Bróder

Demorei um pouco para assistir por imaginar que seria apenas mais um filme de favela. Mas Bróder é bem mais que isso. História de lealdade, amizade e ternura entre três amigos que cresceram juntos, mas que seguiram caminhos distintos na vida. Macú, Jaiminho e Pibe são os três personagens que contracenam com um quarto: Capão Redondo (uma das maiores favelas da cidade de São Paulo).

Trata-se do primeiro longa metragem do diretor Jefferson De, que trouxe singularidade nas tomadas de cenas ao distinguir repulsa e afetividade num jogo bem composto de aproximação e distanciamento da câmera em conformidade com os sentimentos. As tomadas da favela interagem não apenas como uma moldura, mas realmente como um personagem participando da história e sugerindo capacidade de influenciar destinos.

O filme descreve o reencontro de três amigos que cresceram juntos no Capão Redondo: Macú (Marco Aurélio) o branco que nasceu e permaneceu morando na favela; Jaiminho que se tornou um jogador de futebol famoso com forte possibilidade de ser convocado para a seleção brasileira; e Pibe que saiu da favela e trabalha duro para sustentar esposa e filho como corretor de imóvel. A partir dessas e outras histórias de vida nos são trazidas discussões sobre racismo, violência urbana e determinismo social.

Macú – não à toa o nome nos faz lembrar Macunaíma – é o pretexto que traz Jaiminho e Pibe ao Capão Redondo: aniversário de 23 anos de Macú organizado em surpresa pela mãe. Essa aproximação dura apenas um dia, tempo suficiente para identificarmos entre os amigos o amor e pequenos ódios que não impedem que eles tomem decisões para preservar uns aos outros. Os conflitos antigos do tempo em que cresceram juntos e os novos conflitos decorrentes de não estarem mais juntos, evidenciam o quanto é difícil sairmos de alguns lugares e ainda mais difícil retornarmos a eles.

Capão Redondo está lá como um personagem onipresente, intervindo nos códigos sociais da comunidade. Das janelas e portas, todos estão observando, vigiando a vida dos outros. Um corpo estirado no chão não tem maior impacto frente à possibilidade de se ter o autógrafo de um jogador de futebol famoso. Os vícios, os crimes e a austeridade dos preceitos religiosos são servidos numa mesma bandeja, e cada elemento disputa por arregimentar o maior número de adeptos para a sua causa. Todas as causas me pareceram sempre perdidas.

Caio Blat conseguiu estraçalhar todas as minhas resistências com relação ao mérito do seu trabalho. Está excepcionalmente brilhante, absolutamente possuído pelo personagem, alternando ternura e medo com uma veracidade comovente. A química com os demais atores (Jonathan Haagensen e Sílvio Guindane) é perfeita nas transformações instigadas pelos sentimentos contraditórios que os aproximam. Cássia Kiss e Ailton Graça são coadjuvantes de primeira grandeza na respiração da história.

É preciso ter coragem para saber que não se diz “bróder”, mas que é preciso agir como “mano” nessa vida que julgamos levar, mas é ela que nos arrasta.

2 Comentários até agora.

  1. Tania disse:

    hummmmm. não sei.

  2. Vera Menezes disse:

    rsrs….. às vezes é muito difícil quebrar paradigmas….