A conta, por favor

- A gasolina já aumentou?

- Não, somente às 18h de hoje.

- Enche o tanque até a indicação da bomba, por favor.

Por favor, aqui, é a fronteira entre alguém que não tem nada com isso e a indignação de outro alguém por ter que pagar aumentos, aumentos, aumentos. A expressão dos outros motoristas que entraram no posto de gasolina era a mesma daqueles que enfrentam as caixas registradoras dos supermercados. Um suspiro calculando por alto os gastos acumulados no cartão de crédito. Um segundo suspiro para os desatinos que podem ser mensurados pelos impostos que crescem, pelas alíquotas estabelecidas contra nós, pela batata que desbancou o valor estratosférico do tomate de algum tempo atrás. Às vezes o cansaço toma conta e tenho que me controlar para não me reconhecer agindo igual aos que faço oposição.

O rei está nu. E nenhuma camada de tinta pode tornar palatável tudo que vem a reboque do caos político em que estamos mergulhados. E de um mandato a outro – o mesmo – a angústia passa a ser o cardápio de todos os dias. Perdemos para a corrupção. Perdemos quase tudo para uma ideologia partidária. Perdemos para os exemplos comuns, longe de serem dignificantes. Convivemos com as balas perdidas, com as crianças armadas, com o sem limite em querer tirar vantagem de tudo.  A insatisfação é uma unanimidade corrosiva infiltrada nas expressões extremas das barbáries com as quais convivemos. Votar parece não ser mais capaz de nos levar à redenção. O ar asfixiante se alastra e o medo é a máxima norteadora do limite estreito que nos leva a matar ou a morrer. Perdemos a dignidade, perdemos o orgulho. “Sou brasileiro, com muito orgulho” é um refrão estagnado numa história de retrocessos.

Esqueçam a panfletagem mentirosa alimentada por décadas a fio. Nós não somos um povo alegre. Não somos um povo pacato. Não somos um povo tolerante. Não somos um povo “boa gente”. Estamos por aí, despejando nossa crueldade nas filas de ônibus, no desrespeito aos idosos, nas críticas a todos que não pensam como a gente, no bullying àqueles que fisicamente desprezamos, na arrogância intelectual enlameada de ironia com relação aos outros. Somos selvagens e enquanto não aceitarmos este fato, a nossa indignação continuará sendo uma hipocrisia realimentada pela demagogia tacanha que sobrou para as nossas vidas.

A indignação não é um sentimento que surge quando nos debruçamos na janela e observamos a vida alheia. Ao menos não deveria ser assim. Se sinta indignado para nunca estacionar em local proibido. Se sinta indignado o suficiente para ceder lugar no ônibus a quem mais precisa viajar sentado. Se sinta indignado recusando se hospedar nos hotéis que cobram diárias elevadas, mas não se aplique a qualquer tipo de compensação levando para casa uma toalha, um talher, seja lá o que for que não lhe pertence. Se sinta indignado com a violência do trânsito, então dê passagem àqueles arriscadamente apressados, cujos motivos você desconhece. O mundo é uma ameaça tecida nas vantagens que queremos com relação a tudo e a todos. As boas maneiras, daquelas bem simples, que não elevam o tom de voz e se dedicam à gentileza, preferencialmente praticadas junto a estranhos, é a indignação mais revolucionária. As transformações que promovem esse tipo de indignação só conhecem os capazes de exercitá-la.

Sim, eu sei. Você foi procurar atendimento médico no posto de saúde e depois de cinco horas esperando vieram te dizer que o especialista havia faltado. Você foi esclarecer seu ponto de vista com aquela pessoa e teve que ouvir um monte de desaforos sem a menor chance de ser ouvida. Você agendou a vistoria do carro e a retirada do passaporte, mas os serviços públicos estão em greve. Você não sabe o valor exato dos bilhões que foram roubados da PETROBRÁS, mas a gasolina aumentou aqui enquanto no resto do mundo os preços despencam. Você ficou se sentindo um idiota esperando na plataforma o trem que nunca chegaria porque houve um “apagão” na cidade. Eu sei disso tudo. Só quero deixar claro que não é depredando o patrimônio público (ou privado), ou partindo para uma luta corporal, que a nossa realidade irá se transformar. Enquanto cidadãos as opções ainda existem para reivindicarmos nossos direitos. Sim, sei que os caminhos legítimos são morosos e a civilidade anda sempre numa corda-bamba, confrontada com a nossa reduzida tolerância. Mas o momento requer muita reflexão para que nossos atos não se igualem aos dos que nos causam repúdio.

Está difícil. Na beira do insuportável. Admito. Questões de subsistência estão em jogo. A instabilidade entrou na nossa corrente sanguínea. A respiração está curta e cheia de sobressaltos diários. É este o momento de nos posicionarmos.

Se não quisermos muito do que está aí e que nos foi imposto (perdão pelo trocadilho), precisamos serenidade e convicção de princípios para nos distinguirmos de tudo que reprovamos. Fora isso, seremos cúmplices das atrocidades e sem direito à indignação, pois teremos aceitado e estaremos agindo da mesma forma.

2 Comentários até agora.

  1. Katia disse:

    Concordo com suas palavras. Nosso telhado é de vidro.

  2. Mônica Barros disse:

    Perfeita colocação!