Expressões de Final de Semana

Um fim de semana daqueles que colocam um sorriso no meu rosto. Suor molhando o corpo enquanto, com alguma preguiça, as folhas vão sendo varridas do quintal. Um olhar no azul – a intimidade com que chamo o céu – e outro olhar nos cães que me vigiam deitados nos espaços de sombra. De vez em quando uma aragem para surpreender o meu cansaço e me fazer ficar um pouco mais com os pés na geografia. Gosto dos finais de semana convidando o arrastar das horas. Gosto de me perder nos pensamentos, imaginando que o infinito deve ser muito turbulento e que a paz só tem a minha finitude para seguir os rastros.

Varrendo o quintal, inspecionando as plantinhas que se revezam em cores ou se preservam em silencio – sem flores – eu me lembro dos amigos aos quais dediquei algumas das árvores que se desdobram em frutos e sombras. Não os vejo há muito. Há muito não sei deles. Sou um pouco assim, mais interessada em preparar as estações do que propriamente me esgotar nelas. Os limões se espalham no chão, graúdos, suculentos. A mangueira renova suas folhas já se preparando para as primeiras chuvas, mesmo ainda tão longe… O coqueiro e eu nos entendemos não tem muito tempo: uma meia – velha – com sal grosso em tempo de chuva resultou em espigões que em breve darão frutos. Ainda não consegui encontrar a tal da calda bordalesa que libertará meus dois pés de graviola dos fungos que se instalaram para que eu deles não desfrute. As bananeiras exigem água, muita água, e lá vou eu puxando mangueira e aproveitando para saciar a sede dos três mamoeiros recém-transplantados para o chão firme. As jabuticabas me fazem feliz quando o tronco se enfeita de flores – confesso que esse é o momento que mais me alegra já que os frutos não são do interesse da minha gula. Mas é o pé de tangerina que me intriga: ano passado de tão carregado pensei que os galhos se quebrariam; este ano uma solitária tangerina vive a saudade da abundância. E eu sem entender isto – e tantas outras coisas – acompanho os novos galhos que se traduzem em esperança suculenta.

Gosto dos Domingos. Domingo tem som e silêncios bem diferenciados. Se eu hibernasse algumas semanas e acordasse num domingo, saberia identificar em que dia da semana se deu o meu despertar. Tem música ao fundo, risos de criança, gargalhadas de adultos, fumaça de churrasco, cachorros latindo, nomes próprios ocupando os espaços, barulho de água (chuveiro, piscina, mangueira – pouco importa) na terra em que Lago tem afetividade de Oceano. Quando chega domingo à tarde, acontece um silencio cheio de significados. Últimos acordes de um dia que ficará guardado nas lembranças dos sorrisos largos, dos abraços, dos afetos ungidos pela simplicidade do amor. Gosto, definitivamente, desses Domingos preenchidos por amigos. Domingos que se desdobram em confiança.

Não. Não imaginem que meu último final de semana teve festa aqui em casa. Ninguém apareceu. Alguns telefonaram. Passei o final de semana com os meus bichos. Igualmente queridos bichos. Mas é que mesmo sozinha estive muito povoada: trouxe para perto de mim os intensos poucos amigos que me habitam numa miscelânea de sotaques que se prestam a medir distâncias. Chegaram de mansinho no igualmente lento movimento do rastelo centímetro a centímetro pelo quintal.  Fui limpando em mim os sentimentos, borrifando alegria nas saudades, revendo preocupações, selecionando as novidades para um futuro encontro, antecipando surpresas porque pessoas se reinventam todos os dias…

Tive um final de semana extremamente agradável no quintal da minha cidade. Poesia repartida em versos obcecados dos muitos projetos – alcançados ou distantes – que não se cansam de andar pelas ruas iluminadas em que busquei uma nuvem para levar até vocês o meu amor.

2 Comentários até agora.

  1. Tania disse:

    Aaaaiiii…. que lindo isso tudo! Especial, você. E nós aqui, na 6a.feira, quase compramos passagem para te visitar no dia 6… lembrando em cima da hora que Val agendou passaporte para este dia… então, vc recebeu uma brisa da nossa saudade enquanto limpava seu quintal. Beijo e beijo. Em tempo: guarde os limões!!!

  2. Jandiara disse:

    É, todos os domingos deveriam ser assim. Com os amigos, mesmo que em pensamento. Bjs