Tempo da Delicadeza

Tipo assim: singelo, tocante, delicado, belo, comovente, terno… Dificilmente após a última cena do filme “A Árvore do Amor’ um, alguns, ou todos esses adjetivos não passem pela cabeça do espectador enquanto enxuga as lágrimas, ou tenta lidar com o nó arranhado na garganta.

Zhang Yimou (“Lanternas Vermelhas” – 1991, “O Clã das Adagas Voadoras” – 2004) já se consagrou pela competência em saber emocionar, mas aqui, com o luxuoso suporte da fotografia de Zhao Xiaoding e da trilha sonora de Qigang Chen, tudo se potencializa para que os atores, Shawn Dou (Sun) e Zhou Dongyu (Jing), nos desamparem da razão e nos convençam da possibilidade do amor.

A idéia do filme surgiu a partir de um livro publicado na internet em 2007, baseado numa história verídica. Uma jovem ao completar o ginásio é mandada, pela Revolução Cultural Chinesa (1960), para uma vila do interior num processo de reeducação comunista, com o objetivo de livrar os intelectuais urbanos dos preconceitos e atitudes burguesas. Essa jovem carrega a responsabilidade de poder oferecer melhores condições de vida a sua família, pois o pai foi preso pelas suas idéias liberais e em função disso a mãe foi exonerada da função de professora para assumir o cargo de faxineira na escola. A possibilidade da família (mãe e dois irmãos menores) superar as dificuldades financeiras se concentra em Jing, que deverá demonstrar irrestrita obediência patriótica para alcançar a posição de professora. Tudo se torna mais difícil porque são muitas as desconfianças em função da desgraça política vinculada ao pai.

A jovem Jing é enviada, portanto, a uma vila no campo, passando a conviver com uma família que também acolheu o jovem Sun, estudante de geologia num acampamento próximo e filho de um general do Partido. As diferenças sociais entre os dois e a necessária prudência exigida de Jing em acatar a rigidez patriótica, não impedem que os dois jovens se apaixonem e vivam, em segredo, o sentimento que os une. A partir daí, são os pequenos detalhes do dia a dia, poeticamente valorizados, que nos fazem lembrar que, independente das adversidades, são as atitudes, as ações em si, que desvendam os íntimos sentidos e a profundidade que demonstramos em relação à vida.

Assim que Jing chega ao campo, a primeira lição que lhe é transmitida pelo Partido, se dá a partir de uma árvore próxima à vila, batizada pelos moradores de “Espinheiro dos Heróis” pela suposição de que as flores, que brotam numa determinada época do ano, deixaram de ser brancas e passaram a nascer vermelhas em função da morte dos soldados chineses, que foram sacrificados ali na Segunda Guerra Sino-Japonesa. Esse espinheiro também empresta suas flores vermelhas à história de amor de Jing e Sun.

Apesar de ser forte o rufar dos tambores revolucionários entremeado no filme, não se trata de um panfleto ati-maoísta, nem excessivo, frente aos fatos históricos, as passagens evidenciadas no culto à personalidade do líder imposto pelo regime. Tal contexto cumpre o papel de reafirmar o quanto o amor é capaz de se impor às dificuldades.

Algumas cenas do filme talvez sejam insuperáveis pela densidade poética: quando os dois seguram lados opostos de um galho e aos poucos as mãos vão se aproximando até dispensarem o galho que as separava; os gestos de um abraço imaginário que um lança para o outro tendo entre eles um rio de distância. O cuidado das imagens em acompanhar lentamente a aproximação física entre os dois: numa das cenas iniciais, Sun oferece uma bala para Jing e a câmera acompanha o momento em que Jing retira a bala sem tocar na mão estendida de Sun. O mesmo retraimento quando recebe dele uma caneta tinteiro. O constrangimento de Jing frente aos avanços de Sun e a comovente reação compreensiva do rapaz, com freqüência confirmam o devotamento do jovem namorado à sua amada.

Sem dúvida uma crônica de época, permeada de inocência e velados códigos de sensualidade que enaltecem a descoberta do amor e nos faz revirar memórias, ou expectativas, na experiência do sublime.

2 Comentários até agora.

  1. Tania disse:

    De fato, fazia tempo que um filme não reunia tanta delicadeza e competência. Um daqueles que a gente deve guardar no coração. Bj