Diferente de ser-para-si

Nunca cheguei a lhe dizer algumas coisas que sempre foram encantadoramente percebidas no que diz respeito ao seu comportamento, ao seu jeito de ser. Nunca lhe disse, mas hoje senti uma vontade incontrolável de registrar tudo isso, e não me importo com a impossibilidade de lhe entregar pessoalmente. É que não se encontra com muita frequência essa sua elegância de espírito, essa incondicional capacidade de doar-se. Arrisco dizer que o molde foi quebrado quando você foi embora: por aqui ficaram imitações de valor duvidoso.

Você sempre soube atravessar meus silêncios com a habilidade de não ser invasivo, desconstruindo meus estados ensimesmados, realinhando a dispersão do meu olhar para que meus incômodos fossem encarados sem a assistência do medo. Meus medos sempre giraram em torno da insegura imagem que fazia de mim mesmo. Você nunca a retocou com seus próprios instrumentos: deixava para a mim a incumbência de me rebiografar ao meu tempo, dentro das possibilidades das minhas percepções e entendimentos. E você vibrava a cada passo que eu conseguia. Se mostrava surpreendido, encantado com meus avanços… mesmo insignificantes, mesmo trôpegos, mesmo sem direção.

E o que dizer das vezes em que lhe menti sobre a dimensão dos fatos, quando carreguei nas cores dos meus feitos, quando costurei na minha pele uma capa esgarçada de super-herói manco, quando me fiz mais bonito sem perceber a crueldade do espelho apontando a maquiagem borrada. Você não dizia nada: me apertava em um longo abraço, sem tempo e hora, encaixando seu rosto sobre os meus ombros para que não houvesse a menor hipótese dos seus olhos traírem vestígios de qualquer julgamento sobre a minha pessoa. Abríamos um vinho, ou preparávamos um café e, pacientemente, você emprestava sua atenção ao discurso ditado pelas minhas necessidades, pelas tristonhas lacunas que eu não percebia em mim. Não sei quais os fundamentos da sua generosidade comprometida com a tolerância. É certo que você tinha clareza que no caminho dos homens existe uma esquina que faz com eles ensaiem valores, intentos, desejos, sem se darem conta que apenas expressam a medida do que não têm a oferecer. Nessas horas, você nunca corrigiu tamanho, ângulo, lógica, apenas ouvia balançando a cabeça em sinal de reconhecimento, entusiasmado, conivente com os meus tolos delitos que não cabiam em nenhum código penal.

Quando o desespero me alcançava, espalhando medo, me empurrando para dentro do porão úmido das minhas incapacidades, você se aproximava quase invisível. Se incumbia de pequenas tarefas para que eu me sentisse menos desconfortável. Às vezes tentava puxar conversa, outras vezes mantinha-se em silêncio. Choramos juntos, tantas incontáveis vezes… Essas situações, geralmente, terminavam comigo tomando alguma providência para que a sua tristeza não me deixasse preocupado. Era sim: você com a sua manifestação de solidariedade, conseguia fazer com que eu tirasse os olhos da minha própria dor para lhe atender num pedido que, provavelmente, não tinha outra finalidade a não ser me arrancar do abatimento.

Depois que você se foi, é a sua lembrança minha constante companhia. Me ancoro na memória tentando, sem muito êxito, calafetar o irremediável dessa saudade. Apesar do seu exemplo, minha capacidade de amar é um arremedo ridículo e torpe, impregnado de egoísmo. Meu amor dita regras, se arvora a dar conselhos, julga, espera ser correspondido, exige alguma espécie de direitos adquiridos. Meu amor só ama a si mesmo.

Aprendi tão pouco…

Texto inspirado numa frase do filósofo alemão Theodor Ludwig Wiesengrund-Adorno, do livro Minima Moralia (1945): “Serás amado quando puderes mostrar tua fraqueza sem que o outro sirva-se dela para afirmar sua força”. 

4 Comentários até agora.

  1. Brotosaurus disse:

    Maaaraaaaviilhosoooo!!!!!

  2. Brotosaurus disse:

    Você acabou de ganhar de presente o livro de André Comte-Sponville O Amor que é um pequeno tradado sobre esse tema.

  3. Tania disse:

    Que lindo, amiga. A lição sabemos de cor, só nos resta aprender. Bj.