Estopim – Carla Dias

Levei um ano esperando o lançamento do mais recente livro de Carla Dias – Estopim. A ansiedade cultivada um ano inteiro é daquelas raras, das que você tem a garantia que será recompensada pela impaciência de ter que esperar. E não foi diferente: um genuíno deleite.

Os bons livros são aqueles que ao final da leitura nos deixam uma sensação de abandono. Ou melhor, uma espécie de saudade por não dispormos mais da companhia dos personagens quando a finalidade que os levou a ser criados esgota-se na missão cumprida. E o curioso é que mesmo sabendo que esta sensação acontecerá, a avidez da leitura, pela excelência do conteúdo, não esmorece frente a essa curiosa impressão de que ficaremos mais solitários quando privados da “convivência” desses seres inventados que generosamente nos ofereceram a interpretação de suas vidas. E sempre a inevitável consequência de refletirmos sobre a nossa própria vida…. Sorte nossa que temos uma segunda chance de permanecer mais tempo usufruindo dos personagens de Estopim, a partir de uma trilha sonora, construída de canção em canção a cada capítulo.

Estopim, a exemplo dos livros anteriores da autora (Os Estranhos e Jardim de Agnes) prima pela beleza de estilo. Uma especial e única habilidade de salpicar poesia na realidade, sem deixar nenhum rastro de delírio, nenhum vestígio de impossibilidade. Tenho cá para mim que esses fatores só são possíveis a partir de um incondicional respeito pelos caminhos nos quais arrastamos os nossos pés na vida. Em outras palavras, uma descarada consideração pela biografia de cada um. Aliás, biografia é uma palavra-mantra talhada na produção da autora.

A excursão que nos conduz Estopim segue um itinerário angustiado dos abandonos que a vida nos oferece, ou às diferentes portas que tentamos abrir e fechar para sobreviver à coleção de abandonos que acumulamos. Mas abandonos nem sempre são registrados nos cartórios dos fatos, muitos, somos nós que assim os qualificamos a partir da matéria com que nos construímos enquanto indivíduos. Mas isso pouco importa, pois sejam eles reais ou idealizados, quem os sente não lida com esses filtros racionais. Sente e pronto!

Sentir é o primeiro estágio na relação do indivíduo com a vida. Sentir é experimentar alegrias e decepções. Sentir é tocar na precariedade de tudo e assim mesmo estabelecer fórmulas – nem todas eficazes – para respirar a possibilidade de algum conforto. Abandonos são estopins discretamente camuflados, mas atentos à ocasião do fogo se estabelecer na proximidade. E quando acionados, os abandonos explodem e são as oportunidades que se apresentam à reconstrução da pessoa. E tudo isso regado ao sabor da poesia, descreve, sem mistérios, a arte de viver.

Carla Dias está aí. Está no mundo. Há muito deixou de ser uma promessa. Já é uma constatação profissional cuja competência me obriga a novamente entrar num ciclo de extrema ansiedade esperando o próximo livro. Oxalá que seja breve!

Referência: Estopim – Carla Dias – Editora [Sic] – 2012

5 Comentários até agora.

  1. Tania disse:

    Deu vontade de ler! Obrigada! beijos

  2. kelly disse:

    Compartilho da vontade e com certeza irei ler. Obrigada Vera. Bjs

  3. kelly disse:

    Iniciei a trajetória pelos olhos de Carla Dias ao mundo necessário dos muitos abandonos. Indicação desse espaço e presente dessa pessoa linda atrás desse sitío. Já estou amando….

    Obrigada Vera.

  4. kelly disse:

    Ao receber o livro “Estopim” – Carla Dias – de uma forma muito “Nunca te vi sempre te amei” (repleto de surpresas e benquerenças), este também presente sagrado, iniciei a aventura ao lado de Olavo por este mundo já resumido aqui.
    Os questionamentos em relação aos tantos abandonos, necessários ao crescimento do corpo/alma, e a paradoxal necessidade da companhia que, ciclicamente se destina ao abandono, me fez repensar por meio de todas as situações, clichês e exacerbadas coincidências, as minúcias do pouco tempo da passagem pela vida.
    Olavo, fantasiosamente crente, que se destinava ao não ser, nada mais que simplesmente, e aqui literalmente pueril: ter vida (no estilo mais intelectualmente preconceituoso, ou não alienado, que confunde acesso com vida simples. Como se sujeitos – qualquer que seja – pudessem ter vidas por passagens e que pudessem escapar das amarras do caso e acaso). Porém ele se da conta, ao confrontar as mentiras necessárias à venda, que poderia e deveria arriscar o novo para dar início ao desenlear do velho. Mesmo tendo sincera certeza que o velho jamais ressurgiria. Sim, pois pela minha visão, aí inteiramente fantasiosa como convém às pessoas que adoram o romântico dramático, ele foi até o fim sem se dar conta que o velho nada mais é que o novo. E é por meio deste paradoxo que seus fantasmas perdem as credenciais e paulatinamente passam a compartilhar da vida dele. Ele fugiu de um passado onde se percebia vítima de abandonos, coroados de queixas e justificativas, para ceder espaço ao que de forma suave mas contundente lhe fez ver a si mesmo o novo abandonador.
    Esse enredo que a partir de um cadastro de vendas e a contradição da receptora – alma graduada em excessos de contorcionismos de vida, além de bela castradora – o conduziram a uma atendente de videolocadora que, amaranhada às filosofias de um homem focado no poder a qualquer preço, colocaria Olavo em xeque com a brevidade de tempo disponível à vida. Uma trama que no correr das horas, dias, meses e anos relatados, instantaneamente, me deixaram angustiada, vivenciando um nervosismo absoluto para saber em qual tempo a vida se cruzaria com aqueles finais novelísticos, do qual nem eu mesma escapo de desejar. E para me surpreender, ele teve sim, mas não um final consagrado à felicidade e à perfeição: teve um fim cruzado com os questionamentos iniciais, permitindo a incerteza de uma travessia do “sentir-se só” – abandonado.
    Até me decepcionei em ir montando ante os acontecimentos, quase inevitáveis, o enredo do poema “Quadrilha” – Drummond – para as consequências de cada personagem. Mais é notório (para mim) que esta mulher – Carla Dias – pontuou os mais saborosos questionamentos do tempo de uma – “tantas” – vida, das angústias mínimas de cada dúvida, das decepções e da agonia em ser retirado do papel de vítima. Da não possibilidade de resolução teórica ou prática, mas tendo que esperar o tempo trazer respostas e enfrentar o medo de não ter tempo para sentir o mínimo. Este (o tempo) que dá sentido à companhia é o mesmo que joga para escanteio a mesma companhia, mas somente para ilustrar que não há companhia mais necessária que a própria (o eu), paradoxal não? O ruminar de desejos perdidos e esperançar ilusões futuras nada mais são que a sua própria parceria, a possibilidade de um acalanto ofertado por um cérebro que mal dá conta da existência portanto dificilmente capaz de resolver as problemáticas que não dependem do um, mas do todo.
    Este livro, por meio do desespero de Olavo, me denunciou a curta vida e reforçou que falta tempo, ou melhor, nem vale a pena perdê-lo tentando buscar qualquer saber sobre quem se é, e tampouco saber desses outros, que nos atravessam e sem pedir licença iniciam transformações. Todos nós lidamos com velhos vícios resistentes ao conforto de se crer inerte na vida, mas que o inevitável é que o tempo está a bagunçar, arrastar, nocautear, sacudir, matar, roubar, nascer, amar, alegrar a qualquer tempo enquanto restar tempo. Inclusive isso me remeteu a uma propaganda de tempos atrás que me fez perceber o passar do tempo: “o tempo passa; o tempo voa, mas a poupança B…. continua numa boa”. Como eu não sou a poupança B… tampouco tenho muito mais tempo, vou me grudar em Budapeste e ver, sentir, o que me aguarda.
    Vera muito obrigada pelo teu tempo de atravessar o meu tempo e me presentear com todos esses tempos da: Julia, Olavo, Gilda, , Henrique, Ludmila, Alexandre, André… o tempo de Carla Dias. Muito obrigada.

  5. Marcela disse:

    Estou terminando de ler o livro. E posso dizer que é uma das melhores histórias que já li. Estou ansiosa para conhecer mais trabalhos da autora. Realmente muito bom!