O Mesmo Amor

O Mesmo Amor, A Mesma Chuva não é um daqueles filmes de Juan José Campanella que ficam impregnados na gente depois de vistos. Méritos não faltam, mas o conjunto não tira o fôlego de quem o assiste, embora o fôlego do roteiro seja olímpico: retratar duas décadas da história da Argentina (1978 a 1998) e insinuar que as influências de tais fatos se infiltraram nas relações dos personagens é, no mínimo, ambicioso.

A química entre Ricardo Darín e Soldedad Villamil está ótima e a atuação dos demais atores também não desaponta. O equilíbrio entre um humor cativante e a degradação moral dos personagens, se sustenta com alguma dificuldade e não estimula interjeições de admiração.

O que ressalta no filme é a forma como as relações humanas são muito bem evidenciadas. O cenário principal é a editora de uma revista e o convívio dos funcionários, que não difere de qualquer empresa: ciúmes, camaradagem, inveja, sobrevivência, ostracismo, menosprezo pelo trabalho, valorização de alguns pelo trabalho que realiza etc. O personagem principal escreve contos românticos para essa revista sem enfrentar o desafio de se tornar reconhecido como uma promessa da literatura argentina, apesar de todos apontarem que talento não lhe falta. Frustrado na sua carreira e na sua vida pessoal, o personagem descreve um círculo de degradações que o leva às últimas conseqüências. No entanto no final tenta ensaiar um discurso de renovação que não passa de um tímido suspiro frente a um currículo encharcado de medo que acompanhamos ao longo de duas décadas.

A história do país (Argentina) substituiu o regime militar pela democracia, ao tempo em que os valores ideológicos são trocados pelo culto ao dinheiro. Estremecem todos porque a passividade que antes era justificada pela ditadura, consegue permanecer estável, desta vez ancorada na comodidade e na conveniência individuais. Outros nomes para a covardia que é alimentada pelo medo em suas múltiplas origens.

A degradação moral do personagem principal assume tamanha proporção que ele passa a usar sua posição de crítico de cinema (aceita pela vantagem material) como um instrumento de corrupção e enriquecimento ilícito. A tentativa de suicídio é uma insuportável percepção da miserabilidade moral auto-identificada pelo personagem principal, mas também é o simbolismo da degradação da própria Argentina.

O personagem, mesmo que pouco convincente para quem assiste ao filme, se reabilita de alguma forma. Por outro lado, hoje, parece que a Argentina começa um devastador processo de humilhante devastação democrática, movida pelo medo de sua presidente Cristina Kirchner.

Mantenho a esperança que a Argentina de hoje se recupere com a mesma velocidade que o fez o personagem do filme produzido em 1999. Mas, confesso, minhas convicções sobre o poder passam longe da possibilidade de uma transparência moral.