O dia em que acordei Cheyenne

“Existe algo errado aqui. Não sei exatamente o que é, mas existe…”.

Sabe aqueles dias em que você acorda fora de compasso, atravessando o ritmo, desafinando na música antes mesmo de alcançar o refrão? Pois é, foi mais ou menos assim dia desses. Aí resolvi assistir um filme para espantar a nuvem baixa que impedia aterrissagem da ordem natural das coisas. Como havia a recomendação para o “Aqui é o Meu Lugar” (This Must be the Place), arrumei a parafernália, dispensei a pipoca e me concentrei na tela.

Sempre achei que Sean Penn deveria ter recebido muito mais que os dois “Oscar” conquistados até hoje. E nesse filme a sua atuação só faz confirmar o enorme talento. A questão toda é que do jeito que eu acordei naquele dia, a identificação com o personagem já se estabeleceu nas primeiras cenas. Pensem numa criatura completamente out, arrastando pernas, palavras e tédio a cada movimento da respiração. Entalado nas suas emoções ao ponto de uma soprada no fio de cabelo caído nos olhos ser a sua mais forte demonstração de incomodo com alguma coisa.

O filme não se sustenta no que poderia ser uma possibilidade de história. O máximo que se pode apontar como enredo, não passa de uma pequena motivação para que o diretor (Paolo Sorrentino) desfile seu personagem com uma intensa liberdade de expressão e alguma condescendência na simplicidade com que tenta digerir o mundo. As paisagens das estradas que cortam os Estados Unidos são lindas e sugerem a imensidão que cada um de nós tem que atravessar para sermos quem somos, ou supomos ser. Se temos que acompanhar uma caracterização extravagante e um pouco ultrapassada de um personagem contestador, somos lentamente conduzidos a perceber que a vida é a mais absurda das representações. Insuperável, posso afirmar. São tantos os pedaços de outras vidas que silenciosamente ou sem nenhum contexto definido se aproximam de nós, que para não nos perdemos definimos gostos, condutas, aptidões e nisso nos agarramos por uma misericórdia da sanidade. Ou em nome dela.

Mas foi assistindo esse filme que eu me interessei por todos os pedaços de histórias com os quais cruzamos diariamente sem que nenhuma importância lhes seja conferida. Aquele rosto na janela do ônibus que olhou na nossa direção um segundo antes do sinal abrir e ser engolido pela velocidade do trânsito. Aquela moça que caminhava na mesma calçada aonde eu vinha em direção oposta, e de repente lá estávamos nós num balé sincronizado para nos desvencilharmos do corpo que impedia a sequencia dos nossos passos. Aquela criança que carregava sem nenhum senso de maternidade uma boneca nos braços e que ficou ao meu lado esperando o momento certo para atravessarmos a rua e nos perdermos logo em seguida. Foram essas pessoas que o filme me instigou a resgatar da casualidade. Foram esses pedaços de vida que me despertaram o desejo de costurar todos eles para identificar a textura da colcha de retalhos atirada sobre a minha vida.

“O problema é quando deixamos de dizer ‘a minha vida vai ser assim’ para nos contentarmos em afirmar ‘isso é a vida’’’. Não é angústia o que filme desperta, mas dificilmente conseguimos nos desprender da inquietação que ele nos causa. Uma sensação de desperdício com relação a uma série de acontecimentos que por não terem sido agendados, sobretudo emocionalmente, tendemos a trancá-los no baú das irrelevâncias com o lacre do esquecimento. E nunca mais recobramos as cores de quando eles passaram por nós.

Mas como eu acordei diferente na voltagem e, portanto, circulando energias numa amperagem pouco usual, o filme promoveu o desejo de substituir os ignorados pertences do baú pelas situações e fatos que ocupam diariamente as minhas preocupações e se arvoram nos níveis de importância que lhes atribuo. Uma vontade de dispensar todos os entendimentos que sustentam a ideia que tenho de mim mesmo e correr para o abraço da enorme riqueza em tudo que levemente esbarrou na minha existência e com a mesma suavidade foram desprezados.

Só posso afirmar que continuo a lidar com o mesmo cotidiano de antes de ter acordado e visto o filme, mas existe um baú destrancado cheio de hipóteses esperando por mim. “Há muitas formas de morrer. A pior delas é continuar a viver”.

2 Comentários até agora.

  1. Tania disse:

    Destrancar baús sempre traz um sopro de esperança de mudanças. Sempre acreditei que grandes e importantes mudanças começam em coisas absurdamente pequenas, como aquela história da “jarra azul”, lembra? Então! Alvíssaras. Beijos

  2. kelly disse:

    Adoraria ter a facilidade, bendita segurança que disse enxergar, para abrir meus baús e não cair no fosso social. Adoraria viver como num filme, em que a partir de uma breve introdução uma gama de possibilidades nos faria mestres na predição. Enfrentar a vida pode ser um arrastar as pernas mesmo que a inconsciente vontade de andar nos movimente, apesar das queixas. Sei que é difícil falar de um filme quando se torna protagonista principal, mas sei que existem almas que tentam, por mais que se queixem, mudar as histórias nem que seja a final.