o problema do outro, mas sim se livrar o mais rápido possível daquela pessoa que involuntariamente se tornou sua responsabilidade e que só terá fim quando o outro tiver sua situação resolvida.

A presença de Ana na trama é uma tentativa amorosa de fazer com que Roberto perceba a si mesmo de outra maneira; que se dê outras oportunidades no entendimento da vida além dos absurdos que ele sistematicamente coleciona dos jornais diariamente folheados. Neste sentido aproveita a inesperada presença de Jung para se tornar mais freqüente na vida de Roberto. Não são as tentativas de Ana, sempre recusadas por Roberto, que o levam a mudar de comportamento: é o entendimento como absurda a situação em que se encontra e o absurdo de uma das notícias de sua coleção que o levam ao espanto de si mesmo.

Um filme meigo enquanto história e uma oportunidade para se reconhecer um grande ator. Recomendo, pois certamente são proveitosas as situações e as reações apresentadas no filme.

Se pesquisarmos, com certeza encontraremos episódios na nossa vida em que uma vaca despencou na nossa cabeça, além das muitas vezes que já tentamos ser compreendidos por um pedaço de nhoque.

2 Comentários até agora.

  1. Tania disse:

    Tens razão, o Ricardo Darín valoriza qq filme. É um ator magnífico. Vc já viu Clube da Lua? Maravilhoso tb. Esse Conto Chinês não ficou atrás, é claro. Beijos

  2. Vera Menezes disse:

    O Clube da Lua está na minha listinha de filmes a assistir.