A Renúncia que nos Pertence

Existem filmes que nos fazem revigorar: voltamos para casa com uma capa invisível de super-herói, com a certeza inabalável de que podemos realizar todos os nossos desejos. Outros nos afligem, geralmente porque a angústia que nos fazem sentir não se reconhece no nosso leque de experiências e nunca nos imaginamos na situação tal qual nos é apresentada. E existem aqueles filmes que nos fazem silenciosos porque encostam, com maior ou menor folga, em algum episódio próximo do que já experimentamos.

“Eu Pertenço” é um filme norueguês (“Som du ser meg”, tradução “Como você me vê”  talvez mais adequada que o título oficial brasileiro) de 2012, cujo diretor (Dag Johan Haugerud) nunca ouvi falar e por isto mesmo dificilmente me lembrarei de citá-lo em qualquer ocasião futura. Se eu tivesse que dar um nome para o filme seria “Renúncia”. É um desses filmes que borrifa na gente a umidade do silêncio e faz com que os nossos olhos escorreguem muito lentamente nas imagens que captam. No final, um suspiro daqueles de querer renovar por completo todo o ar dos pulmões, acompanhado de um “pois é…” de reticências intervencionistas válidas por um mês.

Três histórias em que a dificuldade de comunicação se interpõe de maneira definitiva modificando os acontecimentos a partir das características individuais de cada personagem. A maneira com que cada um se percebe no mundo é o que determina o desfecho de cada situação. No filme, assim como na vida, o que se destaca são menos os fatos, mas a maneira pela qual a nossa história de vida interfere neles. Se conservássemos do filme os mesmos fatos e trocássemos os personagens, colocando um para ser protagonista do fato vivido pelo outro, certamente teríamos diferentes encaminhamentos. Outro filme.

O que me chamou atenção no filme é que todas as situações, que poderiam promover uma qualidade melhor de vida para as personagens, foram rejeitadas porque determinadas características individuais interferiram no trato das questões. Não sei a quantidade de histórias na minha vida que tiveram o mesmo desvio de rota, sucumbindo aos determinantes estruturais da minha personalidade. Sejam tais determinantes cristalinos ou anuviados por traumas mal resolvidos.

Se tivesse que figurar a minha vida na representação de uma árvore, no topo colocaria aqueles fatos de difícil acesso às minhas mãos, que ficariam de alguma forma inalcançável por não serem agradáveis ou por serem de difícil compreensão. Se desses ramos brotassem frutos, certamente apodreceriam lá sem que a mim fosse dada a experiência do sabor. Trabalharia, como a maioria das pessoas, aquelas ramificações e frutos mais próximos à minha altura e com eles comporia o cotidiano, apacificado, do entendimento da vida.  Com alguma frequência olharia para a pureza dos espontâneos galhos que cobrindo essa árvore, longe do alcance da minha manipulação, permaneceriam um céu protetor, filtrando o sol, a chuva, dando robustez frente aos ventos mais afoitos, e seguiria com a minha vidinha comezinha travada na altura das minhas possibilidades, afastadas de qualquer risco ou emergência. Pelo menos se assim eu pudesse evitar. Um quadro que com muita facilidade ficaria pendurado na parede de muitas vidas.

Afirmei que no alto da árvore estaria uma linha invisível a proteger os níveis que se ramificam mais perto do chão. Mas proteger aqui não significa tornar os fatos da vida receptíveis apenas às passagens tranquilas e agradáveis. A proteção também tem suas interferências que por serem fontes desconhecidas desestabilizam a ordem natural de se poder lidar abertamente com os fatos. Se a chuva é demais e temos a imagem das grandes enchentes devastadoras, faremos de tudo para que a chuva não se prolongue, e assim com relação ao sol, ao vento e quaisquer outros fatores.

Pois as três personagens do filme ao sangrarem as possibilidades com as reminiscências das costuras conhecidas do passado, emperraram a aproximação do sol, da chuva, do vento; e ao se negarem a fuçar os galhos na liberdade das alturas, foram privadas dos frutos em novos cenários. Desistiram porque não souberam ser novidade para si e para os outros. E o apego ao jeitinho arrumado de se olharem e se colherem as levaram à negação. E se recusaram, excluindo os mais próximos, só porque foram incapazes de interagir com novas perspectivas que lhes exigiam posturas diferenciadas de seus hábitos. Nem tanto de seus valores.

Bendita árvore da vida, me dê energia necessária para sempre me aventurar nos galhos mais altos e que constantemente eu me desencontre e me reinvente nas novidades e que estas nunca se esgotem. Permita que em mim os sustos sejam constantemente renovados porque estão nas surpresas as definitivas ilusões da eternidade.

Um Comentário até agora.

  1. Monica disse:

    Você descreve nossas lutas internas com muita poesia… Somos o que conseguimos fazer com o que nos acontece, o possivel para nós em cada momento. E estamos em movimento, espero que em direção a um amadurecimento, que nos permita escolhas que nos façam mais felizes…