Sobre “Queria Ver Você Feliz”

Adriana Falcão dispensa as apresentações com base no vasto currículo ligado à arte de escrever. Seu mais recente título “Queria Ver Você Feliz” (Geração ePub – Intrínseca – 2014) chama atenção por vários aspectos. Um deles me trouxe a hipótese de estar na herança genética o talento para a escrita. Digo isto já que o livro em questão trata-se de uma compilação cronológica das cartas trocadas entre seu pai e sua mãe desde antes de se casarem.

São cartas intensas, urgentes. Cartas dramáticas que vibram a dependência que qualquer ato de entrega pressupõe. Um enredo psicologicamente emaranhado na negação de tudo que possa ser definido como politicamente correto.  Apesar de qualquer drama conceber níveis diferenciados de tragédia, as cartas são bem humoradas, inteligentes. Por vezes caricaturas, ou provas cabais, do quanto o sentir extremo tem a capacidade de se ancorar na fatalidade.  A vida, na veemência com que eles dela exigiam a plenitude, foi uma espécie de vilã a contradizer tudo. Se “viver é muito perigoso”, viver sem nenhum pudor com relação ao outro é, talvez, um índice infalível para a correção de que ‘viver é impossível’.

O respeito de Adriana Falcão pelos pais, ou pela história de amor de seus pais, é outro aspecto que encanta. A começar pela magistral estratégia de delegar ao Amor a responsabilidade de ser o mestre de cerimônia para contar essa história. Não há julgamentos. Não há necessidade de diagnósticos psiquiátricos para o comportamento do casal. Não há espaço para qualquer advertência, seja filosófica seja religiosa, sobre as consequências da vida em intensidade e em honestidade.

É um privilégio se despedir de alguém querido “chorando o que era triste e rindo com orgulho do que era engraçado”. Esta frase foi o salvo-conduto para que eu entendesse que muitas pessoas admiráveis que eu conheci, que fizeram diferença no afeto que senti por elas, decidiram por inúmeras variáveis psicológicas,  que a vida era muito pequena para a ambiciosa projeção de plenitude por elas idealizada. Plenitude esta ao preço da insatisfação, ao preço corrosivo do juízo de valor alheio, ao preço da angústia, ao preço do não pertencimento. Todas essas coisas que um disfarce, um jogo de cintura social, e tantas outras simulações, foram capazes de manter minha conectividade com o medíocre. Sobrevivo até hoje, “e quem há de dizer que esta lhe é superior?”.

Recomendo o livro por outros tantos motivos que aqui não foram mencionados. Mesmo porque narrativas absorvem cada um por motivos particulares e nem sempre confessáveis. Pode ser até que muitos não entendam essa minha recomendação, mas acredito que até o fato de não apreciarem, terá sido válido.

Abaixo uma versão da música predileta do casal extremado, nem sempre feliz:

Um Comentário até agora.

  1. Tania disse:

    Valeu a dica. E suas palavras, claro, só aumentam o interesse pela leitura. Beijo