Nas vezes em que aqui me aconchego

céu

No primeiro olhar consegui identificar algumas montanhas,  um mar e o céu cobrindo todo o relêvo exuberante em azul.  O primeiro olhar, aprendi há muito tempo, é sempre importante porque traz em si a armadilha da meia verdade. Mas verdade inteira não consegui encontrar até hoje…. Depois fiquei olhando a fotografia e me dei conta que tudo é uma coisa só, chamada céu. Sempre me confundi entre o céu e o mar, e nunca respeitei a possibilidade de terem identidades próprias. Ambos parecem ter sido criados para facilitar ainda mais a tendência natural que tenho de me perder: quando olho o céu, as nuvens me hipnotizam e me atiro sem nenhuma resistência aos seus contornos e movimentos femininos; quando olho o mar, é a minha alma rendida que se abandona  à virilidade do encontro das ondas e se estremece a cada sussuro do mar.

É por esta fotografia que a menina risonha salta de mim e me toma pelas mãos. Estas visitas sempre me fazem dançar, me fazem cantar… Seguimos pulando por todos os pontinhos brancos e macios,  dando nome às montanhas, contando as ondas de um mar imaginário e identificando outras formas que as nuvens envaidecidas se oferecem mais e mais bonitas. E seguimos assim, brincando, e a cada sorriso vou percebendo que a felicidade tem o tamanho mágico de uma gota de chuva, ou um raio de sol atravessando a nesga de uma cortina distraída do seu propósito. Felicidade é coisinha pequena, por isso tão difícil de se encontrar, de se enxergar.

Nesta fotografia converso também com deus (assim minúsculo, no seu difícil exercício de humildade). Ele me fala coisas tão bonitas que percebo que intimamente deve se sentir solitário e um pouco frustrado pelo mundo que ficou enguiçado num determinado ponto do processo evolutivo. Me conta que passa seus dias remendando sentidos, costurando sentimentos não correspondidos e tantas outras tarefas que me parecem desaconselháveis para a sua aparente idade… Mas fala tudo isso com tamanha esperança de que tudo um dia vai melhorar, que sinto certa cerimônia em apontar qualquer direção contrária. E a menina que sou, apenas acaricia os seus cabelos cor de nuvem e lhe pega a mão. Costumo chamar de paz o silencio de duas mãos que se entregam….

Esta fotografia também já me fez perder compromissos; já me fez perder a hora do jantar e a hora do remédio. Mas tudo fica plenamente justificado porque se ganha vida nas vezes em que a alma escapole e sai por aí recolhendo para si as sutis evidências que misturam beleza com amor. E alma sempre é intransigente na busca da verdade.

Um Comentário até agora.

  1. Tania disse:

    Que lindo! Me lembra a vista de sua varanda. Horizonte infinito. Eu perderia (será que perder é a palavra?) muitos compromissos por sua conta…. beijos saudosos de tudo!