E o tempo levou…

Meu nome é Joaquim. Carrego a minha idade, mas também sei me deixar carregar por ela. Moro numa casa enorme, cravada numa floresta que a urbanização teve a piedade de manter quase intacta. Comigo moram muitos outros. De comum apenas o fato de termos, mais ou menos, a mesma idade. Converso pouco com todos eles porque observá-los me diverte, me entristece. Me esgota. Quando vim para este asilo, ou albergue, ou hospício, ou abrigo, ou retiro (pelas minhas contas já se passaram quinze anos), ainda me era permitido sair e entrar com alguma independência. Atualmente só saio daqui nas vezes que leio os jornais. De certa maneira os jornais me levam para bem longe: passeio por outros países que ficam muito mais distantes que aquela pracinha na qual costumava passar as tardes nos dias que saia daqui. As minhas restrições físicas, ou melhor, geográficas, aconteceram com moderação, no arrastar de passos, cada vez mais vacilantes, da minha memória. Em nome da prudência meus guardiões impediram que eu transpusesse os muros. Para que mantivessem uma boa imagem/relação comigo, permitiram a minha saída desde que acompanhado por um familiar. Mas aos poucos a minha família foi esquecendo a minha existência e eu lhes fiz o favor de igualmente esquecê-la. Não me dei ao trabalho de contestar junto aos meus guardiões que o que para eles significava prudência, não passava de comodidade porque me queriam quietinho sem lhes dar trabalho, ou muito trabalho. Aceitei ser contido porque onde moro posso andar, andar, andar até ser alcançado pelo cansaço. Exercito-me com alguma constância percorrendo as alamedas e pátios do lugar onde moro. Meus olhos, ao tempo que alcançam o céu, também se interessam pelas variações de flores e frutos que as estações trazem, enfeitando os ciclos da minha natureza.

Os dias chuvosos são mais penosos. Têm gosto de antibiótico. Nós, velhos, somos propensos a vários tipos de infecção, chegamos mesmo, tempos atrás, a fazer um bolão tentando acertar qual de nós faria uso mais sistemático de antibióticos num intervalo de seis meses. Muitos não viveram para pegar a recompensa. Velhice cheira a farmácia antiga, daquelas de manipulação. Preso no acanhado do meu quarto, olhando a chuva pela janela e querendo que durasse o suficiente para satisfazer a vegetação, esse gosto de antibiótico sempre foi a minha companhia nesses momentos. O meu quarto é pequeno. Mantém proporcional correspondência com a minha vida. Cabe uma cama estreita, uma cômoda com três gavetões e uma mesa quadrada assistida pela solidão de uma única cadeira. Os meus pertences não causam inveja a ninguém: duas calças de brim que se revezam na lavanderia, quatro camisas de tergal que dispensam o ferro de passar, uma sandália de dedo e um par de sapatos que não precisam de cadarços. Para os dias mais quentes uma bermuda, igualmente de brim, e uma camiseta branca que no meu tempo era conhecida como camisa de português. Dois casacos para a friagem que é sempre mais aguda na velhice. Preciso dizer que quando vim para cá eu só precisava de dois pijamas, mas com o tempo e as incontinências fisiológicas decorrentes, adquiri mais cinco pijamas para a eventualidade de qualquer agravamento das especificidades clínicas. Diferente de muitos dos meus companheiros de clausura, me recuso a sair do quarto com vestimentas de dormir. Manter velhos hábitos, mesmo que desprovidos da importância que tinham, é a estratégia que encontrei para impedir aproximação com a senilidade. Um rádio tão antigo quanto o relógio de pulso que me acompanha desde antes da invenção dos relógios a bateria, são os bens mais valiosos que achei por bem preservar. Fora isso, alguns cadernos pautados preenchidos a lápis que eram febrilmente completados quando cheguei aqui, mas agora estão abandonados porque a vontade ficou melancolicamente esquecida.

Hoje completo os meus oitenta e seis anos. A moça da secretaria me acenou com um sorriso diferente quando fui dar a minha caminhada diária. Foi quando tive a confirmação, silenciosa, que é o meu aniversário. Ganhei de presente um dia lindo: um céu azul, uma aragem que carinhosamente me abraçou a cada passo, e até um sabiá me fez um cumprimento nervoso escondido nos galhos do abacateiro. Se não estiver enganado hoje é quarta-feira, então no cardápio principal teremos frango assado com legumes. Tudo quase sem sal. Minha vida.

A sineta toca. Todos caminham em silencio, passos arrastados, na direção do edifício principal. Uma grande mesa é ocupada por todos os meus companheiros. Somos todos hóspedes do nosso próprio exílio. Nossa solidão é mato alto. Terra abandonada.

Meu filho, depois de sete anos sem me visitar, ou talvez oito, – já não me recordo ao certo – o reconheço parado na porta do salão, passando em revista todos os ocupantes do refeitório. Discretamente o observo. As rugas começam a ocupar o seu rosto. Quando as espinhas foram substituídas por aquelas rugas? Não faço nenhum gesto para chamar a sua atenção. Tenho certeza que ele ficará uma eternidade parado ali, tentando me encontrar. Mas sou um outro qualquer, completamente diferente do pai que ele procura naquela minha última ceia.

3 Comentários até agora.

  1. kelly disse:

    Joaquim é uma grade alma reconhecendo a frivolidade das sensações/ilusões que nos tomam parte da vida. Uns dizem que isso dá sentido, outros, já decepcionados, ignoram tudo que, por alguma razão, traga signos de intuição, acaso, crença, esperança… Ele não!, seu paradoxo maior está no observar/perceber e suportar (no que percebe-se feliz), o avesso da tristeza do constatar/entender e perceber que nada é útil; nem ao menos um esforço para sinalizar àquele que entra, e, sem ter percebido o tempo que passou, não (re)encontra mais aquele rosto familiar, por dificuldades de ambos, já desgastado e com outros novos aspectos, o rosto do pai…Quanta energia desperdiçada no alcance de respostas?, quantas lamentações pelas frustrações que, com a delicadeza sarcástica da vida somos constantemente presenteados com o seu tapa, percebemos que somente nós é quem criamos expectativas. E agora Joaquim, como vislumbrar novos horizontes se o corpo já não permite mais extravasar energia?! Como dizer à mente que já não faça a ginastica de permanecer viva as lembranças….
    Joaquim é um homem que necessita ter mais voz; para mim, foi um conto que precisa de tantos outros contos, pois não há fim, ao menos esse fim dos questionamentos que penetra e propaga por todos as gerações… os dilemas da vida de qualquer um!
    Parabéns pelo seu texto/conto; simplesmente belo!

  2. Renato Menezes disse:

    Se em «O Velho Francisco» há alegria, provocada pelo ritmo da música, em «E o tempo levou…» há tristeza, provocada pelo tédio, pela monotonia, pela rotina pobre, pela espera do passar do tempo – ainda que tingida de uma certa energia que procura combater o desgaste dos anos e promover alguma esperança no fato de se continuar vivo. Um ensaio onde a resistência combativa teima em prevalecer apesar de tudo e de todos. Nesse sentido, não deixa de ser um louvor à vida que, aos poucos, vai-se esvaindo. Belo texto!

  3. Tania disse:

    Que lindeza de serenidade com a vida. bj