As Flores da Guerra

Não sei se o título em português é fiel ao original (“Jin Líng Saí San Chai”), mas é preferível ao do romance de Yan Geling (“The 13 Women of Nanjing”) no qual o filme se baseia. Romance e filme recontam o massacre da cidade chinesa de Nanjing, invadida pelas tropas militares japonesas em 1937. Esses 75 anos distantes do fato me fazem pensar na possibilidade de ainda estarem vivos alguns sobreviventes e quais os legados transmitidos oralmente a seus descendentes. O que nos é mostrado faz parte de um desses repertórios privados que jamais serão editados pela História.

O filme é do diretor Yimou Zhang que já nos deixou com aquela espécie de contemplação interrogativa desde “Lanternas Vermelhas” e “O Clã das Adagas Voadoras”. Ao que tudo indica, quando o diretor e a equipe se entrosam é a arte que se beneficia dessa cumplicidade. No caso, a fotografia de Xiaoding Zhao é o contraponto poético das atrocidades da natureza humana. Um movimento de corpo, uma expressão de rosto, a luz trêmula atravessando um vitral que ainda retém alguma beleza, são detalhes oferecidos ao olhar na narração dos fatos. São essas sucessões de flashes que indicam o pertencimento da memória. A memória sobrevive ao medo.

São as circunstâncias que acionam nos homens a expressão de seus momentos. A partir daí, bem e mal são tormentos colhidos e digeridos ao sabor das resoluções que conseguimos frente à vida. Matar, por exemplo, é um segredo que pode revestir o heroísmo ou a covardia: ambos se alimentam do mesmo resultado. O que determina a diferença entre eles vem da angústia que cada ser humano traz em si e da capacidade de lidar com elas. São as angústias os embriões da ética e da moral? Mas talvez seja necessário que as agonias não fiquem restritas à percepção do indivíduo em si mesmo: que sejam angústias ansiosas por raspar a crosta do céu, ou as ranhuras da terra. Assim cosmopolitas. Se pedirmos a duas pessoas que nos relatem um fato que foi vivido simultaneamente por ambas, certamente teremos duas versões diferentes de uma mesma história. São as angústias individuais que as levam por narrativas singulares. A violência chamou atenção no filme. Menos as sequências de guerra, mais a maneira com que lidamos com a violência: dependendo das circunstâncias torcemos para que aconteça (ficamos ansiosos para que a mortandade seja bem executada) e em outras ficamos na expectativa que não ganhem espaço (que sejam poupados aqueles a quem devotamos simpatia). Até conseguimos esquecer que os atos heroicos estão impregnados de enorme violência.

Se ao justificarmos determinados atos de violência – ao ponto de identificarmos neles sinais de nobreza, tais como, honra, heroísmo, coragem… – isto, definitivamente, nos faz aterrissar dentro de um enorme paiol emocional. A violência, em nós, fica na espreita, aguardando a oportunidade de se manifestar. Nada diferente disso.

Terminei de assistir o filme e fiquei daquele jeito estranho de quando os olhos preferem buscar nos detalhes o sentido do mundo. Tipo completamente sem jeito. A violência quando distingue os heróis dos vilões passa a ser o elo desconfortável que não admite a ninguém ocupar o banco dos réus.

O olhar doce é quando a violência repousa a construção de um gesto final silencioso. Enquanto isso, as pálpebras se movimentam num eterno abrir e fechar, fragmentando a vida em pequenos instantes por onde a lucidez sangra em desistência.

Sim, um filme precioso.

Um Comentário até agora.

  1. Tania disse:

    Análise tão preciosa quanto o filme, querida.
    Também nós terminamos o filme sem dar palavra, buscando no silêncio a exata tradução de tudo que aconteceu. beijo