Tudo que eu sempre sonhei….

Desanimou?

Desanimou em qual parte? Olhando por qual ângulo? Com qual intensidade?

Hum… Recomendo um banho de chuva. Tipo de coisa que se faz aos três, aos trinta e aos sessenta anos de idade, sem que isso signifique que se faça à vida inteira. Tem certos momentos na vida que você tem que fazer ao menos uma coisa, de preferência uma das bem simples sem ser corriqueira, daquelas feitas por você mesmo quando você era um outro mesmo de você. Vamos dizer que seja uma pós-graduação da experiência de quando se lê o mesmo livro dez anos depois da primeira leitura, ou quando o mesmo filme é revisto a tempo de não terem sido esquecidas as boas lembranças trazidas pelo título. Pois tome agora um banho de chuva e você, sem nenhuma dúvida, irá se oferecer um grande sorriso, talvez até uma gargalhada, porque a chuva lhe trará lembranças de você num mesmo gesto a partir de outras motivações.

Desanimar é um sentimento tão íntimo e fala tanto da gente. Fala tanto que na maioria das vezes nos esforçamos para mantê-lo em segredo. Por isto, talvez a mais íntima das sensações. A alegria, a dor, o amor, quase sempre são estampados na primeira página do seu jornal, com letras bem grandes, mas o desânimo, o máximo que consegue é arquear os ombros e colocar o olhar a uma distância consideravelmente longe da vida. Desânimo é um estado “mais ou menos” e não merece maiores considerações além de um “vai passar, vai passar…” Pode até ser assim, mas não é mágica nem milagre os responsáveis por se chegar à outra margem desse rio.

Acontece que desânimo é quando a vida passa a gente a limpo. Geralmente pegamos um fato, uma situação, e fazemos dela o altar onde, solenemente, depositamos nossos motivos para perder o entusiasmo. Dois, três, quatro passos à frente e nos damos conta que o desânimo nada mais é que a decepção que sentimos por nós mesmos.

Ora bolas, algumas dificuldades causam estranhos faniquitos, nada mais que isso. Equívocos parecidos a quando confundimos desmaios com morte. Apenas. Portanto, dispense tão somente o tempo necessário para entender alguns prismas e siga em frente, porque desânimo deve ser tão somente o intervalo de tempo que se leva para virar a página de um livro. O tempo de um piscar de olhos, de preferência. Pois é, algumas das suas expectativas resolveram seguir direção diferente da que você previu. E daí? Não me venha dizer que você imaginava que podia ser bem sucedido em tudo. Já passamos dessa fase, bem lá atrás, né? Alguns dos nossos tímidos sorrisos consumiram um investimento muito maior que o suposto, mas nem por isso nos privamos do sorriso ao brindar o resultado. Algumas daquelas ideias geniais, maravilhosas, revolucionárias, foram pelo ralo, ali, bem pertinho da porta fechada que a realidade impôs; nem assim deixamos de fazer novos planos, novas investidas. Viver é essa coisa doida de ousar um pouco mais, sem nenhuma garantia de coisa nenhuma. Sem falar naquelas vezes que miramos num balão azul e atingimos o vermelho, com direito a elogiosos reconhecimentos pela suposta precisão de mira.

Portanto, não desanime com você não. Nem me venha dizer que são tantas coisas que deram errado que não existe condição de “sacudir a poeira e dar a volta por cima”. Talvez o tamanho da dificuldade seja proporcional ao que de melhor vier quando alcançada uma posição diferente da atual. Não tenho nada a lhe oferecer neste momento, a não ser as suas próprias lembranças: os pedaços recolhidos pela sua memória ao longo da jornada que você mesmo traçou. Você vai se dar conta que é vasto o repertório dos enganos de que se serve qualquer caminho. Mas não fique preso a esta constatação: observe que foram todos os seus equívocos que permitiram a aprendizagem das melhores lições. E como tudo foi tão bem encaminhado nas vezes em que você se recusou aceitar a armadilha de vítima que facilmente os desanimados nela se enroscam.

Aproveite: o seu desânimo é o tempo da regeneração que se aproxima. E quem tem o cronometro é você.

2 Comentários até agora.

  1. Tania disse:

    O Drummond também tem um texto lindo como o seu sobre o desânimo. É bem isso… quantas vzs desanimei, querida…quantas. Prá depois a vida inisistir, o sangue retornar devagarinho às veias já descrentes. Lindo. Um beijo.

  2. Kelly disse:

    Desânimo… como eu quero acreditar que é apenas eu mesma desiludida com o eu. Me encontro derretida em lágrimas e ao fundo essa música tocando como um remédio que se toma de tempo marcado. Esse tempo agendado que não me faz sentir outros prismas… Sei, sei sim o quanto dramática, moralista, higienizadora que eu sou. Sei também que vivo numa luta constante para sair desse vício que ainda me sustenta em pé. Bem, foi essa a maneira que a vida me permitiu sentir até esse momento, e quando disse à vida que eu podia mais e que necessitava sentir o belo, aceitar a transformação, fui implicada, atravessada pelo nó que essa agenda do tempo dá na alma/corpo, na alma/razão….Sei que estou ligada a algo que talvez não seja nada mais que um simples surto de mais uma melodramática sensação dos últimos momentos, mas mesmo assim cada vez mais sinto o desejo constante que me inunda a razão e me leva para o laço que prende uma corda, ou para o abraço de um abismo qualquer que me conduza para a certeza de toda incerteza da existência. Desânimo não sei; cansaço não sei; mas medo, tenho certeza….tamanho é o medo que me impede, até o momento, de não concretizar minha visão da vontade. Fico me questionando: até quem pede a morte é porque, contraditoriamente, ama a vida. Mas que vida? Vida que se chama injustiça do eu mesma; vida que me coloca nos ombros a dor de ter desejado ser o que o mundo diz sujo, incorreto, impróprio, impuro, promíscuo. Vida que faz com que eu aceite cada segundo a dor da comparação e dizer sempre que não tenho nada, não sou nada, nem ninguém. Vida que me dá insegurança de escrever, pois simplesmente meu ego sujo e masoquista sofre de uma inferioridade camuflada de superioridade. Bem, mesmo assim ainda é uma vida, mas uma vida desanimada. E o pior desse desânimo é realmente não poder condenar ninguém além do eu.
    Continuo querendo acreditar que é apenas eu mesma desiludida com o eu.
    Belíssimo texto. Algo que coloca em letras a experiência e que contribui para as desesperadas, como eu, que acreditavam que na vida haveria uma linha de chegada transmitindo com letras enormes: PARABÉNS VOCÊ CHEGOU! Mas na verdade será sempre essa coisa, algo, sensação, crença, a ser criada e recriada a cada segundo.
    Te adoro Vera. Beijos