As redes de modernas teias

Faltou falar dos tempos atuais e as impressões de estranhamento que causam. E é neste desvario da razão, neste declínio da sensatez, que avisto Fernando Pessoa, aturdido, passeando pelas redes sociais com seu Poema em Linha Reta. Todos enquanto socialmente em redes são tão nobres, tão fortes, tão nas suas roupas de domingo a caminho da Missa. Nunca conheci quem tivesse levado porrada e declarado em rede sociais a dor em si e de per si. Quando mencionam ter levado porrada, imediatamente assumem uma postura orgulhosa de terem sobrevivido; um apressado vangloriar-se do quão forte são ao terem resistido a possibilidade de aniquilamento. Em redes sociais registra-se o quanto se é ético, o quanto se é digno, o quanto se é merecedor dos mais eloquentes elogios. Uma propaganda concentrada das boas qualidades humanas anunciada pelo olhar, generoso, que cada um tem de si mesmo. Uma propaganda com fortes sintomas de autoconvencimento. É o que me parece. É o que me assusta. Boas qualidades aprendi a identificar longe das páginas dos classificados e bem distante das manchetes. Boas qualidades resumem uma vida, não um ato isolado de generosidade ou mesmo de justiça. Boas qualidades nunca são legítimas quando maior é a vaidade por tê-las cometido.

Então prefiro as porradas, o susto do golpe por conta da distração, a minha incapacidade de ser herói e essa tendência para preservar um certo desprezo pelas indumentárias falaciosas de que se servem todos os paladinos. No mundo virtual um exagero em boa educação, tantas regras de bem viver, tantas supremas circunstâncias idealizadas, tanta vontade de corresponder a uma imagem que não é exatamente um reflexo, mas uma vontade que não é perseguida com afinco. “Espelho, espelho meu,” preserve em mim a coragem para nunca querer disfarçar as contradições que são minhas. São elas que me permitem fazer opções. São elas que limam em experiência os lados B, C, D … desse sujeito à vida que me reconheço de vez em quando.

O homem que matou o filho e a esposa fazia declarações de amor na internet uma semana atrás. A pessoa encontrada morta na beira do rio com as feições dilaceradas pensava estar marcando um encontro cego com a felicidade. O bêbado que pegou o automóvel e atropelou os muitos que esperavam o ônibus no final do dia, tinha um problema qualquer que a reportagem não mencionou, mas havia digitado nas redes sociais a falta que sentia de alguém. Certamente são menos de sete graus a distância que me separa desses condenados: fiz declarações de amor na internet (o amor se transformou num paralelo de si mesmo); anseio encontrar a tal da felicidade (fuço as miudezas com perseverança); sinto falta de tantas pessoas (saudade persiste mesmo que fragmentada a memória). Passei por tudo isso e bem mais. A sutil diferença (bem menor que sete graus) é que ainda não me ocorreu matar ou morrer. Pelo menos não com a veemência necessária. Que desesperos me faltam para poder identificar como solução matar filho e esposa? De que avassaladora solidão fui poupada para não identificar conveniência em me encontrar com quem não conheço? Embriagada de saudades tantas muitas vezes, busquei por descuido, ignorância, ou incapacidade, a delicadeza de viver minhas saudades no silencio dos meus cantos nem sempre arejados.

Me interesso pelo avesso das redes sociais, sempre tão higiênicas. Me interessa levantar as saias da boa educação e rasgar as anáguas até à essência nua da pessoa. Me interesso pelo que não me dizem e me divirto com as sobras que escorrem em tudo de publicável.

Vou me reinventando nos gestos de todos os dias. Vou me arriscando nas lâminas finas e afiadas das palavras, às vezes doce, às vezes rude. Sem nenhum disfarce de ironia, como ditam as lições aprendidas nas pedras e susceptíveis ao tombo.

Caí em mim mesma e não me machuquei. Sorte dos muitos distraídos.

3 Comentários até agora.

  1. Tania disse:

    Então, amiga. Super lúcida colocação. Eu mesma abandonei faz tempo essa malha social.
    Em tempo, tudo a ver: http://www.youtube.com/watch?v=EPoUKDuGMLg
    Beijo

  2. Vera Menezes disse:

    Tâninha, o vídeo é muito interessante e realmente, tudo a ver…..Obrigada. Bjs

  3. Brotosaurus disse:

    Vale publicar nas redes o seu texto…

    Após ver o vídeo tenho mais questões que antes de vê-lo… (Obrigado Tania!)