De novo: Um Feliz Ano Novo

Meu caro Amigo,

Aos seis anos, ou menos, descobria que o mundo se derramava para além do portão de ferro que separava a minha casa da rua. Descobri que a minha rua levava a outras tantas infinitas ruas e que não havia solas de sapatos resistentes a quem se dispusesse a fazer direções e caminhos, a pé. Peguei o bonde para chegar no meu primeiro dia de escola pública. Depois me perdi por inteira nas aulas de geografia quando tentavam me mostrar o mundo naqueles mapas mundi, cheio de nomes de países sem que conseguisse decorar suas capitais. Todos aqueles mapas me incomodavam porque se esforçavam para que eu tivesse a percepção do mundo, mas nenhum deles me apontava a minha rua, a minha casa. Não via minha cachorra “Rumba” nem o índio de pedra que havia sido esculpido no quintal das muitas mangueiras e carambolas. Mas o mundo era grande. Enorme o suficiente para que até hoje eu me confunda na localização de muitos países.

Pois bem, quase sessenta anos depois dessa avassaladora descoberta de grandeza geográfica, eu me recolho na quietude do meu portão pra cá. Igualmente de ferro. Meu mundo, onde inúmeras vezes eu me perco e me reencontro, e onde também me esqueço, sem falar dos não-sei-quantos compromissos que deixo de lembrar, tem a vastidão de mil metros quadrados. Quero que o ano de 2014 fique registrado na minha alma – já que a memória tem sinais de forte deterioração – como aquele ano de plantar abacateiros; de aparar a grama me surpreendendo com a disposição física para tal; de colher tomates semeados em vasos; de manter modesta horta em jardineiras de plástico; de conversar com o coqueiro investigando aqueles bichinhos voadores que atrapalham o seu desenvolvimento; de tirar cachos de bananas do pé, errando algumas vezes o momento adequado para a façanha; de me sentar à varanda, no final da tarde, e olhar o horizonte reconhecendo que a vida é uma grande abstração. Eu mesma, uma abstração de qualquer sentido.

Como vês, meu caro, por absoluta prudência, ou cansaço, ou desistência, ou sentido prático da insignificância, vou reverenciar as pequenas alegrias de 2014. Miudinhas como aquelas flores amarelas que interromperam a distração com que tentei me preservar da vida. Ou então aquelas flores roxas que adoram o sol e se escondem no final de todas as tardes. No máximo, vale comentar a orquídea que contradisse todos os prognósticos e floresceu com a suavidade de um ladrão, me roubando algumas preocupações para que eu me ocupasse de um largo sorriso.  Outros bichos, distintos da minha espécie, me inspiraram na ternura, no sentido de proteção rastreada pelo amor, no compartilhamento das angústias que viver nos impõe. Foi assim, um ano de semblante franzido, de silêncios invioláveis, de procuras inúteis, de tentativas fracassadas. Salvou-me a embriaguez da vida: um gole a cada dia, mais um dia e outra dose de horas. Paulatinamente a fé e a esperança foram sendo substituídas pela combativa determinação em bastar estar viva. O medo foi o hóspede mais assíduo. A companhia mais constante. Não foram apenas as notícias dos jornais e o circuito da internet que abriram as minhas janelas para o medo. As portas do meu refúgio foram escancaradas pela percepção de que o desespero foi o prato de todos os dias para tantos a quem quero bem. Fiquei acuada, muitas vezes, sem conseguir ir além de um abraço para tentar aliviar a dor do outro. Um ano de muitas restrições para a ousadia de se insistir na alegria.

Mas sabe de uma coisa, Amigo? O que conta mesmo é a sensação de pertencimento que um varal de roupas balançando ao vento me inspira; ou então aquele olhar investigativo pelo quintal, tentando calcular em quanto tempo chegarão os próximos frutos. É olhar o céu e saber se as nuvens escuras chegarão ou tomarão outro rumo. Ler um livro tendo um cachorro deitado sobre os meus pés. Desfrutar os curtos intervalos que antecedem os alardes trazidos pela vida.

É só um ano que chega ao seu final. É só um novo ano inaugurando outro calendário. É só a vida escorrendo pelo tempo. Expectativas? O grande privilégio de ter meus traços apagados com muita suavidade, levados pelo esquecimento.

De novo: Um Feliz Ano Novo…

6 Comentários até agora.

  1. Brotosaurus disse:

    Um forte abraço estimada Amiga!!!

  2. Tania disse:

    Lindo e perfeito, como sempre. Obrigada. Beijo

  3. Jandiara disse:

    Mais do que nunca, um ano de pequenos prazeres. Daqueles que só são sentidos do portão prá dentro. Belo balanço do meu ano, também. Bjs

  4. Renato Soares Menezes disse:

    Belo, como sempre, aliás! A constatação tranquila de que as pequenas coisas podem trazer, se não a felicidade, a paz interior. A serenidade permeia o texto, de forma suave, sublime e ao mesmo tempo solene. Muito bom! Parabéns!

  5. Flávia Menezes Rusznak disse:

    Que texto lindo! Você é uma verdadeira poeta!

  6. Mônica Barros disse:

    Um dom conseguir expressar desta forma poética os momentos vividos!… Fácil da gente se identificar também… Parabéns e um grande abraço!