Minha vida na outra vida

Existem situações que uma explicação não vem com a mesma naturalidade de quando a emoção chega.

Estava assistindo ao filme e dava sinais de certa irritabilidade não apenas por ser uma versão dublada, mas, sobretudo, porque as cenas iniciais já me antecipavam o filme de cabo a rabo. Ainda pensei se eu realmente iria dispensar duas horas da minha curta vida para assistir ao que não me traria nenhuma novidade e que sem muita dificuldade poderia descrever todos os pontos da trama antes deles acontecerem.

Mas como a fotografia de uma cidadezinha da Irlanda me pareceu muito simpática e agradável de ser percorrida, resolvi encarar que não seria de todo um desperdício. E foi então que apesar de toda a previsibilidade, dei por mim chorando copiosamente, a ponto dos soluços instigarem os cachorros a se aproximarem para conferir o que estava acontecendo. Caramba! Se eu podia adivinhar tudo que iria acontecer, por quais razões tanta emoção me encharcava?

Um filme realizado em 2000 com direção de Marcus Cole, cuja notoriedade ficou restrita à Austrália e assim mesmo de forma tímida, tendo no elenco Jane Seymour (Em Algum Lugar do Passado) e demais atores que mesmo sem exuberância cumpriram a missão; com um roteiro previsível….. Bom, vocês podem imaginar que meu choro era de absoluta insatisfação, mas não foi assim: chorava de emoção pela história, mesmo que antecipadamente conhecida.

Parece que algumas emoções ficam inativas, em algum canto da gente, esperando um simples cheiro, palavra, gesto, imagem para romperem a fina camada e virem à tona. Quando esse botão é acionado surpreende por, geralmente, não existir um motivo evidente para se manifestarem. Inconvenientes com relação a lugar e hora, por outro lado nos trazem uma espécie de alívio por desocuparem um espaço que não sabíamos que lá estavam de tocaia. Todo o chororô se deu antes mesmo de eu tomar conhecimento de que o filme é baseado em fatos reais, e como a arte é sempre requalificada pela realidade, novo ímpeto se manifestou em lágrimas.

O filme, enquanto desfecho é bonito, é comovente, e continuaria preservado nesses adjetivos independente do vínculo da reencarnação com que é conduzido. Ou seja: poder promover situações que façam com que outras pessoas – próximas ou desconhecidas – se sintam melhor, deveria ter uma freqüência maior nas nossas vidas. Não me refiro àquelas ações filantrópicas, tipo distribuir sopa para os pobres, porque geralmente quem promove tais eventos não consegue se desvencilhar da vaidade por praticarem tais atos, o que diminuí a doação na medida em que também se alimenta do orgulho de se considerarem pessoas de bem.

Enfim, não posso recomendar o filme pela singularidade da história, nem pela extraordinária atuação do elenco, nem pelos efeitos especiais que não existem, nem pela fotografia que não passa de interessante, nem pela trilha sonora que mesmo bem encaixada não arrebata. Recomendo o filme, então, pela possibilidade de lhe fazer chorar e deixar a sua alma menos ocupada…..

2 Comentários até agora.

  1. Tania disse:

    Não vi, ainda. Tô precisando mesmo arejar a alma. Bj.

  2. Jandiara disse:

    Acabei de assistir o filme. E é o que vc diz no último parágrafo: “chorar e deixar a sua alma menos ocupada”. Obrigada pela recomendação. Bjs