Uma História Real

David Lynch surpreende. Até mesmo quando realiza um filme sem exigir muito do espectador, ele surpreende. Foi uma notícia de jornal que o motivou a filmar Uma História Real (The Straight Story): a informação que um idoso havia percorrido 402 Km de um estado a outro nos Estados Unidos, em uma máquina de cortar grama, numa velocidade média de 8km/h para reencontrar o irmão que havia sofrido um derrame. E David Lynch consegue filmar um drama sem conflito, e um filme de estrada sem velocidade. Surpreendente…

A teimosia, ou se preferirem: a força de vontade, é a característica principal de Alvin Straight que por não confiar no transporte público e por não poder dirigir em função de problemas na saúde, resolve usar um cortador de grama para ir ao encontro do irmão, separados há 10 anos por um desentendimento.

A construção do filme é bastante interessante. O espectador vai tomando conhecimento da vida de Alvin ao longo das seis semanas na estrada e a partir da interação com as pessoas que se apresentam no seu caminho. Aos 73 anos e com artrose – que o obriga a andar com duas bengalas -, a decisão de percorrer os 402 Km numa velocidade compatível a de uma caminhada, representa o tempo necessário para que ele se preparasse, para que diluísse o orgulho da distância de 10 anos com relação ao irmão. O tempo de reencontros geralmente é mesmo longo, quando não impossível. Todas as pessoas que cruzaram o seu caminho receberam dele uma observação, foram conselhos debulhados da sua experiência de vida. A partir desses contatos o espectador toma conhecimento dos arrependimentos que o levaram àquela empreitada. Afinal, são os fragmentos recolhidos ao longo do caminho de qualquer pessoa que compõem o mosaico da vida de cada um. Além da dúvida de ter sido o responsável involuntário da morte de um companheiro na Segunda Guerra – dúvida esta que o levou por muitos anos à dependência alcoólica -, são duas as frases que dão transparência ao personagem: “o irmão é a pessoa que melhor te conhece”; e “a pior coisa em envelhecer é relembrar a juventude”. Outros diálogos e atitudes também são expressivos, incluindo o silêncio frente a um acidente na estrada, observando a condutora do automóvel esbravejando por se perceber com uma predisposição para atropelar cervos. Convenhamos que a melhor coisa a se fazer frente a um ataque de nervos é manter-se calado na impossibilidade de dialogar com o irracional das pessoas.

A fotografia do filme merece destaque, assim como a trilha sonora que se encaixa complementando os silêncios e os olhares reflexivos em todas as situações. O final também chama a atenção pela delicadeza e pela confirmação de que não há nada a ser dito quando passo a passo, quilômetro a quilômetro, dia a dia, tudo convergiu para chegarmos àquele final.

Um filme surpreendentemente carinhoso…