O Filho da Noiva

Juan José Campanella realizou este filme em 2001 quando a Argentina estava no auge da crise com desemprego elevado, insegurança nas ruas, desconfiança por parte do mercado financeiro internacional, dívida externa gigantesca e renúncia do presidente Fernando de la Rúa. “Mas quando não estivemos em crise?” – nos lembra um dos personagens. Se colocarmos os óculos, iremos perceber que a vida é alguma coisa pouco previsível situada entre a alegria extrema e a tristeza profunda. As dificuldades sócio-econômicas da Argentina são transportadas para as vidas pessoais num roteiro absolutamente perfeito em termos de ritmo. O filme desfila uma série de conflitos: financeiros, amorosos, egoístas, por estar mais ou menos aberto para outra pessoa…. Uma vasta coleção de problemas sem que um único se assuma como protagonista. Mas assim o é na vida: temos que lidar com vários problemas ao mesmo tempo, dispensando tempo para todos, mesmo que um ou outro temporariamente se coloque sob os refletores, para que logo em seguida seja substituído por outro… e assim os dias passam.

O filme tem um olhar masculino, não apenas por caber a um homem o fio condutor da história, mas pela naturalidade do personagem em ser pragmático. Característica esta que não se estabelece com freqüência e desenvoltura numa alma feminina. E coube a Ricardo Darín o papel mais difícil de todos os possíveis papéis cabíveis a um ator: o de um homem comum.

 Alguns dos dramas do filme: um ácido relacionamento com a ex-esposa; dificuldade em aceitar – e conseqüentemente de se aproximar – a mãe com Alzheimer; atritos com os fornecedores do restaurante que gerencia; a pouca atenção oferecida à filha que vive com a ex-mulher; ter que sobreviver num país onde a corrupção é entendida como uma possibilidade para resolução de problemas; e uma namorada que é tratada como decorativa no rol das atenções a serem administradas. Convenhamos, se o roteiro não fosse bom e os atores não fossem sinceros, teríamos apenas mais uma “novela mexicana” dispensada pela memória. Os dramas se entrelaçam ao humor na medida do respeito e dignidade que a vida propicia às situações extremas nas quais nos infiltramos. E existem cenas primorosas, inesquecíveis pelo cuidado da realização: a participação numa filmagem, como figurantes, onde os atores principais fazem mímica numa mesa de restaurante, é uma hilária homenagem, muito bem incluída, ao cinema mudo; o filho num telefone tentando negociar com os fornecedores para garantir o futuro do restaurante, enquanto que o pai, em outro telefone, ao convidar os amigos para o seu casamento entra em contato com o fato de a grande maioria estar morta; o diálogo entre o filho e o padre que se recusa a fazer o casamento do pai, é uma ferina crítica social despejada pela indignação frente à hipocrisia. São alguns exemplos dos muitos que o filme nos oferece e que não se limitam a nos proporcionar emoção, mas, sobretudo, nos fazem refletir.

Acompanhamos ao longo do filme tantas situações tensas, dramáticas, ridículas, sensíveis, que nos fazem percorrer uma série de emoções contraditórias, que o final do filme acontece na mais perfeita desordem, tal qual a vida, que sempre embaralha os acontecimentos permitindo que busquemos soluções criativas frente aos pequenos caos diários que vivenciamos.