Como não amar Bertolt Brecht?

Apenas quando somos instruídos pela realidade é que podemos mudá-la” B.B.

Um dos fantásticos presentes que ganhei em 2012 foi um trabalho muito bem executado, em três DVDs, apresentando parte da produção cinematográfica de Brecht.

O conteúdo já anunciei: fantástico. Mas nessa definição também inclui a magia desse material ter chegado até mim. Geralmente quando se escolhe um presente para alguém, leva-se em consideração o gosto da pessoa que o receberá. O meu desconhecimento sobre Brecht sempre beirou o absurdo, daquelas referências vagas que não passavam por pontuá-lo como um “dramaturgo alemão”. Portanto, alguém me presentear com a ocasião de conhecer o que sempre se manteve na minha superficialidade intelectual, implica correr o risco de eu não me reconhecer no oferecimento. O que é mágico nisso tudo começa então pela capacidade de uma amiga ser suficientemente ousada, evitando o conforto do meu repertório para me mostrar a aventura de novas oportunidades. Necessário se ter muito respeito pelas pessoas ousadas porque são elas as únicas capazes de modificar o mundo… Sobre isso são inúmeros os exemplos mostrados pela vida, incluindo o próprio Brecht.

O que mais me comoveu nesse primeiro contato com Brecht foi a intensidade em ser épico. E isto não se restringe a sua obra cinematográfica, mas é uma clara identidade de vida. Não bastassem seus concomitantes casamentos, sua absoluta convicção de estar predestinado ao sucesso, suas sucessivas fugas ameaçado por diferentes autoritarismos políticos, tudo importa, mas o que mais confirma esse registro existencial é a sua impossibilidade de ser criativo distanciado de um processo coletivo. É no coletivo, e, portanto, no embate dialético, a sua expressão artística e os fundamentos da sua própria existência.

Os especialistas assinalam que a linguagem poética pode ser caracterizada em três vertentes: o lírico, o dramático e o épico. Brecht me ensinou que as pessoas, com alguma facilidade, se encaixam dentro de uma dessas modalidades. Uma pessoa lírica, por essência, se observa muito na sua individualidade; uma pessoa dramática insere a sua individualidade no contexto das suas relações próximas; já o épico é aquele que não se permite estar num espaço menor que o mundo. O épico, por consequência, é quem mais provoca reações, é quem mais polemiza nas suas manifestações críticas, é quem, enfim, se coloca frontalmente distante do que seja unanimidade. E acreditar no confronto como uma possibilidade transformadora é ter uma predisposição especial, e muitas vezes rara, para considerar limitadora a capacidade de evoluir quando a necessidade de aceitação se sobrepõe.

Brecht nasceu em 1898 e faleceu em 1956, portanto não podemos excluir do seu processo criativo todo o impacto trazido pela experiência de ter acompanhado duas Guerras Mundiais (a Primeira de 1914 a 1918 e a Segunda de 1939 a 1945), desde as manobras tensas que antecederam os fatos, até a sua conclusão que desembocou na chamada Guerra Fria. Brecht viveu esse período sem abandonar a defesa da classe trabalhadora e sem recuar na sua constante crítica aos recursos utilizados pela classe dominante para se manter no poder. Isto lhe obrigou a constantes fugas (Áustria, Suíça, Dinamarca, Finlândia, Suécia, Inglaterra, Rússia e Estados Unidos) e a se saber constantemente vigiado pela suposta ameaça que ele representava para os mais altos poderes.

Se os estudiosos identificam em Jean-Luc Godard, Lars Von Trier e, no Brasil, Sergio Bianchi, os sucessores mais proeminentes da cinematografia épica de Brecht, não podemos afastar a emoção ao perceber a força criativa de Brecht apesar dos recursos tecnológicos precários da época e, sobretudo, das limitações impostas pela censura. Nada conseguiu impedir que o seu senso crítico se colocasse à disposição da Humanidade na perspectiva de sermos responsáveis pelo que somos e principalmente pelo que nos tornaremos.

Para quem se interessar: trata-se de um material produzido pela “Versátil Home Vídeo”, num encarte bem trabalhado. São três DVDs, sendo dois exclusivos de filmes (“A Ópera dos Três Vinténs”, “Kuhle Wampe”, “Os Carrascos Também Morrem” e “Os Mistérios de uma Barbearia”) e o terceiro discorre sobre a vida de Brecht com imagens de época e análises de especialistas sobre a produção do cineasta.

Obrigada Kelly.

Há homens que lutam um dia e são bons, há outros que lutam um ano e são melhores, há os que lutam muitos anos e são muitos bons. Mas há os que lutam toda a vida e estes são imprescindíveis.” B.B.

3 Comentários até agora.

  1. Tania disse:

    Menina, que ótimo presente que recebeste e conosco compartilhaste. Perfeito. Minha ignorância sobre ele, acredite, parece ter sido maior que a sua. Um beijo!

  2. kelly disse:

    Adorei conhecer Brecht pelos teus olhos e não pude deixar de ficar (horas) me encaixando nas fragmentações ofertadas pelos especialistas citados. Aliás, isso não poderia ser diferente, pois a dramática de Palhoça tem tamanho ego que esse exercício se justifica plenamente.
    Minha história com ele iniciou do absurdo que circunda a vida e seus incompreensíveis mistérios, a redundância constante e o eterno retorno, a falta que me move e que dá sentido aos tormentos. Foi quando caí de paraquedas em algumas investidas que me autorizei este ano, uma delas: o teatro (como se minha vida já não fosse um espetáculo com todas as personas possíveis e das mais variadas facetas na busca da perfeição. Essas tantas representações que me escapam à consciência). Penso que estes misteriosos enigmas que fazem da existência a crucificação, a necessidade de vitimização do ser (cresci ouvindo: “… pai perdoe, eles não sabem o que fazem…”), foram os ingredientes da minha constituição e também foram eles que me levaram a conhecer esse mundo, pretensamente distante, do teatro. E foi por meio do teatro que tentei a possibilidade de controlar as minhas emoções, mas não tardou muito e Maysa surgiu… “meu mundo caiu…” rsrsrs… Então Brecht apareceu e me ensinou de forma contundente, o suficiente para que eu me sentisse acalentada em parte dos meus dramas.
    Apesar de tudo isso ainda sou aquela você “absurda” que acredita que poucas referencias bastam e resumem o trabalho poético desse sujeito imprescindível. Mas soube há pouco, por uma INENARRÁVEL SUMIDADE DE AMIGA, que este mal terá fim pois ela fará cópia destes DVDs e me re-presenteará.
    Nesse caso, voltarei a dar minha impressão sobre esse sujeito daqui a um tempo, mas reforço que adorei te ler e ver – através do seu olhar – um pouco sobre este homem que mesmo me sendo uma incógnita, te ofereci de presente.
    Beijos, Vera, e estou desejosa por uma marguerita-de-tangerina, mas na sua companhia.

  3. kelly disse:

    Brecht me chegou com um belo cartão. Vou agora devorá-lo. MUITO obrigada.