Apenas um Beijo

Este é um filme de Ken Loach lançado em 2003 (Ae Fond Kiss…). Uma característica forte nesta direção é conduzir o espectador por enredos delicados, sem exigir dele um envolvimento angustiante com as temáticas apresentadas. E muitas vezes tais isenções emocionais ao se assistir um filme facilitam a reflexão mais abrangente sobre as questões principais.

Neste filme o envolvimento amoroso entre um homem e uma mulher não leva o espectador a acompanhar as miudezas que com frequência sobressaltam ao se investigar um relacionamento. Aqui não está em pauta analisar se as afinidades entre os dois sustentam a durabilidade da relação. Pouco importa a quem assiste ficar medindo o quanto os dois têm em comum. Aliás, a pouca importância destes aspectos foi o Diretor quem ressaltou ao ponto dos vínculos afetivos ficarem muito diluídos se quisermos buscar uma justificativa amorosa. Ah, o amor não deve ter mesmo explicação… E se tiver, recomendo que ninguém esmiúce… Viver é inexplicável e nos ocupa em tempo integral.

Bom, então estamos acompanhando a história de um casal em que a tensão dramática não está ancorada na convivência restrita a eles. O casal na realidade é mero acessório frente a grande provocação que o filme nos entrega: os fundamentos culturais trazidos pelas religiões. Os contrastes entre os preceitos muçulmanos e católicos são as únicas ameaças capazes de desestabilizar a relação amorosa.

Neste contexto ainda vale acrescentar como uma excelente referência ao filme uma citação de Friedrich Hebbel, popularizada por Antonio Gramsci, que define muito bem as bases do conflito entre gerações: os jovens acreditam que o mundo começa com eles, enquanto que os velhos estão convencidos que o mundo deixará de existir quando se forem. Esta máxima é bem ilustrada pela filha mais nova da família muçulmana que enfrenta o clã ao querer valer sua vontade de estudar jornalismo quando a medicina era o futuro definido para ela. Além dela, o único filho da família – um dos protagonistas do filme – e também o mais velho, passou a manter um relacionamento amoroso com uma divorciada, professora em uma escola católica. Sem contar o contorno de “enorme desgraça” que a família vivencia com as atitudes dos filhos.

A carga dramática maior está nos hábitos da família de imigrantes paquistaneses instalada em Glasgow (Escócia) e agarrada à milenar tradição cultural e religiosa do islamismo. Com direito a arranjar o casamento do filho com a prima; a determinar a profissão da filha mais nova; e ter que encarar a ruptura do acordo nupcial da filha do meio já que a família do noivo não permite que o compromisso se mantenha frente à “desgraça” que se abateu sobre a família da prometida. As intransigências do lado católico da história ficam restritas à demissão da professora de música por ser separada do marido e estar vivendo com um muçulmano. Neste cenário se desenvolve o drama análogo ao de Romeu & Julieta ambientado na contemporaneidade.

Mas afinal, o que o filme tem de especial para conseguir manter a atenção do espectador? Convenhamos, existe uma coleção de filmes que expõe os conflitos culturais/religiosos até com mais profundidade que a leveza oferecida por Loach. Não podemos destacar o desempenho de nenhum dos atores, que mais parecem pessoas selecionadas casualmente e que fizeram um laboratório específico para darem alguma emoção a partir de suas próprias histórias de vida. Talvez aí resida a simpatia que eles nos desperta. As reações do lado muçulmano e do lado católico são tão intensas que ficamos entre a caricatura bem representada e a repetição para nós mesmos do “que absurdo…” em várias cenas. Seja lá qual for a magia hipnótica do filme, o fato é que permanecemos grudados na tela querendo saber até onde aquilo tudo vai chegar. E nós lá, chegando junto.

O básico dos básicos, só para a gente nunca esquecer. Religião se define por um conjunto de crenças que estabelecem normas pelas quais se tenta explicar o cosmos e a natureza humana. Etimologicamente, religião é derivada de uma palavra latina “Re-ligare”, que significa “religação” com o divino. Tá… Sinceramente, como é possível aos seres humanos terem legitimidade na pretensão de lidar com o divino? O que se vê é cada um defendendo a sua religião, e tudo que deveria ser divino termina numa mundana disputa de poder.

Portanto, viva o amor! Do jeito que for e sem nenhuma regra a supor.