Nem sabia que era meu aquele dia

Eu tinha tudo praticamente acertado: acordaria; tomaria um banho; escovaria os dentes somente após a dose matinal de café preto; colocaria as roupas, quase esportivas, separadas na noite anterior e daria especial atenção ao calçar os sapatos de mocassim novos. Foram comprados na liquidação de uma loja prestes a ser liquidada naquele ano quando a inflação alcançou índices possíveis aos contos de bruxa má. Ano difícil. Cheio de apelos para as coisas baratas de qualidade duvidosa. Incluindo a vida de todos. Ou pelo menos a vida de uma enorme maioria.

Mas o que havia sido programado não aconteceu em conformidade ao imaginado. Talvez este tenha sido o meu erro: não ter colocado no papel o que a imaginação enquadrava, ajeitava, retocava. Palavras escritas são procurações com plenos direitos a reger nossas vidas. Não coloquei no papel o roteiro e aí as circunstâncias embaralharam tudo. Mas continuei com as roupas esportivas e mocassim novos. E o meu figurino não tinha nada a ver com o filme do dia.

No planejamento inicial seria um dia ensolarado. Choveu. O carro popular, comprado em 60 parcelas – nem todas pagas – que rastrearia a minha aventura, não estava onde eu o havia estacionado após encher o tanque. Boletim de Ocorrência e tantas horas perdidas. A minha indignação seguia num crescente: tanto pelo carro roubado quanto pela indiferença dos policiais que escrituravam o furto com olhares e movimentos flácidos de corpo que me colocavam como responsável pela perda de tempo deles e minha. A essa altura do campeonato seu carro já deve ser um monte de peças esquartejadas, irreconhecíveis no que era sua propriedade. Peguei o celular, mas não há o que ser feito (salvo esbravejar) quando a operadora recusa a fornecer o sinal, aquele barulhinho que parece ser o mesmo desde a invenção da maquineta e que nos permite acessar os outros à distância, ou aquele barulhinho pelo qual você paga mensalmente uma fatura que lhe permite avaliar financeiramente o quanto você é um ser comunicativo.  Não sei por que me lembrei daquele slogan antigo do governo: Brasil, país do futuro. Sabe qual é? Que imaginação podre daquela turma já que a atualidade do país é o futuro que eles (des)construíram para o aqui e agora. Propaganda enganosa de governo é um dos crimes hediondos que escapam do abraço da Justiça. Mas a Justiça além de cega com certeza sofre mutilações contínuas a cada impunidade das muitas que circulam nos corredores palacianos. Sem celular operante, não podia avisar Mariana. Você já viu que está chovendo? Pois é, roubaram o meu carro, não sei se antes ou durante a chuva.

Sem contato telefônico, seja com Mariana seja com o mundo, me sentia mais desamparado que nunca. Colocado numa outra cena, interpretando a sequencia dos fatos sem nenhum ensaio, sem nenhum texto decorado. O mocassim barato, muito provavelmente não suportaria a quantidade da chuva, cada vez mais intensa.  Enchente na cidade. Eu saturado da vida que se improvisava. Mariana sempre me acalmou. Não que eu fosse dado a ataques de fúria e rompantes violentos. Nada disso. Mariana sempre me acalmava das angústias frequentes que me impediam qualquer manifestação de simpatia e bom humor na direção do mundo. Sem Mariana, sem condições de recuperar o que havia sido combinado para aquele dia, me restavam as roupas esportivas e o mocassim sem prazo de validade garantido. Fazer o quê?

Foram três horas de delegacia. Três horas de chuva. Três horas de celular inoperante. A manhã já evoluíra e o início da tarde não se fazia de rogado sob o céu cinzento, o mesmo desde o amanhecer. Saí da delegacia e fui tomar café num botequim tão sujo que mais parecia uma extensão da delegacia. Daqueles “puxadinhos” que guardam todas as características esteticamente comprometidas do prédio principal. O que eu queria mesmo era fugir, ao menos da chuva, já que fugir daquele dia me era de todo impossível dado ao nível de exigências e urgências que me consumiam. Entrei no botequim e a água da chuva mantinha uma relação indesejável com os meus sapatos e, principalmente, uma intimidade sem limites com os meus pés. Eu fazia qualquer movimento com os pés e um som estranho – sapatos encharcados – denunciava o quanto o meu dia e os meus pés estavam naufragados. Espantei as moscas e tomei o café que para a minha surpresa tinha gosto bom, de recém-coado. Se estivesse um pouco mais forte – o café, não eu – teria me tornado um freguês do tipo contumaz daquele botequim pé sujo. Os meus pés também, bem entendido.

Depois de três cafés concluí que ficar ali esperando a chuva passar poderia significar perder por completo o que me sobrava daquele dia. Como já estava bem molhado e com os sapatos destruídos, resolvi que voltar para casa o quanto antes era a decisão mais sensata para evitar um resfriado. Era só atravessar a rua e pegar o ônibus que me deixaria em frente a minha casa. Era tomar um banho quente, uma dose de conhaque, jogar o mocassim no lixo, fazer contato com Mariana, e ficar grudado na frente da televisão sem pensar mais naquela confusão toda.

Claro! Tinha que aparecer aquele carro desgovernado para atrapalhar tudo. Quando dei por mim, estava estirado no asfalto molhado, sentindo um frio estranho, sem entender direito aquela roda de pessoas debruçadas sobre mim com os olhos esbugalhados e gritando possibilidades sobre as minhas condições físicas que ora me sentenciavam à morte e ora garantiam que eu iria sobreviver. Um cansaço enorme foi tomando o meu corpo. Não sabia se era eu desistindo de alcançar qualquer outra ideia para ocupar aquele dia, ou se era a vida que desistia de mim, se afastando e me deixando um cansaço que impedia que eu mantivesse meus olhos abertos. Quando a ambulância chegou com aquela estridência toda na minha direção, ferindo avassaladoramente a discrição que por princípio norteei a minha existência, entendi que era absoluta a minha impossibilidade de interferir nos acontecimentos. Sem vontades, sem desejos, sem expectativas nem perspectivas, assistia a vida fazendo de mim o que bem entendesse. Nenhuma resistência de minha parte.

Antes de desmaiar – ou morrer – olhei para o lado e o Boletim de Ocorrência se libertara do meu bolso e se afastava seguindo o fluxo da correnteza formada no asfalto. O celular acreditem vocês, tocou. Alguém o arrancou de mim com alguma violência. Fiquei sem saber se eu era vítima de um novo furto ou se a atitude era para informar o acidente a quem me procurava. São tão imprevisíveis as reações humanas. Mas sobre o imponderável e seus derivados não precisava mais perder meu tempo tentando entende-los. Eu fui assim…

2 Comentários até agora.

  1. kelly disse:

    Simplesmente o absurdo seguindo seu curso sem bandeirada consciente, tanto de partida quanto de chegada. Este conto acende, dá luz, aquilo que por vezes é recalcado: impotência.
    Parabéns!!!

  2. Renato Menezes disse:

    Ótimo ensaio! O tormento diante de um daqueles dias em que tudo parece dar errado. O desespero conformado diante do inevitável. Desejo de apagar os fatos e começar tudo de novo – como se fosse possível alterar o rumo dos acontecimentos, modificar o que fora traçado pelo Destino. Angústia face à impossibilidade de não poder voltar atrás e recomeçar.