As Chances são de 50%

Certamente a dimensão do título acima só se completa a partir das referências a ele atreladas. Com muita freqüência me incito a ousar alguma coisa nova e arriscada, me fortalecendo ao dizer que tenho 50% de chances de acertar contra os outros 50% de errar. Mas isto não é verdade e são muitos os exemplos que denunciam essa falsa paridade: minhas chances são bem menores de 50% se eu tentar, por exemplo, chegar viva após uma caminhada de 8 km. Afinal, além de fumante, o meu sedentarismo reduz minhas possibilidades a algo em torno de 2 a 3% de êxito. Enquanto que para outros essa investida alcança 80 a 90% de sucesso.

O filme em questão diz respeito à possibilidade de sobrevivência de uma pessoa com câncer na medula, mas cai para menos de 10% se a metástase já tiver ocorrido. O filme dirigido por Jonathan Levine, conta a experiência de vida do próprio roteirista – Will Reiser – que bem jovem teve que enfrentar essa circunstância.

Não. Não pensem que a temática os levará a um melodrama ordinário ou a um health-movie pedagógico, descambando para auto-ajuda. O caminho do diretor não foi esse, e exatamente por isto a originalidade do filme. Não faltam clichês: jovem com câncer na coluna, traição da namorada, se apaixona pela terapeuta, amizades valiosas com os colegas de quimioterapia, um amigo um pouco sem noção, mãe sufocante, etc. A grande diferença é o triunfo do humor sensível que permeia todas as situações conseguindo um realismo e sobriedade de qualidade incontestável. Existirão lágrimas e existirão risos, mas a verdade da vida, com muita freqüência, anula qualquer distância entre a lágrima e o riso. E quem dirá o contrário? A direção de Jonathan Levine aprecia os detalhes pela convicção muito clara que cabem a eles a importância de uma boa história. Os detalhes de um olhar ou de um sorriso, além de possuírem o significado que mil palavras não alcançariam, permitem evidenciar o talento dos atores. Neste item todos estão impecáveis: Joseph Gordon-Levitt concorre ao Globo de Ouro, mas Seth Rogen no papel do amigo pouca-prática mas solidário, Angelica Huston numa discreta participação da mãe sufocadora, Anna Kendrick a analista inexperiente coletando material para o doutorado. Todos, sem exceção, perfeitos.

A um determinado momento – e talvez aí esteja a nascente das vezes que percebemos a vida com o inevitável humor que a faz pulsar – Adam, por ser o único com tudo a perder, passa a assumir uma posição de espectador da luta: a doença de um lado, e seu corpo e os médicos de outro. Acredito que quanto mais distantes nos colocarmos da pungência dos fatos que nos ocorrem, maiores a nossa chance de rirmos da vida…