Então…

Meu caro amigo,

(atualmente pesquisador das estrelas – junto a elas)

Enfim chegamos ao final de mais um ano. Devo lhe dizer que foi um ano comprido. Daquela espécie de comprido igualzinho a chinelo arrastado no caminho de quem perdeu a firmeza nas pernas. E firmeza este ano só na base de muita teimosia: os dois pés no precipício do cansaço e assim mesmo resistimos à queda. Banhados no suor da perplexidade.

No cortejo dos dias algumas preces foram recorrentes. Talvez a saudade mereça ocupar o andor de 2012. Foram duas grandes ausências na minha vida. Um vazio que não desocupa o coração, ao contrário: esparrama uma acidez nas lembranças e coloca névoa fina plena de umidade no olhar. Já vivi outras despedidas – bem o sabes – e certamente essas não foram as últimas. Mas quando a saudade se sustenta pelo amor, parece que a vida nos traz uma espécie de ramificação desse sentimento: amigos trouxeram para as suas vidas seres tão adoráveis quanto encantadoras as lembranças preservadas dos meus dois amigos que hoje devem estar latindo e pulando ao seu lado. Também ganhei dois jabutis (Maria & João) que adoram melancia e aceitam as flores que lhes estendo na minha mão. Minha saudade quando se volta para si mesma é um jabuti de silenciosa e lenta caminhando dentro de mim.

Sabe que joguei algumas lembranças tristes fora? Foi, menino. Fiz uma limpeza na alma com mais desenvoltura e aparato que nas vezes em que surge um batalhão de pessoas aqui em casa para lavar a caixa d’água. Tirei quase toda a poeira, todos os coágulos, todos os vícios de pensamento que eu carregava inutilmente na tola expectativa de serem compreendidos ou revertidos. Sobrou mais espaço para eu ser feliz. Se bem que não corro atrás de nenhuma felicidade, prefiro mesmo é andar ao lado das pequenas alegrias.

Foi o ano da solidariedade. Fui mantida pela solidariedade. Recebi muito. Desde o básico para existir até o luxo de compartilhar agudos momentos silenciosos procurando uma saída no novelo emaranhado das dificuldades. Trabalhei como quem semeia a terra para florir num tempo a vir. Dias ao relento sob um céu de angústias. Aprendi tanto desbravando palmo a palmo as inseguranças, os medos e, sobretudo, as incertezas maiores que eu mesma. Chegaram pessoas de bem por tantos lados: uns trouxeram perguntas, outros sorriram bonito iluminando as tristezas; os que vieram de longe para reforçar que é de coragem a matéria de viver; aqueles que bem pertinho choraram comigo num ato de contrição pela beleza que tantas vezes se escondeu atrás do cansaço, da indignação e dos pés balançando no precipício.

Olha que maravilha: assisti filmes de qualidade – por recomendação ou descoberta mesmo; muitos livros devorados por uma estranha fome de conhecer as coisas; as músicas ocuparam todos os momentos e os intervalos entre eles; troquei muitas ideias e vários olhares. Guardei em caixas, sem rótulos, uma série de objetos empoeirados pela falta de uso. Fiz muitas doações devolvendo às coisas o senso prático e assim os libertando da minha afetividade que só lhes servia de moldura. Conheci pessoas interessantes. Desconheci algumas pessoas e – passado o susto – entendi que somente assim fui capaz de conhecê-las melhor. Os amigos envelheceram um ano inteiro comigo; mas também fomos capazes de insuspeitos atos revigorantes que nos surpreenderam pela jovialidade.

Para além dos restritos espaços por onde a minha afetividade circulou – calçadas, ruas, bairros, cidades, países, continentes, galáxias, planos astrais… – olhei o mundo no genérico dos acontecimentos e entendo que ele está mesmo no fim. Alguns fatos me deram calafrio. Fui entristecendo de calafrio em calafrio. No meu entristecer, cada violência; cada assassinato; cada irresponsabilidade do poder público; cada covardia contra animais, velhos e crianças; cada atentado praticado em nome de deus; cada desamor nas suas múltiplas formas de manifestação, dia após dia, foram me dizendo com alguma delicadeza que atrás de cada uma dessas violências existiu um ser, ou uma coleção deles, que não se diferenciava da minha espécie animal e que por obrigação científica a consideração de identificá-lo como meu semelhante foi impositiva. Nessa perspectiva, estou torcendo para que o mundo acabe mesmo, lá pelos 21, talvez. E que rebuliço estão fazendo em torno disso…

Para comemorar o fim do mundo, coloquei aquelas luzes pequenininhas de Natal na minha casa. Meus sobrinhos mais novos vão chegar – depois do fim do mundo – com o meu irmão para celebrarmos juntos. Até lá sou eu a criança que espera a noite chegar para ficar ali, hipnotizada, meio sorriso, acompanhando o movimento suave que vai alimentando a certeza de que o ano seguinte ao fim do mundo será supimpa.

Então, meu amigo, vamos em frente, tomando o nosso cafezinho, acendendo o nosso cigarrinho, um muxoxo aqui, uma gargalhada mais a frente. Não foi melhor nem foi pior: 2012 está assentado confortavelmente no possível (conforme nos alerta a orelha do livro que nossa amiga me leu ao telefone). Vamos continuar cantando o sol de todos os dias e chorando o fim da tarde até que a lua chegue e nos chame para dançar, venerando a vida.

Até breve,

7 Comentários até agora.

  1. Tania disse:

    Então, não poderia ser mais lindo em nada tudo que escreveste.
    Pensando bem, só uma coisa é mais tocante do que suas palavras: sua delicadeza com Carlucho.
    Emocionada. Beijo.

  2. Jandiara disse:

    Então… obrigada pelo belo texto. Não dá para imaginar melhor maneira de homenagear a vida. E como é bom poder manter uma conversa tão franca com um amigo em qualquer lugar . . .

  3. Meire Ruiz disse:

    Lindo! Sempre uma delícia ler os seus textos…

  4. Renato disse:

    Que lindo texto! Emocionou-me!
    Quisera também aprender a criar mais espaço para a felicidade ou para os momentos de alegria… Mas, com certeza, o ano de 2013, trará muitas alegrias! Para nós todos! Aguardem.

  5. Teresa disse:

    Que jeito lindo de falar da vida! Parabéns, adorei seu texto.

  6. Lurdes disse:

    Adorei, Fiquei emocionada com certas frases, pareciam ter sido escritas por mim se tivesse o dom da escrita. Não escrevi, mas senti, e coloquei em prática, algumas coisas.
    Como adoro ler seus textos. Que Deus a abençõe, e esteja sempre a seu lado, protegendo-a, inspirando-a.
    Feliz Natal e muita esperança para o 2013.

  7. Monique disse:

    Lindo, delicado. Deu saudade de estar com você, nessa varanda de horizonte farto, pensado a vida.