Vidas Provisórias

O elemento principal de um repórter é o fato. O fato em si é consequência de uma escalada de circunstâncias que gravadas no tempo promovem o surgimento de uma realidade histórica. Fatos históricos não são sentimentais (eles cabem num enunciado e se ancoram em datas de início e término,), mas conseguem apaixonar aqueles que por eles se interessarem. Apaixonar, aqui, no sentido de atacar ou defender, a depender dos sentimentos que despertam.

Vidas Provisórias” é um romance escrito por um repórter. Nem sempre a junção da literatura com a reportagem consegue bons resultados. Mas Edney Silvestre conseguiu excelência, independente do ângulo em que se debruce a análise crítica. As negociações íntimas entre o repórter e o romancista se estabelecem com civilidade rara, beneficiando a ambos. Se a mesma fórmula fosse levada aos grandes conflitos atuais vivenciados pela humanidade, certamente não teríamos nenhum rastro de horror ou estarrecimento.

O repórter partiu de um fato histórico: ditadura militar brasileira. Mas também influenciou o romancista, impedindo que o autor ocupasse espaços não autorizados pelos personagens. Portanto, o direito à emoção do fato histórico é da competência narrativa de dois personagens que vivenciaram os acontecimentos. Eles não precisam dos substantivos e dos adjetivos que com frequência se infiltram no texto pela necessidade quase compulsiva dos autores.

Há vários aspectos estruturais interessantes no livro. Sem falar no ineditismo relacionado ao marketing de divulgação do produto. O livro dá voz a dois personagens: Paulo e Barbara que vivem vidas tão provisórias que mesmo os nomes são temporários, a depender da intensidade requerida a cada fuga. O relato de Paulo se dá com tinta preta; a narrativa de Barbara com tinta azul. Os discursos se revezam a cada capítulo. Não existe personagem mais ou menos interessante. O leitor não sente vontade de pular as tintas azuis ou as tintas pretas para se deter num personagem preferido, embora seja um excelente exercício refazer a leitura percorrendo a saga das tintas pretas com exclusividade ou das azuis de forma privilegiada. Talvez permaneça intocável o clímax final apesar dessa fragmentação da leitura.

Que traços comuns, no discurso psicológico, podem aproximar duas pessoas que nunca se encontraram, mas que vivenciaram na carne, na ideologia, na fantasia, o mesmo fato histórico? Que diferenças de atitudes, de posturas, estão refletidas no comportamento de cada personagem? Até que ponto “os donos do mundo” são capazes de intervir radicalmente no destino das pessoas? Em que medida sucesso e fracasso podem ser medidos por esforços individuais? Questões de uma vida inteira e que permanecerão inteiramente insondáveis.

Muito interessante o estratagema utilizado pelo autor para que seus personagens se assentassem na verossimilhança de um contexto de meias verdades, de sigilos cívicos, de defesas fragilizadas, de histórias secretas, de ignorâncias… São as dúvidas, as incertezas, que fazem com que seus personagens atravessem a própria história de vida: “Ele nunca ouvira palavras de amor em sueco. Imaginava que fosse sueco. Imaginava que fossem palavras de amor. Gostaria que fossem palavras de amor. Queria que fossem palavras de amor. Queria que ela percebesse que aquele momento mitigava inúmeras dores, mas não sabia como dizê-lo.”

Sobre o marketing empresarial da obra, enquanto produto vendável, o próprio Edney Silvestre disponibilizou gratuitamente uma brochura intitulada “Aqueles Tempos”, tendo por subtítulo “Nos bastidores de Vidas Provisórias”, e com ela pretende despertar o interesse do leitor em se apropriar do conteúdo do livro principal. Posso assegurar que a estratégia funcionou, pelo menos no que me diz respeito, pois foi a partir desse panfleto que fui definitivamente aprisionada por “Vidas Provisórias”. Existem fotografias dos lugares onde o livro transcorre e existem nomes e sobrenomes de conhecidas figuras que viveram o momento histórico; mas o livro é uma ficção que passeia por fatos que ficaram na História.

Uma agradável leitura de reconhecida qualidade literária. Faz pensar…