Palavras de acontecer os dias

Marcela não se perguntava desde quando havia adquirido aquele hábito. Não prestava atenção quando a indelicadeza de todos insistia para extrair dela informações pela quais as medidas de tempo, frequência e motivações poderiam ser desvendadas. Não, não. Coisas sem mistérios não tinham nenhum interesse, assim como considerava de absoluta inconveniência invadir retraimentos ferindo-os com uma série de cinzentas explicações ou magoando-os com um conjunto de pálidas possibilidades. Acreditava que cada coisa repousava na simplicidade e este direito deveria ser obrigatório à condição de existir. Entregava-se com leveza às pequenas porções de vida servidas nas doses absorvidas a cada dia. Evitava, com fervor, insurgir-se contra a simplicidade, pois intuía que se assim o fizesse teria por convívio a angústia e a ansiedade. Diga-me qual a direção que escolheste e eu te direi das pedras eleitas no teu caminho.

A singularidade de Marcela se confirmava a cada manhã. Bastava ela acordar para que a singeleza da sua existência acontecesse: a primeira palavra que lhe viesse ao pensamento passava a ser o guia norteador do seu dia.  Não se pode omitir que houve uma época que Marcela tentou influenciar a primeira palavra do dia: antes de deitar folheava o dicionário pesquisando termos pouco usuais pretendendo fazer com que permanecessem submissos à luz do sol. De nada adiantou a estratégia, salvo um enriquecimento da linguagem sem qualquer serventia extraordinária. Sobretudo para quem as explicações não tinham projeção no curso da vida. As palavras se manifestavam a partir de uma lógica pouco evidente que não seduzia a curiosidade investigativa de Marcela, mas que atiçava indiscriminadamente todos que conheciam a aplicabilidade ritualística empregada. Marcela até se arrependeu de não ter guardado para si aquela rotina, mas ao longo do tempo o interesse alheio foi sendo dissipado frente à acirrada postura evasiva de Marcela.

Os dias de Marcela eram reverenciados pela própria como uma sublime extensão da palavra que identificava e centralizava cada um deles. Mas para além dela, o conjunto de dias que se revezavam em meses e anos, não aguçava nenhum observador a considerá-lo extraordinário. Nem todos os dias eram amenos. Nem todos os dias eram assustadores. Dias ordinários para qualquer pessoa que quisesse revisitar sua biografia. Enfim, a vida de Marcela não tinha nada de interessante que pudesse instigar qualquer popularidade. Somente ela se deliciava com os dias possuídos nas suas palavra-do-dia. Havia alguns bordões, como naquela vez que por semanas as primeiras palavras sempre insistiam em terminar com ade. Os dias foram tracejados por acontecimentos do tipo Saudade, Vontade, Felicidade, Atividade, Maldade, Verdade, Casualidade.  Se as palavras rimaram por uma semana inteirinha, certamente foram dias desbaratados, sem muita afinidade. Mas o que importava para Marcela não era concluir se o dia havia sido bom ou ruim, mas perceber em cada acontecimento a sociedade entre a palavra e os fatos trazidos no transcurso de vinte e quatro horas. Foram significativas as ocorrências do dia intitulado Encontro: recebeu até mesmo carta de outro país, sem falar na amiga que não via desde a infância e que sem aviso prévio lhe chamou pelo nome e sobrenome em plena avenida central. Em se tratando de outra natureza qualquer, menos coincidência, os dias trazidos por palavras que por si só fazem o corpo da gente recuar – como nas vezes em que um surdo inicia um repique solene – Marcela compulsivamente tinha acesso aos jornais e aos noticiários televisivos. Eram os dias consagrados ao Desamor, Violência, Intolerância, Perplexidade, Humano, termos de uma sucessão de palavras-fatos, no mínimo, retumbantes. Mas Marcela passava por tudo isso convencida que todos os atos criminosos são consequências da perda de simplicidade. Os dias desajustados, desalinhados, impulsivos, sombrios, só se estabelecem quando a simplicidade perde a transparência. O ódio, o ciúme, a inveja, a paixão, são sofisticados processos imaginativos, capazes de trazer para o plano do real as barbáries de proporções inimagináveis.

Quando Marcela faleceu, sobre a mesinha de cabeceira os parentes encontraram várias cadernetas, em cada uma o mesmo sequencial de anotações. Uma série de palavras, cada uma referendada ao seu dia, mês e ano. Muitos se surpreenderam pela constatação de que Marcela nunca havia abandonado aquele procedimento, ou aquela maneira de levar a vida. Na estante uma quantidade grande de outras tantas cadernetas que obedeciam ao mesmo padrão de registro, catalogadas por ano. No último dia de vida de Marcela, nenhum fato foi capaz de prenunciar o desfecho: cumpriu a rotina que iniciava no trabalho e terminava nas aulas da faculdade de engenharia. Foi ao se recolher para mais uma noite de sono que um ataque cardíaco fulminante assediou a família de Marcela. Pode existir maior naturalidade em interromper uma vida com o emudecimento das batidas do coração? Marcela se retirou com a mesma simplicidade que regulou toda a sua existência.

Escriturado ao lado da última data preenchida na caderneta de Marcela, quebrando toda a harmonia de base da sua própria vida, não existia ali uma palavra, mas uma frase curta, sem nenhum desperdício de sentido. Uma frase que, segundo os plantonistas inventariantes de alma, sintetizava o entendimento e a conduta exercida por Marcela a respeito do sentido da vida por ela desfrutada.

E você? Qual a frase síntese da sua própria vida?

2 Comentários até agora.

  1. kelly disse:

    Assim como Marcela, me identifico na concessão de um poder místico às palavras, e também em considera ser ela [a palavra] capaz de influenciar as possibilidades de um dia-a-dia pleno, inundando de fragrâncias as probabilidades da existência.
    Diante das casualidades que muitas vezes culminam na interrupção das batidas do coração, dentre outras possibilidades de paralisia existencial, necessário tratar-se como uma magnitude narcísica a alternativa de se deixar algo para a posteridade. Particularmente não saberia, jamais, sintetizar algo que me é impossível sentir: a vida. Seria incongruente de minha parte, ou melhor, algo que escaparia ao constante duelo entre razão X emoção, achar uma palavra, ou um conjunto delas, que me dê um sentido conciso do que é essa sensação. Mas, talvez, e por que não!?, minha história poderia ser condensada em: um absurdo drama-cômico do qual se traz pouco e muito menos se leva.
    Adorei seu texto, já estava com saudades de te ler!!! Beijos saudosos.

  2. Renato Menezes disse:

    Pertubador… Leva a muitas reflexôes. Palavra ou significado? Força das palavras ou força dos pensamentos? Um diário secreto, só compreensível pela sua autora, com cada dia marcado por um vocábulo, cada vocábulo transmitindo vários acontecimentos? É possível sintentizar a vida – a própria vida – em uma palavra, um vocábulo, uma frase? São tantos os paradoxos, tantas as nuances, tantos os tons contidos em uma existência, que é sempre única… Um texto complexo, tão complexo quanto a vida, quanto a palavra, quanto o significado da vida ou o signiifcado de uma palavra. Pertubador. mas nem por isso menos belo.