Dos encantos no meu canto

Ainda observando esta dobradiça da existência, que abre novo período ao tempo que fecha outro, senti enorme necessidade de compartilhar um dos muitos presentes que a generosidade de 2014 me teve como testemunha. Foram inúmeros os presentes que chegaram por meio das pessoas que com frequência, ou casualidade, compartilharam a simbologia que levarei deste ano. É preciso esclarecer que alguns presentes vieram com papel cintilante, sem nenhum pudor em anunciar, desde o invólucro, que fagulhas de alegria seriam facilmente reveladas. Mas também recebi presentes envolvidos em papel pardo, escuro e grosso, amarrados em barbante resistente. Estes feriram as minhas mãos e arranharam a minha esperança até se confirmarem preciosos enquanto lições de vida.

Hoje eu quero compartilhar com vocês um presente iluminado que me foi recomendado, entre um assunto e outro, por uma amiga ao telefone, que num gesto de generosidade complementar, fez questão de ler o que para ela tem muito significado. Não bastasse a beleza do texto, ainda fui agraciada pela belezura do gesto da minha amiga. Uma das muitas preciosidades de 2014…

Isto posto, quero vocês possíveis sócios desse encantamento. A autora é Viviane Mosé e a poesia pode ser encontrada no livro “Pensamento Chão“, originalmente publicado em 2001:

“RECEITA PARA LAVAR PALAVRA SUJA
 
Mergulhar a palavra suja em água sanitária.
Depois de dois dias de molho, quarar ao sol do meio dia.
Algumas palavras quando alvejadas ao sol
adquirem consistência de certeza.
Por exemplo, a palavra vida.
Existem outras, e a palavra amor é uma delas,
que são muito encardidas pelo uso, o que recomenda esfregar
e bater insistentemente na pedra,
depois enxaguar em água corrente.
São poucas as que resistem a esses cuidados,
mas existem aquelas.
Dizem que limão e sal tiram sujeira difícil, mas nada.
Toda tentativa de lavar a piedade foi sempre em vão.
Mas nunca vi palavra tão suja como perda.
Perda e morte na medida em que são alvejadas
soltam um líquido corrosivo, que atende pelo nome de amargura,
que é capaz de esvaziar o vigor da língua.
O aconselhado nesse caso é mantê-las sempre de molho
em um amaciante de boa finalidade.
Agora, se o que você quer é somente aliviar as palavras
do uso diário,
pode usar simplesmente sabão em pó e máquina de lavar.
O perigo neste caso é misturar palavras que mancham
no contato umas com as outras.
Culpa, por exemplo,
a culpa mancha tudo que encontra e deve
ser sempre alvejada sozinha.
Outra mistura pouco aconselhada é amizade e desejo,
já que desejo, sendo uma palavra intensa, quase agressiva,
pode, o que não é inevitável, esgarçar a força delicada
da palavra amizade.
Já a palavra força cai bem em qualquer mistura.
Outro cuidado importante é não lavar demais as palavras
sob o risco de perderem o sentido.
A sujeirinha cotidiana, quando não é excessiva,
produz uma oleosidade que dá vigor aos sons.
Muito importante na arte de lavar palavras
é saber reconhecer uma palavra limpa.
Conviva com a palavra durante alguns dias.
Deixe que se misture em seus gestos, que passeie
pela expressão dos seus sentidos.
À noite, permita que se deite, não a seu lado
mas sobre seu corpo.
Enquanto você dorme, a palavra, plantada em sua carne,
prolifera em toda sua possibilidade.
Se puder suportar essa convivência até não mais
perceber a presença dela,
então você tem uma palavra limpa.
Uma palavra limpa é uma palavra possível.”

Meus amigos, desejo a vocês todos um 2015 de alma limpa.

2 Comentários até agora.

  1. Brotosaurus disse:

    Muita criatividade, inspiração e tempo de janela para escrever um texto assim…

  2. Mônica Barros disse:

    Uma feliz união de beleza e bom humor! Um presente!!!