Comercialização do tempo

Muitos têm que morrer para que poucos sejam imortais. Se todos pudessem ser eternos, não haveria espaço suficiente. As zonas de tempo existem para dividir os que têm tempo de sobra daqueles que precisam lutar pelo tempo de cada dia. O custo de vida sobe na periferia para que as pessoas continuem morrendo. Às vezes as taxas e preços aumentam mais de uma vez em um único dia. Alguns têm milhões de anos enquanto outros nem mesmo um dia. Uns com tempo demais, outros desesperados por terem alguns minutos. Mas, na verdade ninguém precisaria morrer antes da hora certa. Se o seu relógio do tempo tivesse milhares de horas, provavelmente você iria parar de olhar para ele, pois não teria mais a preocupação com as poucas horas que minuto a minuto se esgotam.

O filme “O Preço do Amanhã” (“In Time” – título original) não é uma primorosa direção do Andrew Niccol, ou talvez seja se considerarmos que a condução filme permite que o espectador deixe de acompanhar por alguns segundos a trama e se imagine participando da estrutura de vida que o filme apresenta. Esse deslocamento já é uma enorme valia da criação.

Portanto, somos arremessados para dentro de um universo paralelo: os cientistas descobriram como eliminar o gene do envelhecimento e assim, todos param de envelhecer ao completar 25 anos de idade. Mas é o detalhe que faz toda a diferença: assim que o indivíduo completa 25 anos, é acionado um contador de horas implantado no antebraço de cada um que lhe dá o direito de viver por mais um ano (ou 8.760 horas). O tempo é a moeda circulante: a cada dia de trabalho, na saída, ao invés de bater ponto, o profissional recebe uma quantidade de horas, acrescida no seu relógio individual; as contas de luz, gás, e outras, são convertidas em horas e subtraídas do relógio. Os bancos, os penhores, os pedágios, todos os impostos e todas as remunerações são operacionalizados a partir de uma máquina portátil capaz de conceder ou retirar as horas do relógio subcutâneo de cada pessoa.

Neste sistema, a cidade é divida em duas zonas: na periferia os que vivem na urgência do tempo; na outra parte os abastados, que dispõem e se distinguem pela quantidade de horas a que têm disponibilidade. Como o tempo é a principal ferramenta de sobrevivência existem tanto os guardiões do tempo (policiais que tentam preservar as horas de cada cidadão) quanto os mafiosos que se ocupam em roubar as horas de outras pessoas.

Vou até aqui no contexto do filme. O que me interessa e me estimula a compartilhar com vocês é saber em que medida nosso comportamento seria diferente se esse universo construído no filme não fosse ficcional e, portanto, nos obrigasse a interagir com ele. São muitas as perguntas que me instigam: 1- Até que ponto seria suportável ter um dispositivo qualquer que nos apontasse minuto a minuto o tempo de vida que ainda nos coubesse usufruir, com o agravante de ser da nossa responsabilidade identificar um meio para aumentar essa quantidade de tempo. A loucura seria uma epidemia? 2- Se você tivesse que pagar a sua conta de luz com horas suprimidas da sua vida, que economia de eletricidade você faria nessa circunstância, mas que hoje você não se preocupa? 3- Se você tivesse que ceder horas do seu tempo de vida na compra de qualquer coisa, das mais básicas às mais inúteis, olhando a sua volta qual o volume atual das suas posses que efetivamente seria dispensado se para adquiri-lo horas, meses, anos de vida fossem a moeda de compra? 4- Lhe restando menos de 5 minutos para continuar a viver e sem meios lícitos de angariar mais tempo de vida, que atitude você tomaria frente a esse fato? 5- O que você faria se tivesse um milhão de horas e ao seu lado, um desconhecido, só tivesse um minuto de vida? Considero essas cinco perguntas indispensáveis para que uma série de outras se coloquem a reboque. Certamente algumas respostas exigem coragem para serem processadas, outras permanecerão silenciosamente não reveladas.

Acho que por falta de discernimento não conseguimos perceber em nós o tal do relógio subcutâneo impassível na contagem regressiva. E bem aventurados nós somos, que poupados da eterna juventude conseguimos dar condições para que esse tal relógio, vez por outra, soe estridentes alarmes….

Pagaria o triplo do tempo dispensado neste texto se ao menos uma dessas perguntas não lhe abandonasse no minuto seguinte à leitura.

2 Comentários até agora.

  1. Tania disse:

    De fato, a direção não é mesmo uma obra prima, mas o filme consegue nos fisgar com os ponteiros do relógio, que não cessa de tiquetaear inexoravelmente. De fato, hurras à nossa perenidade natural! Seria (será) um castigo cruel demais para o homem do futuro.

  2. Brotosaurus disse:

    Bem…

    No primeiro segundo da concepção, na primeira divisão de uma célula, parece que “começamos a morrer”. Ganhamos tamanho, beleza, cabelos brancos e outros tantos atributos, mas jamais acesso aos mecanismos de recarga da “bateria do tempo” que vai se esvaindo aos poucos a partir de então.

    Uns e outros parece que conseguem fazer uma “ligação direta” para acelerar a descarga dessa “bateria” e assim acabam mais rápido como fenômenos que são.

    No mais, parece que tudo segue inexorável na mesma direção e nós seres da natureza querendo nos colocar além daquilo que iniciou e terá que finalizar em algum instante.

    Independente das receitas e das despesas, independente do tamanho da “riqueza” ou do tamanho da “pobreza/ falência” em um dado momento a “bateria vai acabar” nos apontando para o pequeno sonho de negação que a maioria de nós viveu ou/ e está vivendo.

    Aceitar e despertar para que a consciência se manifeste, negar/ lutar e acreditar na transcendência sem consciência, aceitar viver a natureza onde tudo se transforma e que em um determinado momento comemos e em outro seremos comidos, e por aí vai o nosso movimento apenas mental, que só existe nas nossas cabeças e ainda se constitui em um atributo apenas de nós humanos…

    Como sair dessas e outras no mesmo rumo?! Será que apenas trilhando o caminho com atenção? Lembrando de si o tempo todo?

    Será que se existir desespero (não existência de esperança) poderemos ter acesso aquilo de chamamos de felicidade nesse curto caminho entre o nascimento e a morte?